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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Graças à Virgem Santíssima, ainda se há de remediar tudo. Tenho fé na minha Senhora da Penha, ela que sempre me tem valido. 

Ergueu Arnaldo a cabeça com gesto brusco e arrancou-se dos braços da mãe, para aplicar toda atenção ao estrépito que lhe ferira o ouvido. A mãe sorriu com disfarce. 

— Flor? interrogou o sertanejo em tom submisso. 

Justa afirmou com a cabeça. 

 

XVIII – Desengano 

 

Arnaldo traspassou com o olhar a espessura da folhagem que lhe ocultava a formosura de D. Flor, e instintivamente retraiu-se com o enleio em que sempre o lançava a presença da donzela. Justa o deteve, segurando-lhe o braço e apontando para dentro do mato. 

— Ela falou ao pai. O sr. capitão-mór, tu bem sabes, não tem ânimo de recusar nada àquela filha, que é a menina de seus olhos. Então prometeu que, se hoje mesmo voltares arrependido à sua presença para suplicar o perdão de tua falta, êle esquecerá tudo. 

Arnaldo talhou a mãe com um gesto de enérgica repulsa: 

— Não cometí nenhum crime para carecer de perdão, mãe. 

Justa denunciou no semblante a estranheza que lhe causavam as palavras do filho: 

— Pois não desobedeceste ao sr. capitão-mór, Arnaldo? 

— Para desobedecer-lhe era preciso que êle tivesse o poder de ordenar-me que fosse um vil; mas êsse poder, êle não o possue, nem alguém neste mundo. O sr. capitão-mór exigiu de mim que lhe entregasse Jó, e eu recusei. 

— Mas, filho, o sr. capitão-mór não é o dono da Oiticica? Não é êle quem manda em todo êste sertão? Abaixo de El-rei que está lá na sua côrte, todos devemos serví-lo e obedecer-lhe. 

— Pergunte aos pássaros que andam nos ares, e às feras que vivem nas matas, se conhecem algum senhor além de Deus? Eu sou como êles, mãe. 

— Tu és meu filho, Arnaldo. Lembra-te do que foi para teu pai esta casa onde nasceste, e do que ainda é hoje para tua mãe. 

— Os benefícios, eu os pagarei sendo preciso com a minha vida; mas essa cida que me deu, mãe, se eu a vivesse sem honra, meu pai lá do céu me retiraria sua bênção. 

— Que vai ser de mim, Senhor Deus? exclamou a sertaneja na maior aflição. 

— Sossegue, que nada há de acontecer. Tenho o meu bentinho, continuou Arnaldo a sorrir e tocando no seu relicário: não há mal que me entre, nem feitiço que me enguice. Adeus! De longe mesmo guardarei àqueles a quem eu quero bem, ainda que êles me queiram mal. 

— Ouve, Arnaldo! disse a mãe buscando reter o filho. Eu te peço! 

— Quando precisar de mim, mande sua comadre chamar-me. 

— Não te vás, filho, que te perdes! 

Justa enlaçou o colo do filho com os braços e exclamou voltando-se para o mato. 

— Flor, êle não me quer ouvir! 

As fôlhas agitaram-se, e instantes depois surgiu da verde espessura, como das cortinas de um dossel, o vulvo gracioso de D. Flor, com as faces tocadas de leves rubores. 

— Êle não quer ir, minha filha. Nem ao menos consente que eu, sua mãe, lhe peça e rogue. Fecha-me a bôca, e logo com o nome do pai. Fale-lhe, Flor! Talvez a você, que sabe dizer as coisas, êle ouça! Eu sou uma pobre sertaneja e não sei senão querer bem a você e a êste filho de minha alma. 

A donzela aproximou-se do colaço, que a esperava atônito e pálido. Pousando-lhe a mão mimosa no ombro disse, voltando-se para a Justa e dirigindo sua resposta a ambos, mãe e filho. 

— Êle vai! 

O suave contacto dêsses dedos melindrosos bastou para abater a energia do ousado sertanejo. Alí estava êle agora tímido e submisso, não se atrevendo a balbuciar uma palavra, nem sequer a erguer a vista ao encontro dos olhos altivos que o dominavam. 

D. Flor sorriu-se no meigo desvanecimento do poder que ela, frágil menina, exercia sôbre essa natureza pujante; mas o assomo de faceirice passou rápido e não perturbou o nobre impulso de seu coração. 

— Vim  buscá-lo, Arnaldo, para levá-lo à casa, disse ela repassando a voz maviosa de um mago encanto. Não me acompanha? Ainda não lhe dei a lembrança que trouxe do Recife. 

Arnaldo arrancou-se com esfôrço ao lugar onde estava, e murmurou promovendo o passo: 

— Vamos! 

Justa bateu palmas de contente. 

— Eu logo vi que só você, Flor, era capaz de fazer o milagre! 

— Pois eu sou a fada encantada! disse a moça, fazendo com êste gracejo uma alusão aos brincos da infância. 

Flor dirigiu-se à casa acompanhada pelos dois. Pouco adiante encontrou Alina com as escravas, que a ficaram esperando, enquanto ela acudia ao chamado da ama. 

O olhar doce e melancólico de Alina fitou-se no semblante de Arnaldo, que nem pareceu dar por sua presença. O sertanejo ia completamente alheio de si e preso do condão que o arrastava mau grado seu. Não tinha conciência do que fazia, nem já se lembrava do sacrifício que exigiam de seus brios. 

Irresistível devia ser a paixão que submetia assim um caráter indomável e altivo ao ponto de rojá-lo na humilhação, ao simples aceno de uma mulher! 

(continua...)

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