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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

O chileno mostrou a Francisca e à filha uma grande porção de jóias e galanterias, que trazia para tentar as damas. As duas mulheres se esquivaram, dizendo que estes objetos não eram para elas, e sim para gente rica; mas D. Romero tinha palavras tão insinuantes, maneiras tão corteses, que elas não puderam afinal resistir ao desejo de ver coisas tão bonitas. 

Na passagem dos objetos de mão em mão, o chileno aproveitou a ocasião para cerrar os dedos mimosos da moça. Ela zangou-se, mas encontrou um olhar suplicante, que a desarmou. Contudo resguardou-se contra nova tentativa. 

D. Romero cativara o agrado de Francisca e desde então era bem recebido sempre que se apresentava em sua casa sob qualquer pretexto. 

 

Livro Terceiro 

MORENA 

 

A MULA 

 

Cruzando a coxilha grande, que atravessa a província de São Pedro, se alonga a serra do mar, como a bossa granítica daquele espinhaço. 

Ao norte ficam as altas regiões, as chapadas da montanha; ao sul dilata-se a imensa campanha que vai morrer nas margens do Uruguai e do Paraná. 

Estas vastas campinas, que se desdobram pelas abas da coxilha grande, são como as páginas de um capítulo da história do Brasil.  

O dorso da coxilha é o lombo do livro; as folhas espalmam-se de um e outro lado. Aí escreveram as armas brasileiras muita coisa admirável: grandes feitos, combates gloriosos, brilhantes painéis em rude tela. 

Que recordações heróicas não despertam os nomes de São Borja, Ibicuí, Rosário, Corumbá, Índia-Morta, São Carlos, Catalã, Taquarembó e Paissandu! 

A imperícia e negligência lançaram, é verdade, feias nódoas no brilho daquelas páginas, e algumas por infelicidade bem recentes nódoas. As fronteiras onde outrora foi Artigas batido sucessivamente em vários combates, percorreu-as impune há quatro anos o bárbaro paraguaio, desde São Borja até Uruguaiana; e ao cabo dessa afronta, sitiado por forças três vezes superiores, esfaimado e inanido, logrou uma capitulação honrosa. 

Ainda bem que o heroísmo brasileiro acaba de escrever nas laudas selvagens do Paraguai uma grande epopéia. A lembrança daqueles erros do passado, já de todo a apagaram as vitórias memoráveis de Riachuelo, Tuiuti, Curuzu, Humaitá, Itororó, Peribebuí e outras jornadas gloriosas. 

Sete anos havia que na campanha rio-grandense cessara o estrépito das armas. Depois que Buenos Aires, temendo a reação do patriotismo brasileiro afrontado com as tristes jornadas de Sarandi e Itusaingó, pedira a paz, a província de São Pedro gozou de alguma tranqüilidade. Embora às vezes repercutisse na fronteira a agitação dos estados vizinhos, as labutações pacíficas da indústria sucederam geralmente às lides guerreiras. 

Entretanto quem percorresse a campanha no mês de agosto de 1835, observaria certo movimento que não era normal, e desaparecera desde a paz de 1829. Pelas estradas encontrava-se a cada instante gente armada, que ia se reunindo pelo caminho, e formando pequenas partidas; assim como em sentido inverso, famílias que emigravam de um para outro ponto da província. 

O aspecto animado daquela gente, a sofreguidão que se traía em sua marcha, o ar resoluto das fisionomias queimadas pelo suão, eram sintomas bem claros da próxima luta. 

Essa agitação que se propagara por toda a fronteira, desde Jaguarão até São Borja, convergia para as proximidades da capital, mas especialmente para as margens do Piratinim. Aí, ao que parecia, era o ponto de reunião; as próximas estâncias situadas à beira do rio, estavam desde muitos dias cheias de hóspedes e peões, recém-chegados. 

Onde o movimento se fazia mais sentir, era na estrada que, partindo de Porto Alegre como a aorta dessa nascente civilização, se bifurca na Encruzilhada, e lança as duas artérias tibiais uma para Uruguaiana e outra para Jaguarão. Por esta segunda estrada, em um dos últimos dias de agosto, caminhavam alguns viajantes que se dirigiam da vila do Erval à de Piratinim. 

Adiante algumas braças, ia uma moça que teria pouco mais de dezesseis anos, apesar do completo desenvolvimento de sua beleza. A roupa de montar era de ganga; a saia, que se desfraldava em largas dobras, não apagava de todo os contornos das formas graciosas, cujo firme relevo traía-se com o movimento da equitação. O jaquéu justo, talhado à guisa de fardeta curta de soldado e enfeitado de alamares e dragonas de retrós, desenhava com a correção do cinzel antigo um busto encantador. 

Era a moça de um moreno suave, que nos momentos de repouso, em contraste com o jaquéu escuro, se desvanecia; porém quando a agitava alguma comoção, sua cútis velutava-se com o fulvo arminho de uma corça. Nunca sob róseas pálpebras brilharam com tão vivo fulgor, mais lindos olhos crioulos, grandes e rasgados; nem brincou, entre lábios feiticeiros, sorriso mais brejeiro e provocador. 

(continua...)

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