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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Quer, como às duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanheis até à porta da gruta.

— Eu estou pronto, senhora, para servir-vos em tudo.

Só restava d. Joaninha: era a vez dela.

— Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é que eu mais admiro, porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido; eu vos explicarei isto. Sois, todavia, um pouco excessiva em exigências.

— Que quer dizer, sr. Augusto?

— Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana, pelo menos; que passe defronte de vossa casa quatro vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais, e até que não fume charutos de Havana, nem de Manilha, por ser falta de patriotismo.

Quem lhe disse isso, senhor?

— A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais a honra de chamar querido primo.

— E uma vil traição!

— Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais, senhora, quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas...

— Não as tenho eu bastantes, exclamou d. Joaninha com sentimento, quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente?

Augusto ia falar; ela o interrompeu.

— Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis zombar de mim, como das outras, mas não o fez; ao contrário, atalhou em princípio uma grande enfermidade, que, talvez, fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes, porém sei amar ao extremo. Adeus, senhor! Eu posso apenas agradecer-lhe, dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter, que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo.

D. Joaninha ia deixar a gruta, e Augusto lhe ofereceu o braço.

— Agradecida, disse ela; permita que eu entre sé em casa. Augusto ficou sé. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar; finalmente disse, soltando uma risada:

— Vieram buscar lã e saíram tosquiadas!

E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma voz branda e sonora o suspendeu, dizendo:

— Agora, sr. Augusto, é chegada a sua vez...

CAPÍTULO XVIII

Achou quem o tosquiasse

Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o copo de prata.

— Minha senhora!... balbuciou o estudante confuso.

D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso e depois assim:

— Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras; uma outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante, eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio.

A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois, imitando o estilo de Augusto que se achava junto dela, disse:

— Quereis que vos fale do passado, do presente, ou do futuro?

— De todas essas épocas... ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.

— Pois então principiemos pelo passado. Oh! Que belas revelações me faz a fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida estou vendo tudo, estou dentro do vosso espírito e de vosso coração!

— Oh! Sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante. A menina fingiu não entender a alusão e continuou:

— Senhor, vós amastes muito cedo… creio… sim, foi na idade de treze anos.

Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:

— Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem brincastes à borda do mar.

— E quem era ela? Como se chamava? perguntou Augusto com fogo, talvez pensando que d. Carolina estava com efeito adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava.

Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz o que se passou em vosso coração, e vós, por certo, que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de — minha mulher.

— Prossiga, minha senhora!

Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo, esmeralda, camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha, que cedo começava a fazer loucuras.

— Que cruel juízo!

— Oh! Não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém vamos acabar com o vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas, e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!

E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.

— Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.

A primeira jovem que requestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! Não foi assim?

E a menina de novo desatou a rir.

— Minha senhora, de que se ri tanto?

Ora! E que a fada está me dizendo que ainda em cima os vossos amigos, quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!

— Então a sra. d. Ana lhe contou tudo isso?

— Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos.



(continua...)

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