Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

E com o olhar inflamado cobriu o rosto da menina, como quem queria de um jato de luz iluminar-lhe, não o rosto, mas sim os recantos de seu coração, e descobrir-lhe os segredos que a inocência e a pudicícia da primeira mocidade não permitiam subir aos lábios dela para se revelarem ainda que fosse a uma amiga. Sinhazinha prosseguiu:

— Eu não me enganara, D. Maurícia.

— Não se enganara! - exclamou Maurícia.

— Não, não, D. Maurícia. O Dr. Ângelo começava a amar-me, e eu... eu de há muito que o amava.

Maurícia esteve um momento sem saber o que dizer. Faltou-lhe a voz. Seus olhos fixos sobre o rosto da moça tinham a imobilidade dos olhos dos finados; mas, quando era esta a expressão exterior do seu rosto, sentia ela no cérebro o torvelinho e o fogo precursores da loucura.

— Oh! Não imagina como fui feliz durante os dois primeiros meses do meu malfadado amor!

— Malfadado? - inquiriu Maurícia, respirando como quem apartava de seu peito um peso que ameaçava sufocá-la.

— Eu lhe contarei tudo. O Dr. Ângelo não faltou mais de tarde em casa de seu cunhado. Aí conversávamos largas horas. Nos domingos o meu prazer não tinha limites. Eu sentia-me orgulhosa de ser a única dentre as demais senhoras que concorriam ao retiro literário para a qual o Dr. Ângelo tinha todas as atenções. A mãe dele que nos últimos tempos já entrara nas relações íntimas de D. Eugênia, acompanhava o filho, e dava particular encanto à reunião. É uma senhora de alta distinção que cativa pela sua benevolência e brandura de alma. Eu já via nela, não sei por que singular favor da minha fantasia, a minha segunda mãe, quando uma circunstância veio privar-me desta deleitosa união. Uma atriz da companhia dramática, que chegou ultimamente, trouxera para o Dr. Ângelo carta de apresentação de um literato de Lisboa. Essa atriz procurou-o no escritório e entregou-lhe a carta. Ela é bonita, D. Maurícia, como poucas mulheres tenho visto tão bonitas entre nós. Por que motivo não hei de prestar este tributo à verdade?

— Por muito bonita que ela seja - disse Maurícia - não há de exceder a você em boniteza.

— Quando a vi pela primeira vez no teatro, não pude fugir de render certa homenagem ao seu talento e aos seus encantos; mas o que praticou depois, o modo por que ainda procede dão-me o direito de odiá-la.

Depois de um momento de silêncio, Sinhazinha continuou:

— No domingo que se seguiu à apresentação dela ao Dr. Ângelo, e às primeiras representações teatrais, falou-se muito nela no sítio do Sr. Martins. O Dr. Ângelo fez-lhe os maiores elogios; o Martins mostrou-se inteiramente de acordo com ele neste ponto; os outros moços que estiveram presentes só se ocuparam com ela. Oh! A senhora mal sabe quanto eu comecei logo a sofrer por causa dessa mulher.

E os olhos de Sinhazinha arrasaram-se de lágrimas.

Maurícia sentiu mais espanto, mais surpresa do que dor; mas a sua curiosidade e impaciência eram ainda maiores.

— Quantas novidades dentro de pouco mais de três meses! - exclamou com amargura.

— Uma semana depois, comecei a notar grande mudança no Dr. Ângelo. No domingo, faltou ao retiro; no sábado anterior, já tinha faltado ao chá em casa do Sr. Martins, onde, havia mais de um mês, era um dos hóspedes mais certos. Então, pelas conversações dos moços que estiveram presentes , eu inferi que ele estava apaixonado pela Júlia (tal é o nome da atriz). Oh! D. Maurícia, quando me convenci que ele me deixava por essa mulher que nunca será capaz de lhe ter o amor que eu sinto por ele, oh! não sei como não me estalou a cabeça! Há mais de um mês que dura o meu tormento. Não vê como estou? O sono fugiu dos meus olhos, o prazer abandonou a minha alma. Com a minha tristeza, mamãe anda aflita. Ela sabe de tudo o que se passou entre mim e ele. Tem procurado consolar-me, mas não há consolação para quem sofre como eu. Entrei nesse amor com toda a minha existência. Eu via no Dr. Ângelo, não só a minha felicidade, mas a minha nobreza. Considerava-o já uma parte de mim mesma, quando entre mim e essa parte em que estavam concentrados todos os meus afetos se interpôs fundo abismo, e eu fiquei com todas as angústias que deixa o ladrão no espírito da pessoa a quem roubou o maior tesouro.

Dizendo estas palavras, Sinhazinha deu largas ao seu pranto; e Maurícia, que, no começo da narrativa a ouvia com intenção reservadamente hostil, não pode deixar de comover-se. As lágrimas da ingênua moça eram irmãs das suas; vinham do fundo do coração, porque tinham por origem o amor infeliz.

Maurícia pegou de uma das mãos de Sinhazinha como quem queria animá-la a prosseguir suas queixas, que pareciam poder mais do que ela. Sinhazinha continuou:

— Lembrei-me, então, da senhora para me ajudar a tirá-lo do poder deste monstro encantador que o traz tão escravizado aos seus mágicos feitiços.

— De mim, Sinhazinha, lembrou-se de mim? - inquiriu Maurícia, repentinamente.

— Eu sei que o Dr. Ângelo a tem no maior conceito. Não fui testemunha do modo como ele a tratou no domingo em que estivemos todos reunidos por ocasião do aniversário natalício de D. Eugênia?

— Não tenho a menor importância para ele. Atualmente eu me considero objeto do seu ódio.

— Do seu ódio! Não diga isso. Por que é que ele há de ter-lhe ódio?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →