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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Cuidava que a flor delicada do amor, cujo perfume aspirava desde o berço, tinha morrido de uma vez para sempre abafada debaixo do manto gélido do ascetismo claustral. Mas ela era como a "sempre-viva" que, exposta ao orvalho frio da noite, esconde o seio fechando sobre ele as pétalas de ouro, para expandi-las de novo, nítidas e formosas, aos beijos do primeiro raio do sol. Ela havia apenas cerrado o seu cálix na sombria e silenciosa solidão da cela do cenobita, e agora ao contato do ar, à vista do solo onde nascera, procurava abrir-se ao novo exalando mais ativo o aroma há tanto tempo enclausurado, e rodeava o coração do moço como de um tépido e delicioso eflúvio de recordações.

Sentindo esse inesperado despertar de emoções, que julgava para sempre extintas, o padre estremeceu de sustos, e se esforçou por conjurá-las do melhor modo possível por meio de orações e penitências. Viera ao seu país natal, somente para visitar seus pais, que há tantos anos não via, e dar-lhes o gosto, por que tão ardentemente suspiravam, de vê-lo ordenado e ouvir-lhe uma missa; e no fim de uns quinze dias ao mais tardar pretendia voltar ao seminário a continuar a sua vida austera de cenobita e entrar para a Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo. Mas tomado de susto e de sinistros pressentimentos, já se arrependia do passo que havia dado. A noite que passou na fazenda paterna foi para ele uma noite de horríveis inquietações e tribulações de espírito. Se não fosse a estranheza, que tal fato iria produzir em sua família e mesmo em toda a povoação, nessa mesma madrugada teria desaparecido sem dar parte a ninguém, e a toda a pressa voltado ao seminário a fim de pôr-se ao abrigo do espírito tentador que de novo buscava atravessar-se em seu caminho, e preparar-lhe novas lutas e dissabores.

No outro dia o padre Eugênio levantou-se com o espírito cheio de terrores e de vagas apreensões. Em companhia de seus pais, pôs-se a caminho para a vila triste e inquieto, como quem ia para um Getsêmani de provações, ou como quem marcha por um caminho estreito e escabroso flanqueado de abismos vertiginosos.

Avistando em distância a casinha de Umbelina, já tombando em ruínas e abafada entre o matagal, que lhe crescia em roda, sentiu uma nuvem de tristeza afogar-lhe o coração, e procurando afetar indiferença, não pôde deixar de perguntar pelos antigos habitantes daquela casinha.

— Eu sei! — respondeu friamente o pai. — A Umbelina, essa morreu... a filha, como talvez já saibas, casou-se, e creio que anda por aí mesmo.

Antes nada perguntasse!... bem quisera que Margarida se achasse a milhares de léguas. Esta informação veio ainda mais alarmar a consciência já tão aterrada do jovem sacerdote. Cheio de terrores e apreensões sinistras, estremecia só com a idéia de encontrar-se com Margarida, e implorava a Deus do fundo da alma, que lhe poupasse aquela dura provação, que lhe arredasse dos lábios aquele cálix de amargura.

Mas por fim envergonhou-se de seus próprios terrores, e procurou revestirse de coragem.

— De que estou eu a tremer? — perguntava a si mesmo. — Margarida é casada... está morta para mim, e não pode senão recordar-me um passado, que foi de paixão e fogo na verdade, mas que há muito se acha sepultado debaixo de uma lápide de gelo... E mesmo que assim não fosse, serei eu tão fraco, tão indigno e vil, que ainda consinta aninhar-se debaixo destas vestes sagradas um sentimento ímpio e profano! Não é fugindo do inimigo, mas travando com ele, que o soldado se torna digno de cingir os louros da vitória. Se por fraco e pusilânime sou incapaz de combater, deveria nunca ter deixado a sombra do lar paterno, deveria nunca ter tomado estas sagradas insígnias de soldado da Cruz! Ânimo pois... — a coragem te dará força!... estas palavras de um grande santo, que muito mais do que eu sofreu e combateu por amor de Cristo sejam o meu talismã através dos perigos e tentações do século.

Era já noite cerrada, o concurso das visitas ia se diminuindo, e na sala do padre apenas se contaria meia dúzia de pessoas. Bateram à porta; alguém procurava o Sr. padre Eugênio.

— Pode subir — disse ele cuidando ser mais alguma visita.

— É um rapazinho, que quer falar a V.Rma. — lhe disseram.

O padre levantou-se e dirigiu-se para o topo da escada.

— Que me queres, filho?

— Eu venho da parte de uma pobre mulher — respondeu o rapaz — pedir ao senhor padre pelo amor de Deus, para ir confessar uma pessoa que se acha à morte.

O padre estremeceu; um confuso e sinistro pressentimento lhe atravessou o espírito.

— Pois não há aí o senhor vigário, ou outro qualquer sacerdote, filho? eu acabo de chegar de viagem, e acho-me bastante fatigado...

— Já fui à casa do senhor vigário, e disseram-me que foi fazer um batizado fora daqui a cinco léguas, e que não volta senão depois de amanhã.

— E a pessoa para quem me chamam está em grande risco de vida?...

— Está, sim senhor, se não fosse isso, eu não viria incomodar o senhor padre...

— Nesse caso... não há remédio senão acudir-lhe... Mora muito longe a pessoa, a quem tenho de confessar?...

— Não senhor; é mesmo na povoação; o senhor padre pode ir a pé; é lá no fim da vila, mas não é muito longe.

— Visto isso, filho, espera aí um momento para ires comigo, e me guiares até lá.

O padre depois de desculpar-se para com suas visitas, informando-as do motivo urgente e indeclinável, que o obrigava a retirar-se, tomou o seu bastão e o seu chapéu triangular, desceu a escada, e saiu em companhia do rapazinho que o viera chamar.

Este o foi conduzindo silenciosamente através das ruas quase desertas até uma viela quase sem habitações na extremidade da vila. Ali parou à entrada de uma casinha.

(continua...)

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