Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Perdoa-me, minha Lúcia! perdoa a minha ousadia; ela é filha do muito amor que te consagro. Eu estava ali. . . eu te ouvia, e eu te amo; vê se era possível conter-me. Se ainda me amas, tu me perdoarás.

O sobressalto de Lúcia não tardou em transformar-se na efusão de uma celeste alegria.

-se ainda te amo! . . . exclamou, pois duvida ainda? . . .

- Sou tão infeliz, que custo a acreditar em tamanha ventura.

- Compreendo. Pensa que lhe fui infiel; que traí o nosso amor. Tinha razão para pensar assim; mas quando souber o que houve, estou certa que me há de perdoar.

- Não tenho nada que perdoar-te; eu é que devo pedir-te perdão de meu estouvamento e precipitação. Meu coração já adivinhou tudo. Mas entretanto conta-me, minha querida Lúcia, conta-me como tudo isso foi. . .

Aquela entrevista, que o acaso preparara, durou apenas meia hora; mas meia hora de gozos e efusões d’alma, de delícias inefáveis, meia hora tão cheia de amor e felicidade, que aos olhos de Elias compensou largamente dois anos de agros sofrimentos e ásperos trabalhos, meia hora que ele trocaria de bom grado por um século de viver ordinário.

Entretanto Lúcia contou-lhe rapidamente a história de seu projetado casamento com Leonel, as solicitações de seu pai, e as tristes circunstâncias que a arrastaram àquele sacrifício, que além da felicidade lhe custaria também a vida, mas que ela julgava necessário e de seu dever para felicidade de seu pai e de sua irmã.

- E não te lembravas, disse Elias com um triste sorriso, que nesse sacrifício arrastavas mais uma vítima? . . .

- Oh! se me lembrava! . . . mas eu nem notícias tinha de ti. . . e, mesmo que as tivesse, a não estares em circunstâncias de valer a meu pai, levarias a mal esse sacrifício, se infelizmente se consumasse? . . .

- Não, minha Lúcia. . . eu não teria remédio senão admirar-te, embora se me estalasse de dor o coração. Mas a carta que te escrevi do Sincorá, acaso não chegou-te às mãos?

- Chegou, Elias; mas em que momento, meu Deus? Eu acabava de dar o meu consentimento, de comprometer solenemente a minha palavra para com meu pai; já era tarde. Faz idéia de quanto era triste e desesperadora a minha posição.

- Pobre Lúcia! quanto és boa. . . quanto és adorável e sublime! se antes eu te amava, de hoje em diante eu te admiro, eu te adoro, e não me julgo digno do amor de uma criatura tão superior, de um anjo, de que o mundo não é digno.

-se não te julgasse digno, eu nunca te amaria, e não teria passado por tantas aflições e angústias só por amor de ti. Mas, hoje sou feliz. Deus teve piedade de mim, arredou de meu caminho aquele maldito homem, e restituiu-me o meu

Elias. . .

- Oh! aquele homem parecia enviado ao mundo por Satanás para perturbar a nossa felicidade! Tudo que podia fazer meu prazer, minha glória neste mundo, ele pretendia arrancar-me; parece que o perseguia uma inveja feroz de tudo quanto era meu; queria para si o dinheiro de minha bolsa, o amor de meu coração, o ar de meus pulmões, o sangue de minhas veias. Mas o monstro apenas conseguiu roubar-me o fruto do meu suor, essa pequena fortuna que eu tinha adquirido. . . mas que importa isso, Lúcia! . . . Deus ainda me conserva a mesma inteligência, a mesma atividade e disposição, e eu saberei adquirir outra. . .

-mas por piedade! . . . eu te peço, não me abandones mais; não vás mais procurar fortuna lá tão longe. Não quero mais que saias de perto de mim. . .

-mas, Lúcia, eu sou pobre. . . tu também estás tão pobre como eu. Hoje há um motivo ainda mais forte para que eu empregue todos os esforços para adquirir alguma coisa; e se por aqui não for possível, devo. . .

- Deves amar-me, a mim só, e a mais ninguém. Somos ambos pobres; o destino nivelou nossas condições; e agora não há mais embaraço algum para nossa união! . . .

-mas a pobreza, Lúcia. . . por mim só eu a suportaria como tenho suportado, de coração alegre; mas doer-me- ia horrivelmente ver-te em minha companhia sofrendo as inclemências e privações da indigência sem poder erguer-te a uma condição mais feliz.

- Porventura já não sou tão pobre, Elias? e deixarei de sê-lo, se me abandonares? . . . então antes queres me ver sofrendo sozinha os rigores da pobreza, do que em tua companhia!

-mas olha, Lúcia; tu és muito moça, formosa e bem educada. . . não te faltarão maridos que, mais felizes do que eu, possam dar-te no mundo a posição de que és tão digna. . .

- Cala-te! . . . não digas mais tal blasfêmia, eu te peço pelo nosso amor. Antes miserável contigo do que milionária com um Leonel, ou com quem quer que seja. Mas tu não irás mais para longe; fica por aqui mesmo na nossa terra; eu te peço pelo nosso amor, por tudo quanto mais queres neste mundo ou no outro. . . pela alma de teu pai e de tua mãe. . . em toda a parte se ganha com que passar a vida, e que necessidade temos nós de riquezas; o nosso amor será a nossa riqueza, e porventura não basta ele para nos tornar felizes?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →