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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Em um desses bandos, que se acolhiam às vezes à fazenda de Campo Belo havia uma caboclinha nova por nome Jurema, não de todo linda, mas um pouco menos feia e mais bem-feita do que as suas companheiras. José Luís, moço branco e bem-disposto, empregado no seminário, agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequizá-la, que no fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e viçosa filhinha.

Sabedores do fato os padres induziram José Luís a casar-se com a índia. Batizaram-se ao mesmo tempo a mãe e a filha, e no dia seguinte o pai e a mãe receberam-se em legítimo matrimônio. Jurema trocou o seu nome selvático pelo de Ana, e a filha, que a mãe chamava Jupira, pelo de Maria.

Os índios não punham dificuldade alguma em se deixarem batizar, casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era um ato sem conseqüência. No dia seguinte esqueciam seus novos nomes, e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos, para tomarem de novo a araçóia, e tornavam aos matos para serem tão bons adoradores de Tupã como dantes.

Aconteceu pois que um belo dia a esposa de José Luís anoiteceu e não amanheceu, desaparecendo com seus irmãos em Tupã, e levando consigo sua filhinha ainda de mama. José Luís ficou sumamente aflito e magoado com este acontecimento; fez imensas diligências para apanhar ao menos a filha pois com a mãe já não contava mais à vista de um tal procedimento.

Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas e excursões pelas matas, desanimou...

As florestas são imensas, e aquela gente não tem pouso certo nem por uma semana.

Eram já passados mais de dois anos, quando Jurema sem mais cerimônia entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela mão a pequena Jupira, e já com outro caboclinho às costas acocorado em uma pequena maca de buriti, que trazia presa à testa, como é costume entre as índias. Apareceu a seu marido sorrindo-se tranqüila e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na véspera. José Luís ficou atônito com aquela inesperada visita; maior porém foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu graças ao céu, que lhe restituiu a filha, a qual ele tratou logo de pôr em bom recato e segurança, despedindo cortesmente a mãe, que com isso não se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as aparências já tinha novo esposo no bando dos seus.

Receoso José Luís, de que sua filha não fosse de novo levada para o mato por sua mãe, guardou-a com toda a cautela, confiando-a aos cuidados de uma velha parenta que era a sua caseira, e não respirou tranqüilo enquanto Jurema com todo o seu bando não desapareceram das imediações de Campo Belo.

A menina crescia linda, engraçada, e travessa como uma ariranha. Tinha muita vivacidade e penetração, mas os instintos selváticos prevaleciam nela, e foi com muita dificuldade, que seu pai no fim de sete anos conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civilização, andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma coisa. Muitas vezes a iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas árvores, ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde em risco de ser devorada por algum jaú ou sucuri.

Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas qualidades físicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoação.

Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. Às vezes também penetrava no seminário, aí fazia o regalo e as delícias dos padres e dos estudantes.

Quando, porém, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva, não queria mais sair do meio deles; já lhes conhecia bem a língua, da qual já balbuciava algumas palavras quando voltara do mato. Por isso muitas vezes servia de intérprete entre os índios e os padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente José Luís – e com razão – se afligia muito com isso, e não gostava nada de ver sua filha tão afeiçoada aos seus parentes do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, mas era debalde; o pendor que a menina tinha para os seus era irresistível.

Jupira já tinha nove para dez anos, quando sua mãe, depois de vaguear largos anos pelos sertões de Goiás, Pará e Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo com a horda, a que pertencia. Jupira!... exclamou a índia, apenas pôs os olhos em sua filha. Esta também imediatamente reconheceu sua mãe, saltou-lhe ao colo, e nunca mais quis deixá-la.

(continua...)

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