Por José de Alencar (1875)
Não surpreendeu a Arnaldo essa admirável sagacidade a que estava habituado, pois ao velho devia êle em grande parte a perspicácia de que era dotado.
— Queres saber o que me trouxe? Eu te digo.
Arnaldo aproximou-se do velho e pôs-lhe a mão no ombro:
— Tu que viveste longos anos, e conheces todos os segredos dos homens, deves saber também o que eu desejo.
— Fala; tudo quanto a desgraça ensina ao pecador, eu o sei.
— Se um homem quiser roubar-me o bem que me pertence, e que faz toda a minha felicidade, posso matá-lo, sem tornar-me assassino?
O velho Jó ergueu-se de chofre e completamente transfigurado. As cãs erriçaram-se no crânio e os olhos saltaram-lhe das órbitas.
— Por ouro, filho, não derrames nem uma gota de sangue de teu irmão; porque essa gota basta paramanchar todo o tesouro e torná-lo maldito.
Travando das mãos do mancebo e conchegando-o a si, o velho prosseguiu:
— Não sabes o que é o ouro, filho? Oh! eu sei, que m’o ensinou o demônio da cobiça. É o sangue derramado pelo punhal do sicário, que vai esconder-se nas entranhas da terra e coalhar-se em ouro. Ao calor do corpo, êsse coalho derrete-se, e o sangue tinge as mãos do homem. Porisso os alquimistas para fazer ouro ferviam sangue numa caldeira; mas êles não o tinham bastante, porque é preciso muito, muito sangue, para dar um queijo de ouro!…
Jó soltou uma risada alvar e continuou a desarrazoar; mas as palavras rompiam-lhe dos lábios roucas e desconexas, de modo que já não era possível distinguí-las, nem compreender-lhes o sentido.
Arnaldo estava afeito a êstes acessos, pois não mostrou o menor abalo; e acompanhando os gestos do velho com um olhar de comiseração, esperou que findasse o desordenado e soturno monólogo.
Efetivamente foi Jó serenando e tornou à posição anterior, mas para sossobrar no abismo de recordações, que se abrira nas profundezas de sua alma.
— Jó! disse Arnaldo com império.
O velho ergueu a cabeça e fitou no mancebo a pupila baça, como um homem que emergiu das trevas.
— Jó! Queres ouvir?
— Fala.
— Não é ouro, nem riquezas, que eu receio perder; é outro bem e mais precioso.
— A tua alma? perguntou o velho cravando os olhos no mancebo.
— A minha alma, sim.
— Pecaste, filho?
— Não; minha mão está pura, mas duas vezes hoje ela escapou de manchar-se no sangue de meu semelhante. Uma vez foi para defender a vida do capitão-mór; devia ferir?
— Devias, filho. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
— A outra vez foi para defender-me a mim.
— Ameaçaram tua vida?
— Quiseram roubar-me o que mais amo neste mundo.
— Tua mãe?
— Não.
— Uma mulher?
— Sim.
— Os antigos cavalheiros tinham por timbre disputar a dama de seus pensamentos nos torneios e desafios, e o vencedor recebia em prêmio a mão da mais formosa. Êsses tempos vão longe; agora não é mais com a espada e a lança que se rendem as donzelas.
— Em meu caso, tu que farias, Jó?
— Já não sou dêste mundo.
— Mas outrora? Foste moço um dia: teu coração há de ter amado uma mulher; nesse tempo de tua mocidade, que farias?
— Não me perguntes, filho, que não me lembro mais do que fui: pergunta a teu coração, que é moço e vive; o meu está morto.
— Já perguntei; e êle respondeu-me.
— O que, filho?
— Não te direi, não; nem a mim mesmo eu tenho coragem de repetí-lo.
— Pensa em tua alma, Arnaldo.
— O que é minha alma sem a sua adoração, Jó?
Arnaldo demorou-se na caverna até a tarde, quando despediu-se do velho e ganhou a mata.
A essa hora já os acostados da fazenda que o capitão-mór enviara à sua procura, desenganados de encontrá-lo, ou tinham voltado à casa ou andavam longe a bater o mato. Não obstante, êle aplicou o sentido, para verificar se não havia coisa suspeita.
Percebeu então um rumor cadente que se aproximava como o som rijo e breve da pata de um animal no solo duro. Arnaldo conheceu quem era que o procurava e atinou com o motivo:
— É a mãe que soube e afligiu-se.
Tinha parado à espera. Com pouco surdiu dentre a ramagem a comadre, que chegando perto de seu filho de leite, levantou a pata dianteira para acariciá-lo; depois do que fitando nele os olhos, voltou a cabeça para trás na direção donde viera.
— Já sei, respondeu o rapaz afagando o pescoço da cabra; foi sua comadre que mandou chamar-me e aí vem. Não é?
Fazendo um aceno ao inteligente animal, Arnaldo foi ao encontro da mãe; esta que vinha perto correu a abraçá-lo, apenas o avistou.
— Jesús! Filho de minha alma! Que foi isto com o sr. capitão-mór, meu Deus? Uma coisa que nunca, nunca sucedeu, em dias de minha vida, nem de teu pai, havia de suceder agora contigo, por minha desgraça! Tu perdeste o teu bentinho? Não, aquí está. Então foi por que te esqueceste de rezar?
— Quando menos se espera, vêm os dias maus, sem que se ofenda a Deus. Nós vivíamos felizes há tanto tempo, mãe!
Arnaldo proferiu as últimas palavras com a voz comovida, e apoiou a fronte na face da cabreira, que lhe tinha lançado os braços ao pescoço para conchegá-lo a si.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.