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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de expandirse, recolhe-se e concentra-se para saturar-se de felicidade. Já não se alheia e esquece de si; ao contrário, sente-se elevado acima do que era; respeita em sua pessoa o homem amado.

Nessa ocasião é natural a cada um observar-se constantemente e julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações estranhas; o fraco lembra-se de ser um herói; o filósofo inveja a beleza do casquilho; o espírito positivo habituado a voar terra a terra bate o coto das asas para remontar-se ao ideal da poesia.

Não é só no homem que se opera essa metamorfose: mas em toda a natureza. Quando se arreiam os pássaros de sua mais bela plumagem, quando gorjeiam as melodias mais brilhantes, se não é na quadra dos amores?

Vendo Leopoldo parado na calçada Carceler, Horácio dirigiu-se com disfarce para aquela parte, com intenção de travar conversa e esclarecer de todo em todo o mistério. Foi trabalho perdido; o moço acabava de saltar em um tílburi, que rodava já pela Praça de Pedro II.

Desapontado, voltou Horácio sobre os passos.

— Amélia o ama!... Ou pelo menos ele o acredita!

Sorriu-se o leão.

— Que fenômeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repelido por corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ela cuida sentir por esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o ímpeto de seu despeito.

Seria capaz de conceder a esse comparsa o que recusaria à afeição mais terna e extremosa. O assomo do ciúme, supõe ela ser veemência da afeição, e confunde com os extremos de amor o delírio da vingança. Amélia está passando por esta crise naturalmente. Leopoldo foi o plastão; ela o ama com todo o furor do ódio que me tem.

Outro sorriso frisou o lábio do leão.

— Ela me odeia! Ora!... O ódio o que é senão a efervescência do amor? O afeto suave e terno é como o moscatel de Setúbal ou o vinho de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e espuma.

Chegando à casa, Horácio escreveu a Amélia uma carta, que apenas continha estas palavras:

"Deve estar satisfeita, pois me tem de novo a seus pés, e desta vez humilde e suplicante. A melhor coroa do triunfo é o perdão."

Saindo o leão a espairecer, dirigiu os passos para a casa do Sales; esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.

Quem sabe? Talvez nessa mesma ocasião se decidisse de sua sorte. A moça lhe permitiria falar-lhe.

Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, anunciava próxima borrasca. A frente da casa do negociante estava às escuras; contudo quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos interstícios das janelas um tênue reflexo de luz interior. No portão da chácara a meio cerrado, ninguém aparecia.

O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou à porta da casa: três pessoas saíram dele. Em um Horácio viu, estremecendo, roupas de sacerdote. Só então refletiu o moço no aspecto soturno do edifício. Inquieto, sobressaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança de encontrar pessoa a quem interrogasse.

As janelas laterais estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro iluminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma agitação.

Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passara, e antes de qualquer explicação. não era razoável.

A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado uma espécie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto uma escadinha de caracol cingindo o tronco da árvore.

Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar, achou-se justamente fronteiro às janelas iluminadas. Em princípio a claridade súbita ofuscoulhe a vista, e não pôde ele distinguir o que se passava no interior.

Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.

Ele via, e duvidava.

Um altar erguido, círios acesos, o sacerdote oficiando, Amélia e Leopoldo de joelhos, ao lado Sales, D. Leonor, e dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que se ofereceu aos olhos de Horácio. Tinha visto na comédia da vida muitos lances dramáticos, mas nenhum tão imprevisto e curioso.

A surpresa do leão provinha de um engano seu. Ele acreditava que Amélia o tinha amado, quando a moça não sentira por ele mais do que o desvanecimento de ver cativo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos salões.

Quem Amélia amou desde o princípio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horácio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a atração irresistível que a impelia para o seu pólo.

Disso que durante dois meses passava na vida íntima da moça, ela própria não se apercebia; foi depois da cena do baile, que ela entrou em si, e compreendeu as sublevações recônditas de sua alma, e o drama que aí se agitava desde muito.

(continua...)

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