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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Ângelo deu o braço a Maurícia e encaminhou-se com ela para a sala interior. Aí já estavam D. Sofia com sua filha sinhazinha, e D. Rosa com sua sobrinha Iaiá, que moravam nos primeiros sítios, à direita do de Martins.

Chegaram depois Artur e Meireles, estudantes da Faculdade e tomaram assento entre Salustiano, empregado público, e Azevedo, rapaz rico, que chegara de Lisboa seis meses atrás, e devia seguir para a Bahia, a fim de matricular-se na Faculdade de Medicina.

Ângelo sentou-se defronte de Maurícia.

Seus olhares trocavam-se magneticamente, e sem inteligência, se entendiam.

Mas por que se entendiam eles? Ângelo e Maurícia não eram amigos.

Viam-se pela primeira vez. Maurícia não tinha o direito de amar a nenhum homem, porque era escrava de um dobrado dever de esposa e mãe.

Entremos no exame do dever.

CAPÍTULO III

Maurícia fora educada em Paris, onde os talentos com que a natureza a brindara se revelaram logo nos primeiros exercícios escolares com tanto brilho e pujança que dentro de pouco tempo ela foi objeto de espanto para os mestres, e de inveja para as condiscípulas. A diretora do colégio, por dar talvez às pessoas que a visitavam idéia aproximada do merecimento da menina, designava-a com este apelido – Petit Brésil.

— “Voulex – vous voir mon petit Brésil? – perguntava ela aos visitantes. Elle est lê premier talent de mon college. Elle fait mon orgueil. C’est un prodige. Elle est en soi méme toute la fulguration et toute le vie de la nature intertropicale”

Não estava ainda moça, quando já lhe saíam casamentos vantajosos; um chegara a ser brilhante. Maurícia recusou todos a pé juntos. Quando a consultavam em assuntos de casamento costumava dizer em resposta:

— Quero levar para o Brasil o meu coração inteiro ainda. Meus pais têm o direito de o possuir exclusivamente por algum tempo, depois da minha volta a seus braços.

Se insistiam em resolve-la a aceitar o partido que se lhe apresentava, dizia Maurícia graciosamente:

— Esta é boa. Dizem que os brasileiros são selvagens, e querem ter uma brasileira não para mandarem para o Jardim das Flores, mas para ficarem com ela no seio de uma família. Pois estão livres disso. A selvagem há de tornar às suas florestas, a fim de viver como dantes, com as cobras e as maracajás...

Maurícia dizia isto por pirraça, não por ódio ou rancor aos franceses, aos quais votava grande afeto. Em seu conceito, o povo francês era o primeiro da Europa, e seria o primeiro do mundo, se não houvera o americano, para o qual ela possuía a mais estranhável admiração. Seu espírito era livre, quase republicano. Quando alguma vez a conversação caía sobre política, objeto que parecia merecerlhe a mais viva simpatia, não deixava sem algumas rajadas Napoleão III, então no zênite do seu poder. Maurícia concluía sempre com estas palavras:

— Este tirano, este inimigo das liberdades francesas, não há de acabar no trono da França.

Palavras proféticas, que eram então as de quase todo mundo e tiveram a mais estrondosa confirmação.

Quando chegou ao Brasil, poder-se-ia comparar com o diamante por nome de Regente, que brilha na coroa da França ou a Estrela do Sul, de que é dono o joalheiro Halphen; não tinha preço; seus dotes constituíram um tesouro inestimável.

Suas formas eram corretas e esplêndidas. Os cabelos pretos faziam realçar a alvura da pele fresca e radiante. O olhar e o sorriso, que traziam todos os feitiços da graça, tinham suavidade e paixão, meiguice e fogo.

Mas o encanto mágico dessa fúlgida criatura estava na voz branda, harmoniosa, incomparável. Tinha havido capricho na educação desta prenda natural da menina. Quem a ouvia uma vez, desejava passar o restante da vida junto dela para a ouvir sempre.

Um dia, a sorte virou, e tornou-se madrasta daquela para quem tivera todos os afetos e liberalidades matinais.

Os pais de Maurícia empobreceram da noite para o dia, e faleceram dentro de breve tempo. Com esses dois desastres irreparáveis, um dos quais sucedeu pouco depois do outro, chegaram para Maurícia os dias nefastos. Leis fatais decidiram do seu destino cruamente. O jardim da sua existência mudou-se em região desolada. Enfim – encurtemos esta história – o brilhante inapreciável foi parar no poder de um senhor grosseiro e mau; e porque o espírito que teve a sua liberdade raras vezes se deixa tiranizar, a não ser por um processo lento e artificioso que estava acima da capacidade do marido de Maurícia, fugiu esta do Pará, onde morava, para o Recife, trazendo consigo a pequena Virgínia. Depois de muitos incidentes inteiramente estranhos ao nosso caso, aceitou ela o partido, que lhe fizera um senhor de engenho de Caxangá, para que ensinasse francês e música às suas filhas.

Tornemos a casa de Martins.

O almoço passou sem coisa de maior. Recitativos, então muito em uso, um pouco de canto, um pouco de piano, alguns trocadilhos de Azevedo, insigne neste gênero, e até charadas em que ninguém levava a melhor a Martins, encheram as horas que medearam entre a primeira e a segunda refeição.

As quatro da tarde, Martins convidou os hóspedes a uma digressão pelo sítio.

(continua...)

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