Por Franklin Távora (1876)
José Gomes, por irresistível força do instinto que muitas vezes o traiu aos olhos do carniceiro pai, voltou-se de chofre e lhe disse:
— Para que matar se eles fogem de nós
Corram, minha gente Cabeleira aí vem; Ele não vem só, Vem seu pai também.
— Matar sempre, Zé Gomes — retorquiu o mameluco com as narinas dilatadas pelo odor do sangue fresco e quente que do rosto lhe descia aos lábios e destes penetrava na boca cerval.—Não temos aqui um só amigo. Todos nos querem mal. É preciso fazer a obra bem feita.
Este homem era o gênio da destruição e do crime. Por sua boca falavam as baixas paixões que à sombra da ignorância, da impunidade e das florestas haviam crescido sem freio e lhe tinham apagado os lampejos da consciência racional que todo homem traz do berço, ainda aqueles que vêm a ser depois truculentos e consumados sicários.
Seu coração estava empedernido, seu senso moral obcecado.
Nenhum sentimento brando e terno, nenhum pensamento elevado exercitava a sua salutar influência nas ações deste ente degenerado e infeliz.
— Estás com medo, Zé Gomes, deste poviléu ? Parece-me ver-te fraquejar. Por minha bênção e maldição te ordeno que me ajudes a fazer o bonito enquanto é tempo. Não sejas mole, Zé Gomes; sê valentão como é teu pai .
Tendo ouvido estas palavras, o Cabeleira, em cuja vontade exercitava Joaquim irresistível poder, fez-se fúria descomunal e, atirando-se no meio do concurso de gente, foi acutilando a quem encontrou com diabólico desabrimento. Como dois raios exterminadores, descreviam pai e filho no seio da massa revolta desordenadas e vertiginosas elipses.
A geral consternação teria cessado em poucos instantes se o povo pudesse escapar pelas duas entradas da ponte. Achavam-se porém estas já tomadas por piquetes de infantaria às pressas organizados para embargarem a fuga aos matadores e reduzi-los à prisão.
A medida que estes piquetes se foram movendo das extremidades para o centro, à população, obrigada a aproximar-se dos assassinos, preferiu a este perigo atirar-se ao rio, e a baldeação não se fez esperar.
Em poucos momentos os perturbadores da ordem acharam-se debaixo das vistas da força pública. O lugar da cena estava quase inteiramente desocupado. As colunas militares operaram um movimento único, indescritível. Carregaram sem demora sobre os delinqüentes que, à vista da estreiteza do passo e do cerco, só nas águas puderam, como as suas vítimas, achar salvação.
Um soldado, impelido talvez primeiro pelo ímpeto da paixão que pela consciência do dever, o qual em ocasiões iguais àquela raramente fala mais alto que os instintos animais, atirou-se de arma em punho após os assassinos com o fim de apreender um dos dois, ainda que custasse a própria vida. Não logrou o seu intento este valente defensor da sociedade e da lei. Quando sua mão tocava em um dos delinqüentes de cima de uma canoa que nesse momento desatracara da ponte, desfecharam-lhe com a vara tão forte golpe sobre a cabeça, que o, infeliz, perdendo os sentidos, foi arrebatado pela corrente. Igual cena se presenciou em 1821, figurando como vítima João Souto Maior que procurara salvar-se no rio depois de haver ferido com um tiro de bacamarte na ponte da Boa Vista o governador Luís do Rego Barreto.
Assim se passou na vila do Recife a noite do primeiro domingo de dezembro de 1773, noite memorável, que principiou pela alegria e terminou pelo terror público.
CAPÍTULO II
Por entre as vítimas do terror que lutavam com as águas do Capibaribe nas sombras da noite deslizou indiferente a canoa onde ia o Teodósio, assassino do soldado que se atirara ao rio em busca dos delinqüente.
Teodósio, como os leitores hão de lembrar-se, viera só mas não voltava agora desacompanhado. José, taciturno e quieto, e Joaquim, rosnando como besta fera que indiscreto caçador irrita em escuso bosque, testemunhavam ao pé do cabra, sentados na popa do fugitivo lenho, com os bacamartes nas mãos, o espetáculo de aflição e desespero; e, como se o fizessem de caso pensado para denotarem a pouca conta em que tinham uma sociedade que eles dois unicamente acabavam de entregar em alguns minutos à perturbação e à dor, pareciam afrontar com olhares insultuosos não somente os homens mas também aquele que ao fulgor das estrelas vê melhor do que os mortais à luz do dia, e que das alturas, onde paira, distribui por todos a sua indefectível justiça, tanto para premiar como para punir. Foi Deus o único que conheceu os três aventureiros, rompendo as águas, o único que em suas frontes manchadas do sangue e do opróbrio recente leu o passado que os condenava e o futuro que por eles esperava para justiçá-los com a excessiva severidade que havemos de ver.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.