Por Bernardo Guimarães (1872)
Estava-se abrindo uma vasta roça no meio de uma mata virgem na fazenda de que acabamos de falar; isto há de haver mais de quarenta anos. Era ocasião da derribada; a foice já tinha ceifado e desbastado o mato miúdo, as taquaras e cipós, que emaranhavam a floresta. Os troncos robustos e colossais da peroba, da canjerana, da paineira, do cedro e do ipê ostentavam-se nus, e campeavam desafogados aqui e acolá, como colunas que ficaram em pé de um templo cujos tetos e paredes desabaram. Mas era mister também deitar por terra esses gigantes de vegetação, que com suas cúpulas imensas ensombravam o terreno da plantação, e roubavam a seiva ao solo. Contra cada um deles investiam dois ou três vigorosos e truculentos negros brandindo pesados e possantes machados. Nus da cintura para cima luziam-lhes as espáduas musculosas banhadas em suor aos ardentes raios do sol de agosto. Os golpes do machado restrugiam compassados pela encosta ao som da cantiga monótona do africano. De tempos a tempos ouvia-se um rangido horrendo; um rápido e passageiro tufão atravessava uivando a floresta, e a terra estremecia ao medonho estrugido de um tronco, que baqueava no meio da grita e alarido dos rudes trabalhadores.
Ao pé da encosta, onde se fazia a roçada, e à beira de um pequeno córrego havia um rancho ou coberta de capim de beira no chão, como os há em todas as roças, onde se preparava a comida para os escravos, e que lhes servia de guarida contra os temporais.
Enquanto no interior do rancho uma escrava preparava comida dos trabalhadores, assentada à porta se via uma alva e delicada figura, que contrastava singularmente com a bronca e selvática perspectiva de tudo que a rodeava. Era uma menina de dezesseis ou dezessete anos, alva, esbelta, e de compridos cabelos castanhos.
Tinha no regaço uma peneira, em que estava limpando o arroz, que tinha de servir ao jantar. Os pés encruzados pousavam sobre umas tamanquinhas de marroquim vermelho, e a saia do vestido cor de rosa meio apanhada deixava ver as extremidades das alvas e mimosas pernas. Por causa da intensa calma descera o corpinho do vestido, e assim sem xale e em mangas de camisa quase que se lhe viam nus os seios, que arfavam puros e castos como os de Raquel, quando ia dar de beber ao rebanho na cisterna, onde encontrou Jacó.
Seria impudicícia um tal desalinho em outro lugar, e em outra qualquer criatura; mas cobria-a o véu da inocência, e o recato da solidão. De quando em quando erguia a cabeça e sacudia para trás dos ombros as longas e bastas madeixas, que importunas lhe caíam pelas faces a tapar-lhe os olhos e estorvar-lhe o serviço em que se ocupava, e então deixava ver um lindíssimo oval ornado pela mais graciosa boca e os mais magníficos olhos que se podem imaginar. A todos esses encantos, dava esplêndido realce o vivo rubor, com que o mormaço de um sol ardente lhe afogueava as faces.
Cairia por acaso do céu naquele bronco sítio à entrada do pobre rancho essa estátua de marfim, tão alva, tão delicada, digna de pousar sobre pedestal de alabastro, e de ser emoldurada entre sanefas de ouro e brocado? Ou acaso um anjo baixara à terra como nos tempos bíblicos a conviver e abrigar-se à sombra da grosseira cabana do homem primitivo?
Paulina era a filha do fazendeiro. Filha única e órfã de mãe, gostava de acompanhar seu pai em todos os rudes trabalhos da lavoura do sertão. Por isso enquanto seu pai com um comprido rebenque na mão, calçado de grossas botas de mateiro rompia espinhais e coivaras feitorizando o trabalho da derribada, ela tomava conta do rancho e ajudava a preta rancheira nos misteres da cozinha. Mimosa e delicada como era e não tendo sido criada no meio daquelas fragueiras lides, nem por isso Paulina tinha nada de melindrosa, e se entregava com o maior desembaraço aos mais humildes e grosseiros serviços. Além das perfeições que recebera da natureza, Paulina tinha tido uma educação acurada e a mais completa que naqueles tempos em nosso país se podia dar a uma menina. Ainda em tenros anos tinha sido enviada para um colégio em S. João del-rei, onde a gentil sertaneja recebeu com muito aproveitamento lições de leitura, música, dança, e aprendeu as maneiras de uma sociedade um pouco mais polida do que era a da Uberaba naqueles tempos.
Por morte de sua mãe, a que sucedeu imediatamente a de um irmão único que tinha, seu pai acabrunhado por tão dolorosos golpes, e vendo-se na mais triste soledade, apressou-se em chamá-la para junto de si, pois era ela o único bem que o céu lhe tinha deixado para mitigar a dor de tão sensíveis perdas.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.