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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

De volta da Europa, Leôncio contava vinte e cinco anos. O pai advertiu-lhe com palavras insinuantes e jeitosas, que já era tempo de empregar-se em alguma coisa, de abraçar alguma carreira; que já se tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para sua educação, e que era mister ir aprendendo se não a aumentar, ao menos a conservar uma fortuna, à testa da qual teria de achar-se mais tarde ou mais cedo. Depois de muita hesitação, Leôncio optou enfim pela carreira do comércio que lhe pareceu ser a mais independente e segura de todas; mas as suas idéias largas e audaciosas a este respeito aterraram o bom do comendador. O comércio de importação e exportação de gêneros, mesmo em larga escala, o próprio tráfego de africanos, lhe pareciam especulações degradantes e impróprias de sua alta posição e esmerada educação. O negócio de balcão e a retalho, esse inspiravalhe asco e compaixão. Só lhe convinham as altas especulações cambiais, as operações bancárias e transações em que jogasse com avultados capitais.

Só assim poderia duplicar em pouco tempo a fortuna paterna. Com o que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras praças européias, presumia-se com habilitação bastante para dirigir as operações do mais importante estabelecimento bancário, ou as mais grandiosas empresas industriais.

O pai porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares especulativos daquele financeiro em botão, e que até ali só tinha dado provas de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura perda, somas consideráveis. Resolveu portanto a não tocar-lhe mais naquele assunto, esperando que o mancebo criasse mais algum juízo.

Vendo que seu pai esquecia-se completamente dos planos de criar-lhe um pecúlio próprio, Leôncio olhou para o casamento como o meio suave e natural de adquirir fortuna, como a única carreira que se lhe oferecia para ter dinheiro a esbanjar a seu bel-prazer.

Malvina, a formosa filha de um riquíssimo negociante da corte, amigo do comendador, já estava destinada a Leôncio por comum acordo e aquiescência dos pais de ambos. A família do comendador foi à corte; os moços viram-se, amaram-se e casaram; foi coisa de poucos dias. Pouco tempo depois de seu casamento Leôncio passou pelo desgosto de perder sua mãe por um golpe inesperado. Esta boa e respeitável senhora não tinha sido muito feliz nas relações da vida íntima com seu marido, que, como homem de coração árido e frio, desconhecia as santas e puras delícias da afeição conjugal, e com suas libertinagens e devassidões dilacerava cotidianamente o coração de sua esposa. Para cúmulo de males linha ela perdido ainda na infância todos os seus filhos, ficando-lhe só Leôncio. Lastimava-se principalmente por não ter-lhe deixado o céu ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia e consolação em sua desolada velhice. Quis entretanto a sorte deparar-lhe em sua própria casa uma tal ou qual compensação a seus infortúnios em uma frágil criatura, que veio de alguma sorte encher o vácuo que sentia em seu bondoso e terno coração, e tornar menos triste e solitário o lar, em que passava os dias tão monótonos e enfadonhos.

Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço atraiu por sua graça, gentileza e vivacidade toda a atenção e solicitude da boa velha.

Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama favorita e a criada fiel da esposa do comendador. Este, que como homem libidinoso e sem escrúpulos olhava as escravas como um serralho à sua disposição, lançou olhos cobiçosos e ardentes de lascívia sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistiu ela ás suas brutais solicitações; mas por fim teve de ceder às ameaças e violências. Tão torpe e bárbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar oculto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeu mortal desgosto.

Acabrunhado por ela das mais violentas e amargas exprobrações, o comendador não ousou mais empregar a violência contra a pobre escrava, e nem tampouco conseguiu jamais por outro qualquer meio superar a invencível repugnância que lhe inspirava. Enfureceu-se com tanta resistência, e deliberou em seu coração perverso vingar-se da maneira a mais bárbara e ignóbil, acabrunhandoa de trabalhos e castigos.

Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça, recomendando bem ao feitor que não lhe poupasse serviço nem castigo. O feitor, porém, que era um bom português ainda no vigor dos anos, e que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seu patrão, seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava carícias e presentes, de maneira que daí a algum tempo a mulata deu à luz da vida a gentil escravinha, de que falamos. Este fato veio exacerbar ainda mais a sanha do comendador contra a mísera escrava. Expeliu com impropérios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a precipitou no túmulo, antes que pudesse acabar de criar sua tenra e mimosa filhinha.

Eis aí debaixo de que tristes auspícios nasceu a linda e infeliz Isaura. Todavia, como para indenizá-la de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre criança e veio ampará-la à sombra de suas asas caridosas. A mulher do comendador considerou aquela tenra e formosa cria como um mimo, que o céu lhe enviava para consolá-la das angústias e dissabores, que tragava em conseqüência dos torpes desmandos de seu devasso marido.

(continua...)

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