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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A pitada de rapé – eis um hábito bem antigo, também hoje completamente desaparecido. Não era vício só de homens idosos, mas também dos moços, e a sua aplicação podia mesmo ser feita com elegância de gestos e até com malícia de intenção. O estudante Fabrício, de A Moreninha, conta-nos para que servia o rapé, em certas circunstâncias – por exemplo, para chamar a atenção de alguma esquiva beldade: – “tossi, tomei tabaco, assoei-me, espirrei, e a pequena.., nem caso.” O espirro provocado por uma pitada de rapé estava sujeito a interpretações imprevisíveis. Uma das amigas d’A Moreninha conversava numa roda de moças acerca dos ciúmes do seu namorado, dizendo que este último lhe proibia uma porção de coisas, inclusive que saudasse com um “Dominus tecum!” a qualquer moço que espirrasse perto dela. Mas o rapé ao que parece não era encarado simplesmente como um vício mais ou menos elegante, pois havia quem lhe atribuísse virtudes terapêuticas de tônico cerebral. Tal era a convicção do estudante Augusto, namorado d’A Moreninha, o qual, em momento de certa perturbação e entorpecimento, “entendeu que, para melhor decidir naquela conjuntura, devia avivar o cérebro com uma boa pitada de rapé”.

Outra miudeza, que anotei em mais de uma página – e que além de curiosa me parece bem expressiva da sisudez dos hábitos patriarcais de então: o modo arquicerimonioso por que os personagens, mesmo amigos e íntimos, mesmo os namorados, se tratavam entre si. Os rapazes só se dirigiam às moças com um solene “senhora dona”; e as moças aos rapazes com um “vossa senhoria” ainda mais solene. Os filhos só chamavam aos pais de “vossas mercês”. N’A Moreninha dá-nos o romancista o modelo de um bilhetinho de amor escrito por mão de moça e que assim começa: “Senhor, uma jovem que vos ama, e que de vós escuta palavras de ternura, tem um segredo a confiar-vos...” Há nisto, evidentemente, muito pieguismo ao gosto da pior maneira romântica; mas há também, creio que não menos evidentemente, uma pequena ressonância de toda aquela sisudez patriarcal...

Os escravos passam pelas quatro obras de Macedo que aqui nos interessam como seres passivos, sem qualquer participação ativa e autônoma nos acontecimentos. Tudo com a maior naturalidade, sem nenhuma intenção oculta do autor; mas, por isso mesmo talvez, com uma significação mais pungente e mais terrível... Macedo possuía a mentalidade da época e para a mentalidade da época o escravo não era propriamente um ser humano, mas um ser intermediário entre o homem e o animal doméstico, para uns mais próximo do homem e para outros mais próximo do animal doméstico. Todavia, a mentalidade de 1870 já tinha avançado alguma coisa em relação à mentalidade de 1840. Fiel cronista dos costumes e dos sentimentos do seu tempo, Macedo havia por força de espelhar, nos seus romances escritos em períodos diferentes, as diferenciações que se iam produzindo na mentalidade coletiva acerca da situação dos escravos. No A Moreninha e no O Moço Loiro, obras publicadas entre 1840 e 1850, os escravos aparecem principalmente na qualidade de servidores domésticos, de moleques escudeiros (o Rafael do A Moreninha), de mães-pretas (a Lúcia de O Moço Loiro), de moleques de estimação, como o Tobias, – “cria de D. Joaninha, o alfenim da casa, o São Benedito da família”, – do qual encontramos minuciosa e romântica descrição no A Moreninha, em carta de Fábrício para Augusto: “Pinta na tua imaginação, Augusto, um crioulinho de 19 anos, todo vestido de branco, com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado, tendo dois olhos belos, grandes, vivíssimos, e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo, com lábios grossos e de nacar, ocultando duas ordens de finos e claros dentes que fariam inveja a uma baiana; dá-lhe a ligeireza, a inquietação e a rapidez de um movimento de macaco, e terás feito a idéia desse diabo de azeviche, que se chama Tobias.” Em 1871, ano em que foi escrita e publicada a novela Os Quatro Pontos Cardeais, ao lado das referências a escravos transmissíveis por herança, a escravos alugados, a escravas metidas nos enredos amorosos das amas casadouras, já aparece a concepção do escravo-homem sob a forma de referências à abolição em geral e ao projeto de lei do ventre livre em particular – coisas que horrorizam o espírito rotineiro e mesquinho de Estanislau, o Alma-fechada. Quando este antipático personagem exclama que “o ventre é, como os braços e a alma dos escravos, propriedade do senhor” – semelhante argumento contra aquele projeto de lei não só está em concordância com a sua psicologia, como serve também para tornar mais nítida a oposição de mentalidades existente entre escravistas e abolicionistas. Oposição de mentalidades que exprimia uma correspondente oposição de interesses e que tendia a se agravar de mais em mais, com a influência que todos sabem sobre a paisagem social do país.

(continua...)

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