Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Mas tu contas demais com a tua perspicacia : como poderás descobrir no leilão de amanhã quem teceu a bolsa de seda, se os objectos offerecidos para o leilão não trazem os nomes das dignas senhoras que os offertão?...
— Tudo se sabe no mundo, meu caro : e a diligencia é a mãe da boa ventura. O que eu quero é ver a bolsa de seda no leilão de amanhã; mais fica por minha conta.
— Bem; mas vê que estás obrigado a dar-me a continuação e o desfecho d'este romance.
— Está subentendido.
— Tu o promettes ?...
— Palavra de honra! disse Constancio, estendendo theatralmente a mão direita.
— E quando ?...
— No dia e ás horas em que tiveres de começar a escrever a tua semana para o próoximo domingo.
— Excellentemente : sabbado ao meio-dia.
Sabbado ao meio-dia : conta commigo.
II
No sabbado seguinte pelas onze horas da manhã já eu me achava ancioso esperando o meu amigo Constancio. Esperei inutilmente uma. hora, e dei um salto de alegria ouvindo o signal de meio-dia dado em uma egreja vizinha.
Era o momento aprazado.
— Até que emfim ! disse eu.
Soou a decima segunda dabalada, e appareceme vivo e alegre, como sempre, o meu amigo Constancio.
— O desfecho do romonce ?... grito correndo para elle.
— Sou um tolo, responde-me o pobre
Constancio.
— Ah meu amigo ! o quo eu queria que me desses, era alguma novidade.
— Escuta : comprometti-me a contar-te o fim da minha aventura ; eis-me aqui ; mas não sei se já estou no meio d'ella.
— Seja como fôr, refere-me o que houve.
— Fui ao leilão, ou antes á exposição de domingo : corri, examinei um por um todos os objectos.
— E então?... que viste?...
— Nada, porque lá não se achava a minha suspirada bolsa de seda, : o meu anjo da caridade tinha adivinhado o meu plano, e não quiz expor a sua delicada obra : fiquei furioso, e vinguei-me fatiando contra a mesquinhez com que mal corresponderão aos esforços caridosos de tantas e tão respeitaveis senhoras.
— E depois?...
— Esperei até o fim da festa ; esperei ainda muito tempo, até que o porteiro da academia mostrou-me com toda a delicadeza a porta da rua, e sahi emfim ; mal tinha porém dado alguns passos, chega-se a mim uma pobre velha envolta n'uma mantilha. Eu estava de máo humor e voltei-lhe as costas.
— Compaixão, senhor ! uma esmola pelo amor de Deos !
Lembrei-me da minha desconhecida : metti a mão no bolso, e tirei uma moeda de prata.
A velha estendeu as mãos abrindo uma bolsa para receber a esmola.
Oh ! era a bolsa de seda. ! conheci-a immediatamente pela côr : era a minha bolsa ; agarrei-me a ella.
—A quem, homem ?... á velha ?...
— Não ; á bolsa.
— Ainda bem.
— Quanto quer por esta bolsa ?... donde lhe veio esta bolsa ?... quem a teceu ?... quem lh'a
deu?... A velha ficou espantada o respondeu-me a tremer.
— Esta bolsa... foi uma senhora que me soccorre que a deu de presente a uma netinha que tenho.
— Pois eu a quero ; compro-a.
— Esto bolsa não se vende, disse a velha.
— N'esse caso tomo-a de graça.
— Oh ! se é assim, dê o senhor o que quizer por ella; mas olhe que não é vendida, é trocada, como uma reliquia.
Sem ser fidalgo, dei pela bolsa mais do que... porém vamos adiante ; nada de má lingua.
— Como se chama, e onde mora a senhora que deu esta prenda á sua neta ?...
— Chama-se irmã dos pobres, segundo ella diz ; e deve morar certamente em alguma casa que ella não diz onde é.
— Estou na mesma : e a senhora onde mora?...
A velha disse-me o nome da rua e o numero da casa em que morava, e sumio-se ligeira como um coelho
Eu estava enthusiasmado : não conhecia ainda a bella mysteriosa ; mas pelo menos já possuía a bolsa de seda.
Corri para casa, e cheio de ardor, tendo nos olhos o fogo da felicidade, e no coração o anhelo da mais terna esperança, apresentei a bolsa de seda a minha mãe e a minha irmã.
— Então, que lhes dizia eu ? .. exclamei : tenho a bolsa ou não ?..,
— Mas... que vale uma bolsa ?... perguntoume minha mãe.
— Essa agora é boa !... que vale uma bolsa ?... pergunte ao mundo, minha mãe ! um homem que tem uma bolsa, tem o segredo da felicidade no amor.
— Vazia assim ?.. disse-me rindo e sacudindo com a bolsa minha irmã.
— Sacrilega ! exclamei.
— Entretanto, deve-se confessar que está bemfeitinha! continuou ella examinando ; eis aqui uma mancha...
— Foi dos meus beijos, acudi eu.
— Vejamos por dentro, proseguio minha irmã que é das Arábias, voltando a bolsa de dentro para fora.
Eu estava em êxtase.
— Oh !... exclamou ella soltando uma risada.
— Então que é isso ?...
— Constancio, perguntou-me a cruel moça ; a tua desconhecida é costureira de alguma casa de modas da rua do Ouvidor ?
— Invejosa !
— Esta bolsa veio de Pariz : olha aqui no fundo a marca da casa da rua do Ouvidor.
Vi .. vi, e, cousa extraordinaria, não desmaiei ! tive n'aquelle momento pena de não ser mulher; se eu o fosse, teria arranjado um faniquito á proposito.
Emquanto minha mãe e minha irmã desfaziãose em risadas, sahi e corri desesperado á casa da velha de mantilha. Lembrava-me perfeitamente a rua e o numero ; cheguei deitando a alma pela boca fora, e... tenho vergonha de o o dizer...
— Então que foi !...
— O numero que a velha me tinha dado era de uma casa de
vigesimos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.