Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

Uma vez chegou o mancebo a enclavinhar as mãos, e as ia erguendo no fervor de uma supplica; mas deu cobro de si, e disfarçou com enleio, receioso de que o tivesse percebido a maruja n'aquella attitude.

Dobrando o Pão d'Assucar, com a prôa para o norte, e o vento á bolina, sulcou a balandra ao longo da praia de Copacabana e Gavea. Conhecia Ayres perfeitamente toda aquella costa com seus recantos, por tel-a frequentemente percorrido no navio de seu pai, durante o cruzeiro que este, fazia aos pichelingues.

Escolheu posição estrategica, em uma aba da ilha dos Papagaios onde o encontramos, e collocou o velho gageiro Bruno de atalaia no pincaro de um rochedo, para lhe dar aviso do primeiro navio que apparecesse.

Si o arrojado mancebo tinha desde o primeiro instante arrebatado a maruja pela sua intrepidez, a presteza e tino com que provéra aos reparos da balandra, a segurança de sua manobra por entre os parceis, e a sagacidade da posição que tomára, haviam inspirado a confiança absoluta, que torna a tripolação um instrumento cego e quasi mecanico na mão do commandante.

Em quanto esperava, Ayres víra do tombadilho passar uma canoinha de pescador, dirigida por uma formosa rapariga.

— Para aprender o meu novo officio de corsario vou dar caça á canoa! exclamou o mancebo a rir. Olá, rapazes!

E saltou no batel, acompanhado por quatro marujos que a um aceno esticaram os remos.

— Com certeza é espia dos calvinistas! Força, rapazes; carecemos de agarral-a a todo o tranze.

Facilmente foi a canôa alcançada, e trazida a bordo a rapariga, que ainda tremula de medo, todavia já despregava dos labios no meio dos requebros vergonhosos um sorriso brejeiro.

Vira ella e ouvíra os chupões que lhe atirava á surrelfa a boca de Ayres apinhada á feição de beijo.

— Toca a descançar, rapazes, e a refrescar. Eu cá vou tripolar esta presa, em quanto não capturamos a outra.

Isto disse-o Ayres a rir; e os marujos lhe responderam no mesmo tom.

V

O COMBATE

Desabava a tempestade, que desde o transmontar do sol, estava imminente sobre a costa.

Passaram algumas lufadas rijas e ardentes: eram as primeiras baforadas da procella. Pouco depois cahiu a refega impetuosa e cavou o mar, levantando enormes vagalhões.

Ayres até ali bordejava com o estais e a bujarrona, entre as ilhas dos Papagaios e a do Breu, mascarando a balandra de modo a não ser vista da escuna, que passava ao largo com as gaveas nos rinzes.

Ao cahir da refega porém, mandou Ayres soldar todo o panno, e metter a prôa direita sobre o corsario.

Cheguem á fala, rapazes, gritou o commandaute.

— Cercaram-n'o sem demora os marujos.

— Vamos sobre a escuna com a borrasca, desarvorados por ella, traquete rôto e o mais pannoa açoutar o mastro. Percebeis?

— Si está claro como o sol!

— Olhai os harpéos, que não nos escape das garras o inimigo. Quanto ás armas, aproveitai este aviso de um homem que elle só a dormir entendía mais do officio, que todos os maritimos do mundo e bem acordados. Para a abordagem não ha como a machadinha; apunhada por um homem destemido, não é arma, sinão braço e mão de ferro, que decepa quanto se lhe oppõe. Não se carece de mais; um cabide d'armas servirá para a defeza, mas para o ataque, não.

Proferidas estas palavras, tomou Ayres a machadinha que lhe fôra buscar um grumete e passou-a na cinta sobrei ilharga.

— Alerta, rapazes, que estamos com elles.

N'esse momento, com effeito, a balandra acabando de dobrar a ponta da ilha estava no horizonte da escuna e podia ser avistada a cada instante. Á advertencia do commandante, os marujos dispersaram-se pelo navio, correndo uns ás vergas, outros ás enxarcias e escôtas de mezena e traquete.

No portaló Ayres commandava uma manobra, que os marinheiros de sobreaviso executavam ás avessas; de modo que em poucos momentos farrapos de vela estortegavam como serpentes em furia, enroscando-se ao mastro; levantava-se de bordo medonha celeuma; e a balandra corria em arvore secca arrebatada pela tempestade.

Da escuna, que singrava airosamente, capeando á refega, viram os francezes de repente cahirIhes sobre como um turbilhão, o barco desarvorado, e orçaram para evitar o abalroamento. Mas de seu lado a balandra carregára, de modo que foi inevitavel o choque.

Antes que os francezes se recobrassem do abalo produzido pelo embate, arremessavam-se no tombadilho da escuna doze demonios que abateram quanto se interpunha á sua passagem.

Assim varreram o convez de prôa á popa.

Só ahi encontraram seria resistencia. Um mancebo, que pelo trajo e especto nobre, inculcava ser o commandante da escuna, acabava de subir ao convez, e precipitava-se contra os assaltantes, seguido por alguns marinheiros que se haviam refugiado n'aquelle ponto.

Mal avistou o reforço, Ayres que debalde buscára com os olhos o commandante francez, presentiu-o na figura do mancebo, e arrojou-se ávante, abrindo caminho com a machadinha.

Foi terrivel e encarniçada a luta., Eram para se medirem os dois adversarios, na coragem, como na destreza. Mas Ayres tinha por si a embriaguez do triumpho que obra prodigios, emquanto o francez sentia apagar-se a estrella de sua ventura, e já não combatia sinão pela honra e pela vingança.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →