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#Comédias#Literatura Brasileira

Quem casa, quer casa

Por Martins Pena (1845)

FABIANA – Mas ela é uma desavergonhada, que vem muito de propósito contrariar-me no governo da casa. 

SABINO, no mesmo – Que ela, que ela é desaver... desavergonhada... eu bem sei, sei muito bem... e cá sinto, e cá sinto... mas em aten... em aten... em atenção a mim... minha mãe... minha mãe devia ceder... 

FABIANA – Ceder, eu? Quando ela não tem a menor atenção comigo? Hoje nem bons dias me deu. 

SABINO, gago somente – Vou fazer com que ela venha... com que ela venha pedir perdão... e dizer-lhe que isto assim... que isto assim não me convém., e se ela, se ela persistir... vai tudo raso... com com pancadaria... FABIANA – Ainda bem que tomaste uma resolução. 

 

CENA VII

NICOLAU e os ditos. 

 

NICOLAU – Ó senhora? 

FABIANA – O que me quer? 

NICOLAU – Oh, já chegaste, Sabino? As flores de cera para os tocheiros? 

SABINO, gago – Ficaram prontas e já foram para a igreja. 

NICOLAU – Muito bem; agora vai vestir o hábito, que são horas de sairmos. Vai, anda. 

SABINO – Sim, senhor. (A Fabiana:) Vou ordenar que lhe venha pedir perdão e fazer as pazes. (Vai-se.) 

 

CENA VIII 

NICOLAU e FABIANA 

 

NICOLAU – Os teus brincos de brilhantes e os teus adereços, para nossos filhos levarem? Quero que sejam os anjinhos mais ricos... Que glória para mim! Que inveja terão! 

FABIANA – Homem, estão lá na gaveta. Tire tudo quanto quiser, mas deixe-me a paciência... 

NICOLAU – Verás que anjinhos asseados e ricos! (Chamando:) Ó Eduardo? Eduardo? Meu genro? 

EDUARDO, dentro – Que é lá? 

NICOLAU – Olha que são horas. Veste-te depressa, que a procissão não tarda a sair. 

EDUARDO, dentro – Sim, senhor. 

FABIANA – Ainda a mania deste é inocente... Assim tratasse ele da família. 

NICOLAU – Verás, mulher, verás que guapos ficam nossos filhinhos... Tu não os irás ver passar? 

FABIANA – Sai de casa quem a tem em paz. (Ouve-se dobrar os sinos.) 

NICOLAU – É o primeiro sinal! Sabino, anda depressa! Eduardo? Eduardo? 

EDUARDO, dentro – Sim, senhor. 

SABINO, dentro – Já vou, senhor. 

NICOLAU – Já lá vai o primeiro sinal! Depressa, que já saiu... Sabino? Sabino? Anda, filho... (Correndo para dentro:) Ah, sr. Bernardo, vista os pequenos... Ande, ande! Jesus, chegarei tarde! (Vai-se.) 

 

CENA IX

FABIANA e depois PAULINA. 

 

FABIANA – É o que se vê... Deus lhe dê um zelo mais esclarecido... 

PAULINA, entrando e à parte – Bem me custa... 

FABIANA, vendo-a e à parte – Oh, a desavergonhada de minha nora! 

PAULINA, à parte – Em vez de conciliar-me, tenho vontade de darlhe uma descompostura. 

FABIANA, à parte – Olhem aquilo! Não sei por que não a descomponho já! 

PAULINA, à parte – Mas é preciso fazer a vontade a meu marido... 

FABIANA, à parte – Se não fosse por amor da paz... (Alto) Tem alguma coisa que dizer-me? 

PAULINA, à parte – Maldita suçurana! (Alto:) Sim senhora, e a rogos de meu marido é que aqui estou. 

FABIANA – Ah, foram a rogos seus? O que lhe rogou ele? 

PAULINA – Que era tempo de se acabarem essas desavenças em que andamos... 

FABIANA – Mais que tempo... 

PAULINA – E eu dei-lhe a minha palavra que faria todo o possível para de hoje em diante vivermos em paz... e que principiaria por pedir-lhe perdão, como faço, dos agravos que de mim tem... 

FABIANA – Quisera Deus que assim tivesse sido desde princípio! E acredite, menina, que prezo muito a paz doméstica, e que minha maior satisfação é viver bem com vocês todos. 

PAULINA – De hoje em diante espero que assim será. Não levantarei a voz nesta casa sem vosso consentimento. Não darei uma ordem sem vossa permissão... Enfim, serei uma filha obediente e submissa. 

FABIANA – Só assim poderemos viver juntos. Dá cá um abraço. (Abraça-a.) És uma boa rapariga... Tens um bocadinho de gênio; mas quem não o tem? 

PAULINA – Hei de moderá-lo... 

FABIANA – Olha, minha filha, e não tornes a culpa a mim. É impossível haver em uma casa mais de uma senhora. Havendo, é tudo uma confusão... 

PAULINA – Tem razão. E quando acontece haver duas, toca à mais velha o governar. 

FABIANA – Assim é. 

PAULINA – A mais velha tem sempre mais experiência... 

FABIANA – Que dúvida! 

PAULINA – A mais velha sabe o que convém... 

FABIANA – Decerto. 

PAULINA – A mais velha conhece melhor as necessidades... 

FABIANA, à parte – A mais velha!... 

PAULINA, com intenção – A mais velha deve ter mais juízo... 

FABIANA – A mais velha, a mais velha... Que modo de falar é esse? 

PAULINA, o mesmo – Digo que a mais velha... 

FABIANA, desbaratando – Desavergonhada! A mim, velha!... 

PAULINA, com escárnio – Pois então? 

FABIANA, desesperada – Salta daqui! Salta! 

PAULINA – Não quero, não recebo ordens de ninguém. 

FABIANA – Ai, ai, que estalo! Assim insultar-me, este belisco! 

PAULINA – Esta coruja! 

FABIANA, no maior desespero – Sai, sai do pé de mim, que minhas mãos já comem! 

PAULINA – Não faço caso... 

(continua...)

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