Por Martins Pena (1848)
MARIANA – ... vem o moleque ou a rapariga trazer o vintenzinho...
FELISBERTO – Pois bem, tia, quero-lhe fazer o gosto; pedirei hoje esmola; até para ver se o ofício me agrada.
MARIANA – Sempre te conheci muito juízo, sobrinhozinho. O compadre arranja-lhe a opa?
SOUSA – Fica a meu cuidado.
MARIANA – Muito bem. E dê-me licença, que vou acabar de me vestir. (Sai.)
CENA VIII
SOUSA e FELISBERTO; [e depois JORGE.]
FELISBERTO, à parte – Não me lembrava que opa, às vezes, dá entrada até o interior das casas...
SOUSA – Vamos?
FELISBERTO – Quando quiser. (Encaminham para a porta do fundo; Jorge entra e passa por entre eles.)
SOUSA, para Jorge, quando passa – Um seu criado, Sr. Jorge. (Jorge não corresponde o cumprimento e dirige-se para a porta da direita.)
FELISBERTO, voltando-se – Malcriado! (Jorge, que está junto à porta para sair, volta-se.)
JORGE – Hem?
FELISBERTO, chegando-se para ele – Digo-lhe que é um malcriado!
JORGE, com energia – Isso é comigo?
FELISBERTO – É sim.
JORGE, vindo para a frente da cena. – Há muito tempo que eu procuro esta ocasião para nos entendermos.
FELISBERTO – Muito estimo. (Arregaça as mangas da casaca.)
SOUSA – Acomodem-se...
JORGE – O senhor tem tomado muitas liberdades em minha casa.
FELISBERTO – Primeiramente, a casa não é sua; e segundo, hei de tomar as liberdades que bem me parecerem.
SOUSA – Sr. Felisberto!...
JORGE – O senhor entra por aqui e não faz caso de mim?
FELISBERTO – E que figura é o senhor para eu fazer caso?
SOUSA – Sr. Jorge!... (Metendo-se no meio.)
JORGE – Chegue-se para lá; deixe-me, que estou zangado. O senhor fala com minha mulher em segredo, na minha presença...
FELISBERTO – Faço muito bem, porque é minha prima.
JORGE, gritando e batendo com os pés – Mas é minha mulher! E sabe que mais? É por consideração a ela que agora mesmo não lhe esmurro estas ventas. (Sai com passos largos.)
FELISBERTO – Anda cá! (Quer segui-lo; Sousa o retém.)
SOUSA – Aonde vai?
FELISBERTO, rindo-se – Ah, ah, ah! Não sei aonde foi a prima achar este côdea para marido. Tenho-lhe dito muitas vezes que é a vergonha da família.
SOUSA – É um homem sem princípios!
FELISBERTO – Eu regalo-me de não fazer caso nenhum dele... (Ouvem-se gritos dentro.) Ouça, ouça! Não ouve esses gritos? É a tia e a prima que andam com ele às voltas. Ah, ah!
SOUSA – Deixá-lo, e vamos, que se vai fazendo tarde. (Saem ambos, rindo-se.)
CENA IX
Entra JORGE desesperado.
JORGE – Os diabos que as carreguem, corujas do diabo! Assim não vai longe; desanda tudo em muita pancadaria. Ora cebolório! Que culpa tenho eu que o boticário se demorasse em fazer o sinapismo? É bem feito, Sr. Jorge, é bem feito! Quem o mandou ser tolo? Agora agüente... (Gritos dentro.) Grita, grita, canalha, até que arrebentem pelas ilhargas! Triste sorte... Que sogra, que mulher! Ah, diabos! Maldita seja a hora em que eu te dei a minha mão; antes te tivesse dado o pé, e um couce que arrebentasse a ti, a tua mãe e a toda a tua geração passada e por passar. É preciso eu tomar uma resolução. A mana Luísa tem razão; isto é fraqueza. Vou ensinar aquelas víboras! (Diz as últimas palavras caminhando com resolução para a porta; aí aparece Eufrásia e ele recua.)
CENA X
JORGE e EUFRÁSIA.
EUFRÁSIA – Quem é víbora? (Eufrásia caminha para ele, que vai recuando.)
JORGE – Não falo contigo... (Recua.)
EUFRÁSIA, seguindo-o – Quem é víbora?
JORGE, recuando sempre, e encosta-se no bastidor da esquerda – Já disse que não falo contigo!
EUFRÁSIA, junto dele – Então quem é? Sou eu? Fala!
JORGE, querendo mostrar-se forte – Eufrásia!...
EUFRÁSIA – Qual Eufrásia! Sou um raio que te parta!...
JORGE – Retira-te! Olha que te perco o respeito!
EUFRÁSIA, com desprezo – Pedaço de asno!
JORGE – Pedaço de asno? Olha que te... (Faz menção de dar uma bofetada.)
EUFRÁSIA volta para trás, gritando – Minha mãe, minha mãe!
JORGE, seguindo-a – Cala-te, demônio!
EUFRÁSIA, junto à porta – Venha cá!
CENA XI MARIANA e os mesmos.
MARIANA, entrando com um pano de sinapismo na mão – O que é? O que é?
JORGE, recuando – Agora sim!
EUFRÁSIA – Sô Jorge está-me maltratando!
MARIANA – Grandissíssimo sacripante!
JORGE – Sacripante?
EUFRÁSIA – Deu-me uma bofetada!
MARIANA – Uma bofetada na minha filha?
JORGE atravessa por diante de Mariana e chega-se, rancoroso, para Eufrásia – Dei-te uma bofetada, hem?
MARIANA, puxando-o pelo braço – Que atrevimento é esse, grandissíssimo patife?
JORGE, desesperado – Hoje aqui há morte!
EUFRÁSIA – Morte! Queres-me matar?
MARIANA – Ameaças, grandissíssimo traste?
JORGE, para Mariana – Grandissíssima tartaruga!
MARIANA – Tartaruga! A mim?
EUFRÁSIA, puxando-lhe pelo braço – Insultas a minha mãe?
JORGE, para Eufrásia – Grandissíssima lampreia!
EUFRÁSIA – Que afronta! Ai, ai, que morro... (Vai cair sentada em uma cadeira e finge-se desmaiada.)
JORGE – Morre, arrebenta, que te leve a breca! (Quer sair; Mariana o retém pela opa.)
MARIANA – Tu matas minha filha, patifão, mas eu hei de arrancar-te os olhos da cara...
JORGE – Largue a opa!
MARIANA – ... encher essa cara de bofetões!
JORGE – Largue a opa!
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.