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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Dois ou o Inglês Maquinista

Por Martins Pena (1845)

MARIQUINHA – É, eu mesmo é que dei o molde.

CLEMÊNCIA – São todos diferentes. Este é de costa lisa, e este não.

CECÍLIA – Este há de ficar bem.

CLEMÊNCIA – Muito bem. É uma luva.

MARIQUINHA – Já viu o feitio desta manga?

CECÍLIA – É verdade, como é bonita! Olhe, minha mãe.

EUFRÁSIA – São de pregas enviesadas. (Para o menino:) Menino, fique quieto.

MARIQUINHA – Este cabeção fica muito bem.

CECÍLIA – Tenho um assim.

EUFRÁSIA – Que roda!

MARIQUINHA – Assim é que eu gosto.

CLEMÊNCIA – E não levou muito caro.

EUFRÁSIA – Quanto? (Para o menino:) Juca, desce daí.

CLEMÊNCIA – A três mil-réis.

EUFRÁSIA – Não é caro.

CECÍLIA – Parece seda esta chita. (Para o menino:) Juquinha, mamã já disse que fique quieto.

CLEMÊNCIA – A Merenciana está cortando muito bem.

EUFRÁSIA – É assim.

CECÍLIA – Já não mandam fazer mais na casa das francesas?

MARIQUINHA – Mandamos só os de seda.

CLEMÊNCIA – Não vale a pena mandar fazer vestidos de chita pelas francesas; pedem sempre tanto dinheiro! (Esta cena deve ser toda muito viva. Ouve-se dentro bulha como de louça que se quebra:) O que é isto lá dentro? (Voz, dentro: Não é nada, não senhora.) Nada? O que é que se quebrou lá dentro? Negras! (A voz, dentro: Foi o cachorro.) Estas minhas negras!... Com licença. (Clemência sai.) EUFRÁSIA – É tão descuidada esta nossa gente!

JOÃO DO AMARAL – É preciso ter paciência. (Ouve-se dentro bulha como de bofetadas e chicotadas.) Aquela pagou caro...

EUFRÁSIA, gritando – Comadre, não se aflija.

JOÃO – Se assim não fizer, nada tem.

EUFRÁSIA – Basta, comadre, perdoe por esta. (Cessam as chicotadas.) Estes nossos escravos fazem-nos criar cabelos brancos. (Entra Clemência arranjando o lenço do pescoço e muito esfogueada.)

CLEMÊNCIA – Os senhores desculpem, mas não se pode... (Assenta-se e toma respiração.) Ora veja só! Foram aquelas desavergonhadas deixar mesmo na beira da mesa a salva com os copos pra o cachorro dar com tudo no chão! Mas pagou-me!

EUFRÁSIA – Lá por casa é a mesma coisa. Ainda ontem a pamonha da minha Joana quebrou duas xícaras.

CLEMÊNCIA – Fazem-me perder a paciência. Ao menos as suas não são tão mandrionas.

EUFRÁSIA – Não são? Xi! Se eu lhe contar não há de crer. Ontem, todo o santo dia a Mônica levou a ensaboar quatro camisas do João.

CLEMÊNCIA – É porque não as esfrega.

EUFRÁSIA – É o que a comadre pensa.

CLEMÊNCIA – Eu não gosto de dar pancadas. Porém, deixemo-nos disso agora. A comadre ainda não viu o meu africano?

EUFRÁSIA – Não. Pois teve um?

CLEMÊNCIA – Tive; venham ver. (Levantam-se.) Deixe os vestidos aí que a rapariga vem buscar. Felício, dize ao senhor mister que se quiser entrar não faça cerimônia.

GAINER —Muito obrigada.

CLEMÊNCIA – Então, com sua licença.

EUFRÁSIA, para a preta – Traz o menino. (Saem Clemência, Eufrásia,

Mariquinha, Cecília, João do Amaral, Júlia, o menino, a preta e o moleque.)

CENA VII

FELÍCIO E GAINER

FELÍCIO – Estou admirado! Excelente idéia! Bela e admirável máquina!

GAINER, contente – Admirável, sim.

FELÍCIO – Deve dar muito interesse.

GAINER – Muita interesse o fabricante. Quando este máquina tiver acabada, não precisa mais de cozinheiro, de sapateira e de outras muitas ofícias.

FELÍCIO – Então a máquina supre todos estes ofícios?

GAINER – Oh, sim! Eu bota a máquina aqui no meio da sala, manda vir um boi, bota a boi na buraco da maquine e depois de meia hora sai por outra banda da maquine tudo já feita.

FELÍCIO – Mas explique-me bem isto.

GAINER – Olha. A carne do boi sai feita em beef, em roast-beef, em fricandó e outras muitas; do couro sai sapatas, botas...

FELÍCIO, com muita seriedade – Envernizadas?

GAINER – Sim, também pode ser. Das chifres sai bocetas, pentes e cabo de faca; das ossas sai marcas...

FELÍCIO, no mesmo – Boa ocasião para aproveitar os ossos para o seu açúcar.

GAINER – Sim, sim, também sai açúcar, balas da Porto e amêndoas.

FELÍCIO – Que prodígio! Estou maravilhado! Quando pretende fazer trabalhar a máquina?

GAINER – Conforme; falta ainda alguma dinheira. Eu queria fazer uma empréstima. Se o senhor quer fazer seu capital render cinqüenta por cento dá a mim para acabar a maquina, que trabalha depois por nossa conta.

FELÍCIO, à parte – Assim era eu tolo... (Para [Gainer:]) Não sabe quanto sinto não ter dinheiro disponível. Que bela ocasião de triplicar, quadruplicar, quintuplicar, que digo, centuplicar o meu capital em pouco! Ah!

GAINER, à parte – Destes tolas eu quero muito.

FELÍCIO – Mas veja como os homens são maus. Chamarem ao senhor, que é o homem o mais filantrópico e desinteressado e amicíssimo do Brasil, especulador de dinheiros alheios e outros nomes mais.

GAINER —A mim chama especuladora? A mim? By God! Quem é a atrevido que me dá esta nome?

FELÍCIO – É preciso, na verdade, muita paciência. Dizerem que o senhor está rico com espertezas!

GAINER – Eu rica! Que calúnia! Eu rica? Eu está pobre com minhas projetos pra bem do Brasil.

(continua...)

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