Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE – Veremos quem é capaz de lograr-me .. Lograr André Camarão! Cá a menina, levarei a palmatória. Santa panacéia para namoros! E minha mulher... Oh, se lhe passar somente pela ponta dos cabelos a idéia de enganar-me, de se deixar seduzir... Ah, nem falar nisso, nem pensar! Eu seria um tigre, um leão, um elefante! A mataria, a enterraria, a esfolaria viva. Oh, já tremo de furor! Vi muitas vezes Otelo no teatro, quando ia para platéia por ordem superior. O crime de Otelo é uma migalha, uma ninharia, uma nonada, comparado com o meu... Enganar-me! Enganar, ela! Ah, nem sei do que seria capaz! Amarrados ela e o seu amante, os mandaria de presente ao diabo, acabariam na ponta desta espada, nas unhas destas mãos, no talão destas botas! Nem quero dizer do que seria capaz.
PAULINO, à parte, no armário – Deus se compadeça de mim!
PEDESTRE – Oh, mataria o gênero humano, se o gênero humano seduzisse minha mulher!
PAULINO, à parte – Quem me reza por alma?
PEDESTRE – Ela que chega... E eu não me fio nela...
CENA VIII
Os mesmos, ANACLETA e BALBINA.
ANACLETA – Mandou-me chamar?
PEDESTRE – Sim, espere. E tu, (para Balbina) vai aquentar uma xícara de café, que tenho a cabeça muito esquentada. (Balbina sai.)
PAULINO, à parte – Atenção...
PEDESTRE, para Anacleta – Chegue-se para cá. (Assenta-se.)
ANACLETA, aproximando-se – Aqui me tem.
PEDESTRE – Quem vem a esta casa quando eu estou fora?
PAULINO, à parte – Ninguém...
ANACLETA – Zombas comigo? (Olhando ao redor de si:) Ele saiu...
PEDESTRE – Responda ao que lhe pergunto. Quem vem a esta casa?
ANACLETA – Quando sais não fechas todas as portas e não nos deixas presas cada uma de seu lado? Como queres que aqui venha alguém?
PEDESTRE, levantando-se – Portas fechadas! Que valem portas fechadas? As fechaduras não têm buraco?
ANACLETA, à parte – Com que homem casei-me eu!
PEDESTRE, à parte – Hei de ver se descubro umas fechaduras sem buraco... (Alto:) Anacleta, ouve bem o que te vou dizer. Tu me conheces, e sabes se sou capaz de fazer o que digo – e ainda mais. Sempre que saio deixo esta casa fechada, portas e janelas, e sempre que aqui estou tenho os olhos alerta. E apesar de todas estas cautelas, Balbina enganou-me.
ANACLETA – Enganou-te?
PEDESTRE – Tem um amante, recebe cartinhas e está fiada em um estratagema para lograr-me. (Olha ao redor de si.) Mas isso veremos... Mas onde diabo viu ela esse sujeito? Quando, como? Aqui está o que me amofina, o que derrota a minha finúria de pedestre e faz-me andar a cabeça à roda. Tantas cautelas, e por fim logrado! Ah, mulheres! Diabos! Vamos, tu deves saber quem é ele? Como se chama? Onde foi que Balbina o viu? Em que lugar? Por que buraco? Por que greta?
ANACLETA – Nada sei.
PEDESTRE, pegando-lhe no braço, furioso – Nada sabes?
ANACLETA – Não!
PEDESTRE – Mulher!
ANACLETA – Matai-me, porque deixarei de sofrer!
PEDESTRE – Matar-te! Isso fica para quando o mereceres... Por ora, basta que eu seja mais cauteloso. Todas as portas, todas as janelas desta casa vão ser pregadas a prego... Um pequeno postigo naquela porta – quanto caiba meu corpo – será bastante para eu sair... E o postigo fechará como uma tampa de caxeta e aldraba – nada de fechaduras com buraco! A luz virá pelo telhado... Não, não, os telhados andam também muito perigosos... Uma candeia de dia e de noite estará acesa aqui. Quero ver se assim me logram.
ANACLETA, com muita tranqüilidade – Agora que te ouvi, ouve-me também. Fecha todas estas portas, prega-as, calafeta-as, rodeia-me de vigias e cautelas, que eu hei de achar uma ocasião para fugir!
PEDESTRE – Tu? Oh!
ANACLETA – Eu, sim! E irei direitinha daqui para o Recolhimento, donde saí, depois de queixar-me às autoridades.
PEDESTRE – Tu és capaz de fugir daqui?
ANACLETA – Sou sim!
PEDESTRE – Meu Deus, como hei de eu fechar estes demônios, estas endiabradas?
ANACLETA – Minha mãe – Deus a perdoe! – lançou-me na roda dos enjeitados. Na Santa Casa fui criada e educada...
PEDESTRE – Boa educação!...
ANACLETA – Privada dos carinhos maternais, pobre e abandonada como eu era, encontrei nessa casa de misericórdia cristã amparo e proteção; nela cresci e nela aprendi a orar a Deus pelos meus benfeitores e por minha mãe, que me havia abandonado, minha mãe, de quem só possuo no mundo esta cruz que desde o berço me acompanha... (Assim dizendo, beija uma cruzinha que traz pendente ao pescoço.) PEDESTRE – Esta história eu já ouvi muitas vezes, e faz-me sono...
ANACLETA – Pois dorme.
PEDESTRE – Assim era eu tolo. .. Quem se casa não dorme, ou... Bem sei o que digo.
ANACLETA – Então vai ouvindo. Como recolhida, tive quatrocentos mil-réis de dote... E tu te casaste comigo por causa desses quatrocentos mil-réis, e só por eles.
PEDESTRE – Eu os daria agora a quem me livrasse da pensão de te guardar.
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.