Por Martins Pena (1845)
Carlos — Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o jumento nas bancas das academias e amarra o homem de talento à manjedoura. Eu, que quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo através da metralha, bradando: "Marcha... (Manobrando pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche! Firmeza, avança! O inimigo fraqueia... (Seguindo Emília, que recua, espantada:) Avança!"
Emília — Primo, primo, que é isso? Fique quieto!
Carlos, entusiasmado —"Avança, bravos companheiros, viva a Pátria Viva!" — e voltar vitorioso, coberto de sangue e poeira... Em vez desta vida de agitação e glória, hei-de ser frade, revestir-me de paciência e humildade, encomendar defuntos... (Cantando:) Requiescat in pace... a porta inferi! amém... O que seguirá disto? O ser eu péssimo frade, descrédito do convento e vergonha do hábito que visto. Falta-me a paciência.
Emília — Paciência, Carlos, preciso eu também ter, e muita. Minha mãe declaroume positivamente que eu hei-de ser freira.
Carlos — Tu, freira? Também te perseguem?
Emília — E meu padrasto ameaça-me.
Carlos — Emília, aos cinco anos estava eu órfão, e tua mãe, minha tia, foi nomeada por meu pai sua testamenteira e minha tutora. Contigo cresci nesta casa e à amizade de criança seguiu-se inclinação mais forte... Eu te amei, Emília, e tu também me amaste.
Emília — Carlos!
Carlos — Vivíamos felizes esperando que um dia nos uniríamos. Nesses planos estávamos quando apareceu este homem, não sei donde, e que soube a tal ponto iludir tua mãe, que a fez esquecer-se de seus filhos que tanto amava, de seus interesses e contrair segundas núpcias.
Emília — Desde então nossa vida tem sido tormentosa...
Carlos — Obrigaram-me a ser noviço, e não contentes com isso, querem-te fazer freira. Emília, há muito tempo que eu observo este teu padrasto. E sabes qual tem sido o resultado das minhas observações?
Emília — Não.
Carlos — Que ele é um rematadíssimo velhaco.
Emília — Oh, estás bem certo disso?
Carlos — Certíssimo! Esta resolução que tomaram, de fazerem-te freira, confirma a minha opinião.
Emília — Explica-te
Carlos — Teu padrasto persuadia a minha tia que me obrigasse a ser frade para assim roubar-me, impunemente , a herança que meu pai deixou-me. Um frade não põe demandas...
Emília — É possível?
Carlos — Ainda mais; querem que tu sejas freira para não te darem dote, se te casares.
Emília — Carlos, quem te disso isso? Minha mãe não é capaz!
Carlos — Tua mãe vive iludida. Oh, que não possa eu desmascarar este tratante!...
Emília — Fala baixo!
CENA VIII
Entra Juca
Juca — Mana, mamãe pergunta por você.
Carlos — De hábito? Também ele? Ah!...
Juca, correndo para Carlos — Primo Carlos.
Carlos, tomando-o no colo — Juquinha! Então, prima, tenho ou não razão? Há ou não plano?
Juca — Primo, você também é frade? Já lhe deram também um carrinho de prata com cavalos de ouro?
Carlos — O que dizes?
Juca — Mamãe disse que havia de me dar um muito dourado quando eu fosse frade
(Cantando:) Eu quero ser frade... (etc., etc.)
Carlos, para Emília — Ainda duvidas? Vê como enganam esta inocente criança!
Juca — Não enganam não, primo; os cavalos andam sozinhos.
Carlos, para Emília — Então?
Emília — Meu Deus!
Carlos — Deixa o caso por minha conta. Hei-de fazer uma estralada de todos os diabos, verão...
Emília — Prudência!
Carlos — Deixa-os comigo. Adeus, Juquinha, vai para dentro com tua irmã (Bota-o no chão.)
Juca — Vamos, mana. (Sai cantando:) Eu quero ser frade... (Emília o segue.)
CENA IX
Carlos, só — Hei-de descobrir algum meio... Oh ,se hei-de! Hei-de ensinar a este patife, que casou-se com minha tia para comer não só a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto!.. Mas por ora tratemos de mim; sem dúvida no convento anda tudo em polvorosa... Foi boa cabeçada! O D. Abade deu um salto de trampolim... (Batem à porta.) Batem? Mau! Serão eles? (Batem.) Espreitemos pelo buraco da fechadura. (Vai espreitar) É uma mulher... (Abre aporta.)
CENA X
Rosa e Carlos.
Rosa — Dá licença?
Carlos — Entre.
Rosa, entrando — Uma serva de Vossa Reverendíssima.
Carlos — Com quem tenho o prazer de falar?
Rosa — Eu, Reverendíssimo Senhor, sou uma pobre mulher. Ai, estou muito cansada...
Carlos — Pois sente-se, senhora. (À parte:) Quem será?
Rosa, sentando-se — Eu chamo-me Rosa. Há uma hora que cheguei do Ceará no vapor Paquete do Norte.
Carlos — Deixou aquilo por lá tranqüilo?
Rosa — Muito tranqüilo, Reverendíssimo. Houve apenas no mês passado vinte e cinco mortes.
Carlos — S.Brás! Vinte e cinco mortes! E chama a isso tranqüilidade?
Rosa — Se Vossa Reverendíssima soubesse o que por lá vai, não se admiraria.
Mas, meu senhor, isto são cousas que nos não pertencem; deixe lá morrer quem morre, que ninguém se importa com isso. Vossa Reverendíssima é cá da casa?
Carlos — Sim senhora.
Rosa — Então é parente de meu homem?
Carlos — De seu homem?
Rosa — Sim senhor.
Carlos — E quem é seu homem?
Rosa — Sr. Ambrósio Nunes.
Carlos — O Sr. Ambrósio Nunes!...
Rosa — Somos casados há oito anos.
Carlos — A senhora é casada com o Sr. Ambrósio Nunes, e isto há oito anos?
Rosa— Sim senhor.
Carlos — Sabe o que está dizendo?
Rosa— Essa é boa
Carlos — Está em seu perfeito juízo?
Rosa — O Reverendíssimo ofende-me...
Carlos —
Com a fortuna! Conte-me isso, conte-me como se casou, quando, como, em que
lugar?
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.