Por Martins Pena (1845)
MANUEL – Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e ia comprar um burro e uma carroça para vender a iágua. O Zé voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados que assim ganhou.
MARIA – Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale também, e outros me dará ainda.
MANUEL – Pois se eu sair, sairás também, senão te desanco.
MARIA – Ai!
MANUEL – Pensas que eu não sei porque queres ficar?
MARIA – Ai, que me impacientas!
MANUEL – Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.
MARIA – Esta besta! O senhor a fazer-me roda, tão velho como é? Ai, que me rio desta!
MANUEL – Vai-te rindo, bestinha, até que chores.
CLARA, da porta da casa – Maria?
MARIA – Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!
MANUEL – Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.
MARIA – Olha que cansarás a vista, animal.
CENA VII
MANUEL, só – Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupação, que o diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e vão arrumar o capim na carroça para ir para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer à senhora, que não é para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo João.)
CENA VIII
JOÃO, só – Agora que lá dentro estão todos entretidos, é boa ocasião de cercar minha bela ilhoazinha para dar-lhe um abraçozinho. Aonde estará ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha mulher veja-me aqui. É velha, mais tem ciúmes como um mouro. Quem manda ser velha? Estará no quarto? (Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. Lá dentro ainda dançam; estão devertidos e não darão por minha falta. Vou esconder-me no seu quarto e lá esperarei para surpreendê-la. Oh, que surpresa! Só assim, porque ela é arisca como o diabo. Dou-lhe um abraçozinho e depois safo-me na pontinha dos pés. Oh, que surpresa! Que contentamento! (Esfrega as mãos. Júlio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; João, que está quase junto à porta, volta-se zangado.)
CENA IX
Júlio e João.
JÚLIO – Sr. João Félix?
JOÃO, voltando-se – Quem é?
JÚLIO – Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com atenção...
JOÃO, impaciente – O que tens agora a dizer-me, homem? Vá dançar.
JÚLIO – Pensamentos muito sérios ocupam-se neste momento para eu poder dançar.
JOÃO – Então o que é?
JÚLIO – Desculpe a minha franqueza...
JOÃO – Avie-se, que tenho pressa.
JÚLIO – Eu amo sua filha.
JOÃO – E que tenho eu com isso?
JÚLIO – Mas é que eu a amo com adoração, como nunca se amou, e pretendia...
JOÃO – Vá dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradança; ande, vá, vá! (Empurrando-o)
JÚLIO – Não é por tão pequeno favor que eu ouso encomodá-lo.
JOÃO , à parte – Que impertinência! E eu a perder tempo e ocasião.
JÚLIO – Terei ânimo em falar, visto que o senhor não reprovou o meu amor.
JOÃO – Bem vejo que tens ânimo, mas pressa decerto que não tens. Pois é o que eu tenho.
JÚLIO – Serei breve. Concede-me a mão de sua filha?
JOÃO – Se é para dançar, já lhe dei.
JÚLIO – Não senhor, é para casar.
JOÃO – Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais juízo. Pois de noute, no meio do campo e a estas horas é que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabeça ao sereno? Já eu estou constipado. (Amarra um lenço na cabeça.)
JÚLIO – Só motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo tão precipitado.
JOÃO – Precipitado ou não precipitado, não lhe dou minha filha! (Durante a continuação desta cena João passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por trás da carroça, vai até o fundo, volta, etc., e Júlio o segue sempre falando.)
JÚLIO – Mas senhor, Vossa Senhoria não tem razão em responder-me deste modo. Eu decerto teria escolhido melhor ocasião; há porém acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que à primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto é o que Vossa Senhoria deveria fazer. Não se trata de um negócio de pouca monta. A minha proposição não deve ser assim recebida. Sei que a sua filha é um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim não se dá essa idéia. Procuro os dotes morais de que é ornada, as virtudes que a fazem tão amável e encantadora. Conheço-a de perto, tenho tido a honra de freqüentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me dê um momento de atenção. Esse exercício violento pode-lhe fazer mal... Minha família é muito conhecida nesta cidade; não é rica, é verdade, mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha aliança com a filha de Vossa Senhoria não pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina não me vê com indiferença...
JOÃO, voltando-se muito zangado para Júlio – Não lhe dou minha filha, não lhe dou, não lhe dou! E tenho dito.
JÚLIO – Atenda-me!
JOÃO – Aonde viu o senhor dar-se caça a um pai de semelhante maneira?
JÚLIO – Desculpe-me, é o meu amor a causa de...
(continua...)
PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.