Por Martins Pena (1838)
Escrivão, lendo − “O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.S.ª por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Eu, Il.” sr. Juiz de paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas, e como vêm de encaixe, pelo a V.S.ª o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras cousas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem da raça do Judas, diz que metade do sítio é dele. E então, que lhe parece, sr. Juiz, não é desaforo? Mas, como ia dizendo, peço a V.S.ª para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André. E.R.M.”
Juiz − Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.
Manuel André − Mas, sr. Juiz, ele também está ocupado com uma plantação.
Juiz − Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.
Manuel André − Vossa Senhoria não pode prender-me à toa; a Constituição não manda.
Juiz − A Constituição!... Está bem!... Eu, o Juiz de paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. Escrivão, tome termo que a Constituição está derrogada, e mandeme prender este homem.
Manuel André − Isto é uma injustiça!
Juiz − Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias...
Manuel André − É desaforo...
Juiz, levantando-se − Brejeiro!... (MANUEL ANDRÉ corre; o JUIZ vai atrás.) Pega...
Pega... Lá se foi... Que o leve o diabo. (Assenta-se.) Vamos às outras partes.
Escrivão, lendo − Diz João de Sampaio que, sendo ele “senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cerca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com a sem-cerimônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. Juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como um cão, que é outra qualidade de alimária e que pensa às vezes como um homem. Para V.S.ª não pensar que minto, lhe conto uma história: a minha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V.S.ª naquela noite, depois que lhe dei uma tunda nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V.S.ª que mande entregar-me o leitão. E.R.M.”
Juiz − É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz?
Tomás − É verdade que o leitão era dele, porém agora é meu.
Sampaio − Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?
Tomás − É meu, tenho dito.
Sampaio − Pois não é, não senhor. (Agarram ambos no leitão e puxam, cada um para sua banda.)
Juiz, levantando-se − Larguem o pobre animal, não o matem!
Tomás − Deixe-me, senhor!
Juiz − Sr. Escrivão, chame o meirinho. (Os dous apartam-se.) Espere, Sr. Escrivão, não é preciso. (Assenta-se.) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores este leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.
Tomás − Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.
Juiz − Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas.
E que diz o Sr. Sampaio?
Sampaio − Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceitar, fico contente.
Juiz − Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos. Com efeito! Ora, Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!
Tomás − Se Vossa Senhoria quer, posso mandar algumas.
Juiz − Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?
Tomás, tomando o leitão − Sim senhor.
Juiz − Podem se retirar, estão conciliados.
Sampaio − Tenho ainda um requerimento que fazer.
Juiz − Então, qual é?
Sampaio − Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.
Juiz − Ó homem! Citar a Assembléia Provincial? E para quê?
Sampaio − Pra mandar fazer cercado de espinhos em todas as hortas.
Juiz − Isto é impossível! A Assembléia Provincial não pode ocupar-se com estas insignificâncias.
Tomás − Insignificância, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aqueles sujeitos não era insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.
Juiz − Está bom, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer (Saem os dous.) Sr. Escrivão, faça o favor de... (Levanta-se apressado e, chegando à porta, grita para fora:) Ó Sr. Tomás! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!
Tomás, ao longe − Sim senhor.
Juiz, assentando-se − Era muito capaz de esquecer. Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
Escrivão, lendo − Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V.S.ª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher.”
Juiz − É de verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
José da Silva − É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.
Juiz − Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.
José da
Silva − Mas, Sr.
Juiz...
(continua...)
PENA, Martins. O Juiz de Paz da Roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17003 . Acesso em: 29 jan. 2026.