Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel (com ironia) — Nós as mulheres, sim, é a nossa obrigação!... Enquanto solteiros é justo que façam sacrifícios por nós, mas depois! Não sabemos que nos amam? Não se casaram conosco? Algumas queixam-se porque ficam isoladas e

tristes; mas a culpa é delas. Para que inventaram os bailes, senão para nos divertirem enquanto eles tratam dos seus negócios? Clarinha vem tomar chá.

Clarinha — Obrigada! Não quero (Vai ao piano)

Siqueira — Tens razão, Bela! não no que dizes mas no que sentes. Atualmente uma moça deixa a família, separa-se dos pais, com o homem a quem ama para ter um companheiro de sua vida; e o que ela encontra no casamento é a solidão e a viuvez de todas as afeições.

Isabel — Estava gracejando, meu pai. Não tenho razão de queixa. Meu marido cerca-me de tantas atenções. (Pausa)

Siqueira — Que é da minha afilhada? Não me esqueci dela. (Tira balas do bolso)

Isabel — Está lá dentro. Joaquim, dize a Rita que traga Iaiá. (Joaquim vai à porta.

Tomam chá)

Clarinha — Sr. Sales!

Sales — Minha senhora!

Clarinha — O senhor não canta?

Sales — Não, D. Clarinha.

Clarinha — Mas eu creio que já o ouvi na Campesina.

Sales — Nem sou sócio.

Clarinha — Então seria alguém que se parece com o senhor.

Isabel — Canta com Henrique.

Henrique — Estou rouco.

Clarinha — Não faz mal. É o seu estado natural.

Henrique — Excelente razão. Serve para hoje e para outra vez.

Clarinha — Oh! Guarde na carteira, que eu terei o cuidado de não convidá-lo mais.

Isabel — Estão sempre brincando.

Siqueira — Já me parecem casados.

Joaquim — Iaiá está dormindo, sim senhora.

Siqueira — Deixe-a dormir.

Clarinha (a Sales) — Deveras o Sr. não canta?

Sales — Não tenho voz, D. Clarinha.

Clarinha — Pois ensaiemos o dueto conversando. Aí vai o acompanhamento.

(Pausa)

Siqueira (a Henrique) — Está jogando a paciência? É jogo de velho.

Henrique — Ao contrário. Os velhos já não esperam; e por isso não precisam de paciência.

Siqueira — Oh! se precisam! Sobretudo neste tempo de cosméticos e chinós, em que já não se tolera o desleixo daquele que parece velho.

Clarinha — Então, Sr. Sales, não diz nada?

Sales — Estou ouvindo.

Clarinha — O Sr. dava um bom deputado. Por que não se apresenta agora?

Sales — A senhora tem lembranças!

Clarinha — Seriamente! Não dizem que todas as opiniões e todas as classes devem ser representadas no parlamento?Pois a moda ainda não tem o seu órgão; pelo menos uma vez que fui à Câmara não vi lá nenhum figurino. Quanto ao Senado, não se fala; são quarentões. Ora, se o senhor se apresentasse, era sem contestação candidato pela Província da Rua do Ouvidor.

Sales — Está brincando, D. Clarinha? Pois olhe; não me faltam elementos. Se o governo quiser!

Clarinha — Ora se quiser! Assim achasse ele uma dúzia como o Sr.

Siqueira (a Henrique que baralha as cartas) — E negam que este mundo não anda às avessas! Quando eu tinha sua idade, deixava o baralho às velhas que se ferravam na bisca, e nós os rapazes armávamos um joguinho de prendas, ainda que não fosse senão para ter o prazer de abraçar uma moça bonita como Clarinha, e pôr o tal senhor Sales de lampião de esquina.

Henrique — Ele representa melhor de candeeiro de sala. Não vê como está tão lustroso!

Sales — Estava admirando o seu vestido. É realmente de muito bom gosto.

Clarinha — Sinto não poder lhe agradecer... Foi um presente.

Sales — Não importa. A senhora é que lhe dá realce.

Clarinha — Desta vez, sim senhor, obrigada. Mas agora reparo. Está com umas luvas muito lindas.

Sales — Quer zombar de mim.

Clarinha — Não sou capaz. Deveras são muito elegantes.

Sales — Talvez a senhora não acredite! Atualmente não se encontra um par destas luvas em todo o Rio de Janeiro. Pode correr toda a Rua do Ouvidor.

Clarinha — São tão raras assim?

Sales — É uma cor muito distinta. Não acha?

Isabel — Que conversa tão animada!

Sales — D. Clarinha não quer cantar.

Clarinha — O Senhor Sales estava contando-me a história de suas luvas gris-perle.

(Deixa o piano)

Isabel — Ah! devia ser interessante.

Sales — D. Clarinha tem muito espírito.

Clarinha — Parece-lhe?... Estou quase duvidando. (Henrique ergue-se e consulta o relógio)

Siqueira — Que horas tem?

Henrique — Quase dez.

Siqueira — Boa noite!

Isabel — Ainda é cedo, meu pai!

Siqueira — Vou amanhã para Petrópolis...

Isabel — Tão depressa! Eu tenho muitas queixas suas. Agora quando vem à cidade, apenas passa conosco um ou dois dias. Já não nos quer bem!

Siqueira — Estou velho... Custa-me a passar muito tempo fora de casa.



CENA IX

Henrique, Sales, Isabel e Clarinha

Henrique — Ainda fica, Sr. Sales?

Sales — Não, senhor. Vamos juntos.

Isabel — É muito cedo. Para serem amáveis, deviam ficar fazendo-nos companhia até que Augusto voltasse.

Henrique — Não posso. São mais de dez horas.

Clarinha — Tão tarde. Deve estar caindo de sono!

Sales — Na sua presença?... Não é possível, D. Clarinha.

Clarinha — Isto quer dizer que a minha presença produz o mesmo efeito que o chá verde! Ataca os nervos. Obrigada pela fineza, Sr. Sales.

Sales — Perdão! Eu não tive intenção de dizer semelhante cousa.

Henrique — Bela!

ISabel — Adeus!

Henrique (baixo) — Até logo!

Isabel (alto) — Até amanhã!

Henrique (baixo) — Eu voltarei, Bela! Para vê-la uma última vez!

Isabel — Não! Não volte! Eu lhe suplico.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →