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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Santa virgindade das emoções, primeiros orvalhos do coração, que a aridez do mundo tão depressa estanca! A quantos espetáculos pungentes não tenho eu assistido depois com os olhos enxutos e o espírito sereno! D. Leocádia abriu os olhos: 

—Não há. mais esperança, doutor? Enxuguei as lágrimas envergonhado, e achei em mim uma energia nova. Lancei mão dos últimos recursos. Um mês arquei com a dissolução que invadia esse corpo frágil, disputando às garras da morte os sobejos de vida, que lhe faltava devorar. Tinha, a pedido do Sr. 

Duarte, ficado em sua casa; e a isso, a esse cuidado incessante de todas as horas e de todos os momentos, devo o resultado que obtive. 

Venci afinal. Mal sabia eu da influência que devia ter no meu destino essa existência, cujos frouxos clarões, prestes a se apagarem, eu reanimara com os lumes de minha alma. 

Emília entrou em convalescença. A gratidão do pai foi sincera; sua recompensa generosa. Aceitei a primeira e recusei a última. 

—Por quê? me perguntarias talvez. 

Era como te disse o meu primeiro triunfo em medicina; trabalhei para ele como o sacerdote de minha nova religião. Por um desses movimentos misteriosos do coração que não se explicam, quis sagrá-lo unicamente à ciência, extreme e puro de todo o interesse pecuniário. 

Tal foi o motivo de minha recusa, e não mal-entendido pudor de receber a justa remuneração de tão nobre serviço. 

Escrevi ao Sr. Duarte pouco mais ou menos o seguinte: 

"Foi Deus quem salvou D. Emília; a ele devemos agradecer, o senhor a vida de sua filha, eu minha felicidade. 

"Meu primeiro doente foi para mim como um primeiro filho. As emoções que senti lutando com a moléstia, as angustias por que passei nas suas recrudescências, o desespero de minha fraqueza nesses momentos, um pai os deve compreender. 

"Essas emoções só podiam ter uma recompensa. Já a recebi do meu coração. Foi a pura e santa alegria de restituir a vida querida, que me fora confiada. Substituí-la por outra, não seria generoso de sua parte, Sr. 

Duarte." O negociante ainda me procurou, e insistiu, mas inutilmente. 

Afinal lhe disse : 

—Eu conheço, Sr. Duarte, que faço uma violência à sua generosidade, Mas, em compensação lhe prometo... Começo a minha vida; é possível que alguma vez me veja em embaraços. Nesse caso recorrerei ao senhor! 

—Promete-me? —Dou-lhe minha palavra. 

Pouco tempo depois sabes que fui h Europa, onde me demorei perto de dous anos. Fizemos juntos até Pernambuco a viagem, de que nasceu a nossa boa e sincera amizade. Se não me engano, em nossas conversas intimas a bordo falei-te alguma vez dessa família, mas sem as particularidades que refiro agora. 

Então ainda a luz intensa da paixão, que veio depois, não tinha debuxado, como estereótipo nas lâminas do coração, a imagem viva dessa menina. 


III 

VOLTANDO da Europa, a primeira visita que recebi foi a do Sr. Duarte. Tinha-me despedido dele e de sua família; nessa ocasião ainda, apesar dos esforços do pai, Emília não me quis aparecer. Também eu já não reparava na vergonhosa esquivança da menina. 

Visitando o negociante, vi ao entrar na sala uma linda moça, que não reconheci. Estava só. De pé no vão da janela cheia de luz, meio reclinada ao peitoril, tinha na mão um livro aberto e lia com atenção. 

Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. 

Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém na mesma delicadeza do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos. 

Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim. 

Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão. 

Às vezes, porém, a impressão da leitura turbava a serena elação da sua figura, e despertava nela a mulher. Então desferia alma por todos os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, rasgavam-se para dardejar as centelhas elétricas do nervoso organismo. Nesses momentos toda ela era somente coração, porque toda ela palpitava e sentia. 

Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la. Ouvindo o rumor dos meus passos, ela voltou-se. 

—Minha senhora!... murmurei inclinando-me. 

As cores fugiram-lhe. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionomia anuviou-se, e eu vi lampejos fuzilarem naquela densidade de uma cólera súbita. 

Fulminou-me com um olhar augusto, e desapareceu. 

(continua...)

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