Por José de Alencar (1860)
Araújo – Que quer que lhe faça? Um caixeiro só tem de seu as noites. Agora mesmo chego do armarinho, e ainda foi preciso que o amo desse licença.
Margarida – Pois deixe ficar, que amanhã cedo está pronto.
Araújo – Amanhã?... E como hei de ir hoje ao baile da Vestal?
Carolina – Ah!... o senhor vai ao baile?
Araújo – Então pensa que por ser caixeiro não freqüento a alta sociedade? Cá está o convite... Mas o colarinho? Ande, Sra. Margarida.
Margarida – Lavar e engomar hoje mesmo?
Araújo – Para as oito horas. Não quero perder nem uma quadrilha. As valsas pouco me importam...
Margarida – O senhor dá-me sempre cada maçada!...
Araújo – Deixe estar que um dia destes trago-lhe uma caixinha de agulhas. Margarida – Veremos.
CENA IX
(Araújo, Helena e Carolina) Carolina, na janela.
Helena – Como está Sr. Araújo?
Araújo – A senhora por aqui... É novidade.
Helena – Também o senhor.
Araújo – Eu sou vizinho; e a Sra. Margarida é minha engomadeira.
Helena – Pois eu moro muito longe; porém mandei fazer uns vestidos para esta menina.
Araújo – Então já não gosta das modistas francesas?
Helena – Cosem muito mal.
Araújo – E dão cada tesourada! Como os alfaiates da Rua do Ouvidor... Mas assim mesmo, a senhora largar-se do Catete à Rua Formosa, em busca de uma costureira!
Helena – Que tem isso?
Araújo – Veio de carro? Está um na porta.
Helena – É o meu.
Araújo – Ahnn... Trata-se agora.
Helena – Sempre fui assim.
Araújo – Ah!... Não se lembra!... Pois olhe! Estou agora me lembrando de uma coisa.
Helena – De quê?
Araújo – Lá no armarinho, quando as fazendas ficam mofadas, sabe o que se faz?
Helena – Ora, que me importa isso?
Araújo – Separam-se umas das outras, para que não passe o mofo.
Helena – Que quer o senhor dizer?
Araújo – Quero dizer que as mulheres às vezes são como as fazendas; e que tudo neste mundo é negócio, como diz o amo.
Helena – Está engraçado!
CENA X
(Os mesmos e Margarida)
Araújo – Acha isso?
Helena – Deixai-me! Adeus, menina!
Carolina – Já vai?
Araújo – O maldito colarinho está pronto?
Margarida – Está quase.
Helena – Mande deitar estes vestidos no carro.
Margarida – Sim, senhora.
Helena – a Carolina – Adeus. (Baixo) Veja lá! Oito horas já deram.
Carolina– Sim!
Helena – Adeus!...(a Araújo) Boa noite!
Araújo – Viva!
Helena – Não fique mal comigo.
Araújo – Há muito tempo que conhece esta mulher, D. Carolina?
Carolina – Há um mês.
Araújo – Quem a trouxe cá?...
Carolina – Ninguém; ela precisa de uma costureira.
Araújo (à Margarida) – Olhe que são mais de oito horas!
Margarida – Arre!... Que pressa!...
Araújo – Não se demore! Eu volto já; vou fazer a barba.
CENA XI (Luís, Araújo e Carolina)
Luís – Não saias; quero te dar uma palavra.
Araújo – Depressa, que tenho hoje um baile.
Luís – Espera um momento. (Olhando para CAROLINA) Sempre na janela.
Araújo – Desconfias de alguma coisa?
Luís – Carolina!
Carolina – Ah!...Luís.
Luís – Assustei, minha prima?
Carolina – Não! Estava distraída.
Luís – Desculpe, procurei este momento para falar-lhe porque desejava pedir-lhe perdão.
Carolina – Perdão? De quê?
Luís– Não recusei a sua mão que seu pai me queria dar? Não a ofendi com essa recusa? Uma mulher deve ter sempre o direito de desprezar; o seu orgulho não admite que ninguém a prive desse direito.
Carolina – Não me ofendi com a sua franqueza, Luís. (Com ironia) Reconheci apenas que não era digna de pertencer-lhe; outra merece o seu amor!
Luís – Esse amor que eu confessei era mentira.
Carolina – Por que confessou então? Quem o obrigou?
Luís – Ninguém. Menti por sua causa; para poupar-lhe um desgosto.
Carolina – Não o entendo.
Luís – Conhece o caráter do seu pai e sabe que quando ele quer as coisas não há vontade que lhe resista. Para tornar de uma vez impossível esse casamento, para que o meu nome não lhe cause mais tristeza, ouvindo-o associado ao título de seu marido, declarei que amava outra mulher; menti.
Carolina – E que mal havia nisso? Todos não temos um coração.
Luís – É verdade; porém o meu creio que não foi feito para o amor, e sim para a amizade. As minhas únicas afeições estão concentradas nesta casa; fora dela trabalho; aqui sinto-me viver. Um amor estranho seria como uma usurpação dos sentimentos que pertencem aos meus parentes. É por isso que só a sua felicidade me obrigaria a confessar-me ingrato.
Carolina – Não sei em que isso podia influir sobre a minha felicidade.
Luís – Quando se ama...
Carolina – Mas eu não amo.
Luís – Seja franca!
Carolina – Juro!
Luís – Não jure!
Carolina – Onde vai?
Luís – Ouvi bater na janela.
Carolina – Não!... Foi engano.
Luís – Vou ver.
Carolina – Meu primo!...
Araújo (baixo a Luís) – Um sujeito está espiando pela rótula.
Carolina (na rótula, baixo e para fora) – Espere!
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.