Por José de Alencar (1857)
— A vida elegante o atraía, a ociosidade o fascinava; o senhor lançava pela janela às mãos cheias o ouro que seu pai havia ajuntado real a real.
— Basta; não me lembre esse tempo de loucura que eu desejava riscar da minha vida.
— Conheço que o incomodo; mas é preciso. Durante este primeiro ano, em que ainda tive esperanças de o fazer voltar à razão, não houve meio que não empregasse, não houve estratagema de que não lançasse mão. Responda-me, não é exato?
— Alguma vez o neguei?
— Diga-me do fundo da sua consciência: julga que um pai no desespero podia fazer mais por um filho do que eu fiz pelo senhor?
— Juro que não! disse Jorge, estendendo a mão.
— Pois bem, agora é preciso que lhe diga tudo.
— Tudo?...
— Sim; ainda não concluí. Os seus desvarios de três anos arruinaram a sua fortuna.
— Eu o sei.
— As suas apólices voaram umas após outras e foram consumidas em jantares, prazeres e jogos.
— Resta-me, porém, a minha casa comercial.
— Resta-lhe, continuou o velho, carregando sobre esta palavra, a sua casa comercial, mas três anos de má administração deviam naturalmente ter influído no estado dessa casa.
— Parece-me que não.
— Sou negociante e sei o que é o comércio. Depois que o vi finalmente voltar à vida regrada, quis ocupar-me de novo dos seus negócios; indaguei, informei-me e ontem terminei o exame da sua escrituração, que obtive de seus caixeiros quase que por um abuso de confiança. O resultado tenho-o aqui.
O velho pousou a mão sobre a carteira.
— E então? Perguntou Jorge com ansiedade.
O senhor Almeida, fitando no moço um olhar severo, respondeu lentamente à sua pergunta inquieta:
— O senhor está pobre!
CAPÍTULO IV
Para um homem habituado aos cômodos da vida, a essa existência da gente rica, que tem a chave de ouro que abre todas as portas, o talismã que vence todos os impossíveis, essa palavra pobre é a desgraça, é mais do que a desgraça, é uma fatalidade.
A miséria com o seu cortejo de privações e de desgostos, a humilhação de uma posição decaída, a terrível necessidade de aceitar, senão a caridade, ao menos a benevolência alheia, tudo isto desenhou-se com as cores mais carregadas no espírito do moço à simples palavra que seu tutor acabava de pronunciar.
Contudo, como já se havia de alguma maneira preparado para uma vida laboriosa pelo tédio que lhe deixaram os seus anos de loucura, aceitou com uma espécie de resignação o castigo que lhe dava a Providência.
— Estou pobre, disse ele, respondendo ao senhor Almeida, não importa; sou moço, trabalharei e, como meu pai, hei de fazer fortuna.
O velho abanou a cabeça com uma certa ironia misturada de tristeza.
— O senhor duvida? O meu passado dá-lhe direito para isso; mas um dia lhe provarei o contrário e lhe mostrarei que mereço a sua estima.
— Esta promessa ma restitui toda. Mas que conta fazer?
— Não sei; a noite me há de inspirar. Liquidarei esse pouco que me resta...
— Esse pouco que lhe resta?
— Sim.
— Não me compreendeu então; disse-lhe que estava pobre; não lhe resta senão a miséria e...
— E... balbuciou o moço, pálido e com a alma suspensa aos lábios do velho, cuja voz tinha tomado uma entonação solene ao pronunciar aquele monossílabo.
— E as dívidas de seu pai, articulou o senhor Almeida no mesmo tom.
Jorge deixou-se cair sobre a cadeira com desânimo; este último golpe o prostrara; a sua energia não resistia.
O velho cuja intenção real era impossível de adivinhar, porque às vezes tornava-se benévolo como um amigo e outras severo como um juiz, encarou-o por algum tempo com uma dureza de olhar inexprimível:
— Assim, disse ele, eis um filho que herdou um nome sem mancha e uma fortuna de duzentos contos de réis; e que, depois de ter lançado ao pó das ruas as gotas de suor da fronte de seu pai amassadas durante trinta anos, atira ao desprezo, ao escárnio e à irrisão pública esse nome sagrado, esse nome que toda a praça do Rio de Janeiro respeitava como o símbolo da honradez. Diga-me que título merece este filho?
— O de um miserável e de um infame, disse Jorge, levantando a cabeça: eu o sou! Mas a memória de meu pai, que eu venero, não pode ser manchada pelos atos de um mau filho.
— O senhor bem mostra que não é negociante.
— Não é preciso ser negociante para compreender o que é a honra e a probidade, senhor Almeida.
— Mas é preciso ser negociante para compreender até que ponto obriga a honra e a probidade de um negociante. Seu pai devia; em vez de saldar essas obrigações com a riqueza que lhe deixou, consumiu-a em prazeres; no dia em que o nome daquele que sempre fez honra à sua firma for declarado falido, a sua memória está desonrada.
— O senhor é severo demais, senhor Almeida.
— Oh! não discutamos; penso desta maneira; não sou rico, mas procurarei salvar o nome de meu amigo da desonra que seu filho lançou sobre ele.
— E o que me tocará a mim então?
— Ao senhor, disse o velho, erguendo-se, fica-lhe a miséria, a vergonha, o remorso, e, talvez mais tarde, o arrependimento.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.