Por José de Alencar (1857)
— A sua modéstia pode ser dessa opinião; porém a minha amizade e o meu reconhecimento pensam diversamente.
— Perdão; não percamos tempo em cumprimentos. A fortuna que lhe deixara seu pai e que ele ajuntara durante trinta anos de trabalho e de privações, consistia em cem apólices e na sua casa comercial, que representava um capital igual, ainda mesmo depois de pagas as dívidas.
— Sim, senhor, graças à sua inteligente administração, achava-me possuidor de duzentos contos de réis, a que dei bem mau emprego, confesso.
— Não desejo fazer-lhe exprobrações; o senhor não é mais meu pupilo, é um homem; já não lhe posso falar com autoridade de um segundo pai, mas simplesmente com a confiança de um velho amigo.
— Mas um amigo que me merecerá sempre o maior respeito.
— Infelizmente o senhor não tem dado provas disto; durante perto de um ano acompanhei-o como uma, sombra, importunei-o com os meus conselhos, abusei dos meus direitos de amigo de seu pai e tudo isto foi debalde.
— É verdade, disse o moço, abaixando tristemente a cabeça, para vergonha minha é verdade!
— A vida elegante o atraía, a ociosidade o fascinava; o senhor lançava pela janela às mãos cheias o ouro que seu pai havia ajuntado real a real.
— Basta; não me lembre esse tempo de loucura que eu desejava riscar da minha vida.
— Conheço que o incomodo; mas é preciso. Durante este primeiro ano, em que ainda tive esperanças de o fazer voltar à razão, não houve meio que não empregasse, não houve estratagema de que não lançasse mão. Responda-me, não é exato?
— Alguma vez o neguei?
— Diga-me do fundo da sua consciência: julga que um pai no desespero podia fazer mais por um filho do que eu fiz pelo senhor?
— Juro que não! disse Jorge, estendendo a mão.
— Pois bem, agora é preciso que lhe diga tudo.
— Tudo?...
— Sim; ainda não concluí. Os seus desvarios de três anos arruinaram a sua fortuna.
— Eu o sei.
— As suas apólices voaram umas após outras e foram consumidas em jantares, prazeres e jogos.
— Resta-me, porém, a minha casa comercial.
— Resta-lhe, continuou o velho, carregando sobre esta palavra, a sua casa comercial, mas três anos de má administração deviam naturalmente ter influído no estado dessa casa.
— Parece-me que não.
— Sou negociante e sei o que é o comércio. Depois que o vi finalmente voltar à vida regrada, quis ocupar-me de novo dos seus negócios; indaguei, informei-me e ontem terminei o exame da sua escrituração, que obtive de seus caixeiros quase que por um abuso de confiança. O resultado tenho-o aqui.
O velho pousou a mão sobre a carteira.
— E então? Perguntou Jorge com ansiedade.
O senhor Almeida, fitando no moço um olhar severo, respondeu lentamente à sua pergunta inquieta:
— O senhor está pobre!
CAPÍTULO IV
Para um homem habituado aos cômodos da vida, a essa existência da gente rica, que tem a chave de ouro que abre todas as portas, o talismã que vence todos os impossíveis, essa palavra pobre é a desgraça, é mais do que a desgraça, é uma fatalidade.
A miséria com o seu cortejo de privações e de desgostos, a humilhação de uma posição decaída, a terrível necessidade de aceitar, senão a caridade, ao menos a benevolência alheia, tudo isto desenhou-se com as cores mais carregadas no espírito do moço à simples palavra que seu tutor acabava de pronunciar.
Contudo, como já se havia de alguma maneira preparado para uma vida laboriosa pelo tédio que lhe deixaram os seus anos de loucura, aceitou com uma espécie de resignação o castigo que lhe dava a Providência.
— Estou pobre, disse ele, respondendo ao senhor Almeida, não importa; sou moço, trabalharei e, como meu pai, hei de fazer fortuna.
O velho abanou a cabeça com uma certa ironia misturada de tristeza.
— O senhor duvida? O meu passado dá-lhe direito para isso; mas um dia lhe provarei o contrário e lhe mostrarei que mereço a sua estima.
— Esta promessa ma restitui toda. Mas que conta fazer?
— Não sei; a noite me há de inspirar. Liquidarei esse pouco que me resta...
— Esse pouco que lhe resta?
— Sim.
— Não me compreendeu então; disse-lhe que estava pobre; não lhe resta senão a miséria e...
— E... balbuciou o moço, pálido e com a alma suspensa aos lábios do velho, cuja voz tinha tomado uma entonação solene ao pronunciar aquele monossílabo.
— E as dívidas de seu pai, articulou o senhor Almeida no mesmo tom.
Jorge deixou-se cair sobre a cadeira com desânimo; este último golpe o prostrara; a sua energia não resistia.
O velho cuja intenção real era impossível de adivinhar, porque às vezes tornava-se benévolo como um amigo e outras severo como um juiz, encarou-o por algum tempo com uma dureza de olhar inexprimível:
(continua...)
ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.