Por José de Alencar (1873)
- Ainda sou deste, graças a Deus, disse o pescador sorrindo, bem que por pouco tempo.
- Há de sê-lo por muitos anos.
O velho abanou a cabeça.
- Os oitenta já lá vão. Mas deixe-me dizer-lhe... Também a mim, quando o enxerguei, no quea vista me ajuda, sucedeu-me quase a mesma cousa.
- Também causei-lhe susto?
- Susto, não; nesta idade a gente já não se teme, senão daquele que está no céu para nosjulgar a todos; porém assim um espanto, como se visse uma pessoa que não se espera mais ver, aqui embaixo.
- Já falecida?
- Senhor, sim.
- Quem?
- Oh! o senhor ainda não era nascido, quando isto foi.
- Há muitos anos então?
- Se eu já lhes perdi a conta!
- Conte-me isso.
- São cousas velhas que já não lembram a ninguém. Levariam muito tempo
- Não faz mal.
- Melhor é que vos'senhoria se guarde da chuva que aí está de pancada; eu vou fazer outrotanto.
Se eu mesmo perdia uma história do século passado, uma anedota de cabelos brancos, uma antigualha qualquer, depois de tê-la procurado inutilmente durante mais de cinco meses!
- Por mim, não tenha cuidado, respondi: trate de acomodar-se, e se não tiver sono,conversaremos.
- Sono de velho é o descanso do corpo. Venha vos'senhoria já que assim o quer.
Chegamo-nos a um dos ângulos do velho convento, onde algumas paredes interiores formavam outrora uma sacristia: o pavimento do primeiro andar não tinha ainda desabado nesse lugar.
O velho enrolou a rede de que fez uma espécie de almofada; tirou fogo do fuzil e acendeu o cachimbo, enquanto eu, sentado sobre um troço de parede, e devorado pela curiosidade, preparava o meu cigarro.
III
Começou o velho:
"Fazem, se quer que lhe diga, não sei quantos anos. Era eu tamanino como esta minha pá de remo.
"O pai vivia da pesca, como o avô; porque isto de pescador parece que é oficio de família, que vai passando de filho a neto. Quase todas as noites ele me levava consigo quando ia ao mar; e pequeno como era sabia arrumar a canoa e botá-la ao largo.
"Já então costumava o pai na volta da pescaria descansar aqui. Punha a canoa em seco; deixava passar o resto da noite, e lá pela madrugada íamos vender o peixe ao Recife, porque em Olinda, afora a clerezia, tudo o mais era miuçalha.
"Havia ali assim no fundo do convento, bem na praia, uma casa velha, tão velha que estava cai, não cai. Também os donos, ninguém mais sabia deles. Nem viva alma ali morava.
"Uma noite, lá do largo, a gente viu uma luz acesa na janela da banda do mar. Eram que horas! Não tardava um instantinho que amanhecesse.
"- Estás vendo, Tonico?"
A voz do pescador tornou-se trêmula; e á tênue claridade da lua encoberta vi-o que enxugava com a mão rude e calosa uma lágrima de saudade.
- Meu nome de bautismo é Antônio. Porém, o pai e a mãe chamavam a gente Tonico.
Essa emoção de um velho de oitenta anos, recordando-se do apelido familiar da meninice, essa memória poderosa do coração que através de uma longa existência cheia de vicissitudes e trabalhos refletia com todo o colorido os quadros singelos da infância, tocoume.
Achei sublime isto, que outros acharão ridículo talvez.
O velho continuou, passada aquela primeira emoção:
"Eu nem respondi ao pai. Estava tremendo.
"- Quem andará ali?... Há que tempos a casa velha está abandonada!... Não seja...
"O pai fez o pelo sinal Eu rezava baixinho uma Ave-Maria.
"- Nossa Senhora de Nazaré nos defenda. Rema, rapaz, que o vento escasseou, e a vela está bamba!
"A luz de vez em quando apagava-se como farol que naquele tempo inda nem sonhava...
"Quando a gente chegou em terra, conheceu que a luz saía mesmo da janela da casa, e que o motivo de sumir-se e aparecer era uma figura preta que passava e tornava a passar por diante, como um homem que ia e vinha.
"Mas, havia um poder de anos, a casa não tinha morador, nem criatura de Deus que ali entrava.
"Na outra noite, na outra e na outra, sempre a mesma cousa, tanto que o pai não se pôde mais ter, e foi ao. sr. bispo e lhe contou tudo. O santo homem sossegou a gente: disse que era um pobre moço doente que veio morar na casa velha, porque todos fugiam dele, com medo da doença."
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.