Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Tomás Um negociante, boa firma, casa acreditada, moço elegante e honrado pede a mão da sua pupila; condição: vinte por cento do dote ao tutor, cinco por cento ao corretor, perpétuo segredo da transação. Que diz?
Firmino Que o Senhor me confunde com os tutores sem consciência e sem honra, com os traficantes que exploram em seu proveito um depósito sagrado.
Tomás Não se ofenda e ouça-me: recebi a confiança dos seus negócios, conheço a situação da sua casa e da sua fortuna: devo dizer-lhe que os seus recursos estão quase esgotados, e que a sua ruína será completa no fim de um ou de dois anos.
Firmino Ficar-me-á ilesa a probidade e tranqüila a consciência. Corina ainda é muito criança: quando estiver no caso de fazê-lo, escolherá livremente o seu noivo: o juiz dos órfãos aprovará esta minha disposição: estou satisfeito.
Tomás Sua alma sua palma: quer ser Catão, seja-o, há de, porém, em breve, dormir na esteira da pobreza.
Firmino Dormirei nela sono que muitos milionários não podem dormir em seus leitos dourados.
Tomás Senhor Firmino, sou seu amigo: abandone essas teorias poéticas, chegue-se à razão prática: veja em primeiro lugar se pode casar sua pupila com seu filho, ou ao menos casar com seu enteado... o dinheiro ficará em casa...
Firmino E o meu crédito atirado ao meio da rua...
Tomás Ao contrário, muito mais fortalecido pela presunção de maior base de capital: esta é que é a realidade; mas se escrupuliza, negocie o casamento da pupila rica em transação secreta, e peça a Deus que lhe dê mais duas ou três tutorias, como essa, para arranjo da vida.
Firmino Eu penso de modo inteiramente diverso: Não posso aceitar a sua proposta, e peço-lhe que não insista neste assunto.
Tomás Quando proponho, não ofendo, e também a negativa não me ofende: tomo tudo isto debaixo do ponto de vista mercantil: não faz conta, paciência: amigos como d’antes?
Firmino Certamente.
Tomás Cada vez o respeito e o lamento mais: o senhor é um homem do outro tempo... há de ser vítima da sua escrupulosa e exagerada probidade...
Firmino Por quem é... não me confunda...
Tomás (levantando-se e tomando o choque) Sou eu que saio confundido...
Firmino Saiamos juntos.
Tomás A companhia me exalta: reconheço-me por demônio ao lado de um santo.
Firmino Quer dizer de um tolo...
Tomás Ou isso.. salvo o respeito devido.
Firmino Vamos, senhor Tomás Pereira. (vão-se)
Cena 6ª
Teodora e Carlos
Teodora Saíram enfim.
Carlos Eu também vou sair... são quase onze horas...
Teodora Carlos, eu esperava que teu padrasto nos deixasse em liberdade para te ocupar de questão muito séria.
Carlos Mas hoje não posso perder a sessão do Senado: o ministério vai receber sova magistral... faz gosto ouvir os oradores da oposição...
Teodora Se não fosse o Senado, inventarias outro motivo para ausentar-te...
Carlos Com efeito... à tarde tenho sessão magna da Sociedade Filopoética.
Teodora É sempre assim! eu te peço dez minutos ao menos...
Carlos (abrindo o relógio) Dez minutos hoje, e amanhã o dia todo para minha mãe.
Teodora Meu filho, tu me confessaste que amavas Corina, e eu abençoei esse amor da beleza e da virtude...
Carlos Sim, minha mãe, eu amo Corina; mas infelizmente ela me parece um anjo amigalhado...
Teodora Se a esqueces tanto! aposto que ainda não lhe confessaste o amor que lhe tributas...
Carlos Ah! os meus olhos devem ter-lhe dito tanto!... E além dos meus olhos, já dez vezes tenho tentado declarar-lhe a minha paixão, mas...
Teodora Acaba...
Carlos Júlia me ridiculariza, e Corina põe-se a rir.
Teodora Não deves falar-lhe de amor em presença de Júlia.
Carlos Se uma nunca deixa a outra! Júlia é intolerável, minha mãe.
Teodora Eu ralharei com ela; tu, porém, sê mais freqüente junto de Corina: tens boa voz... canta a miúdo com ela... mostra-te mais ocupado da sua pessoa...
Carlos Ontem à noite escrevi-lhe um acróstico: ela há de lê-lo na Revista da Sociedade Filopoética.
Teodora A poesia não basta... em regra as senhoras confiam pouco nos poetas...
Carlos Mas eu não compreendo amor sem poesia e sem flores: ontem fiz versos a Corina, hoje hei de trazer-lhe um buquê de violetas, e amanhã dar-lhe-ei a ler o romance Paulo e Virgínia anotado por mim.
Teodora Versos, flores, romances, dá-lhe tudo isso, Carlos, exalta-lhe a imaginação, mas sobretudo sê menos acanhado... menos... não sei como digo, menos contemplativo, e... meramente respeitoso, ama-a como homem deste mundo... as senhoras... as donzelas precisam parecer forçadas a ouvir... a amar... a conceder inocentes favores...
Carlos Corina é um anjo.
Teodora
Os anjos da terra têm sempre na sua natureza alguma
coisa de material. Carlos, eu quero que Corina seja tua esposa...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.