Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – Bravo! um amor violento, porque desenfreia na valsa, suave, porque engoma contradanças, e cheio de fogo, porque recorre aos sorvetes, que nunca faltam no baile!
VIOLANTE – Amor e marido apaixonado a compasso de música! hão de ser bons: prefiro o meu tempo, em que as donzelas se casavam pelo juízo dos pais; hoje em dia as moças casam-se pelo cálculo dos noivos, quando são ricas, ou por vento de felicidade rara, quando Deus permite.
CLEMÊNCIA – Que blasfêmia! é duvidar do poder da beleza, e descrer a influência dos anjos humanos.
BRAZ – Pois eu digo que a madrinha tem razão; a civilização e o progresso material mataram o amor, pelo menos na cidade do Rio de Janeiro; perdão... eu vou demonstrá-lo. O amor é uma espécie de sistema representativo, porque sem oposição degenera em água morna; o amor vive de desejos contrariados, de esperanças duvidosas, de saudades agridoces; tem o seu encanto no mistério, a sua força nos obstáculos, o seu brilho na adversidade; adora o segredo das negociações pendentes, como um ministro dos negócios estrangeiros; maldiz da luz e da publicidade, como um chefe de polícia, e salta por cima do direito e das leis, quando isso lhe faz conta, como o poder executivo.
CLEMÊNCIA – E depois disso...
BRAZ – A civilização e o progresso acabaram com todos esses elementos da vida do amor; para a saudade não há mais distâncias separadoras, por causa das estradas de ferro; o doce mistério de uma cartinha amorosa não se observa mais: os namorados vão ao Jornal do Commercio e escrevem para todos lerem: “C... Adoro-te sempre; hoje à tarde espera-me à janela, e me verás passar no meu cavalo baio; guarda-me a primeira valsa no baile do barão; não quero que dances com o moço de bigodes: teu louco apaixonado... E.” Já vê? o amor caiu na publicidade dos anúncios a seis vinténs por linha, e manifesta-se a pataca e meia.
CLEMÊNCIA – Está gracejando...
BRAZ – Dantes os lampiões a azeite deixavam à noite recantos escuros, onde o amante esperava ansioso o recado ou a resposta da amada; hoje veio a iluminação a gás e dissipou as sombras amigas; dantes os pais escondiam as filhas, e alguns minutos de confidência secreta eram raros favores devidos à astúcia ou ao acaso; hoje um moço e uma moça tratam do que chamam de amor, em casa, no baile, no teatro, no passeio, sem cuidados, nem cerimônias, e exatamente como dois agiotas que na praça do comércio ajustam ações de uma empresa, de que eles próprios desconfiam; por conseqüência...
CLEMÊNCIA – Há de ser curiosa a conclusão!
BRAZ – Por conseqüência o amor, o verdadeiro amor, privado dos seus elementos de vida e de estímulo, desertou, fugiu para longe da cidade do Rio de Janeiro, onde tomou-lhe o lugar o cálculo enfeitado pela cortesia; não há mais amantes, há calculistas; não há mais amadas, há calculadas.
CLEMÊNCIA – Então... atualmente o amor...
BRAZ – É uma operação de aritmética.
CLEMÊNCIA – A beleza, as graças, o merecimento de uma senhora....
BRAZ – São agradáveis orações incidentes no período gramatical do casamento.
CLEMÊNCIA – E a oração principal?
BRAZ – O dinheiro: prova irrecusável; o Sol tem já vinte anos de idade, e ainda não conseguiu casar.
CLEMÊNCIA – Porque ainda não quis escolher.
BRAZ – Pois escolha, e se alguma lua minguante com um dote avultado lhe disputar o escolhido, verá que, apesar da luz do Sol, fica solteira.
CLEMÊNCIA – O senhor calunia a sociedade e ofende a formosura; titia, freqüente comigo os bailes e o teatro, e verá o desmentido eloqüente. .
VIOLANTE – Não... não... perguntariam e saberiam quem sou... e chegariam ao conhecimento da minha herança de quinhentos contos de réis...
CLEMÊNCIA – Que importa isso?
VIOLANTE – Não quero expor-me a roubar-te os namorados.
CLEMÊNCIA (Desatando a rir) – Ah! ah! ah!
BRAZ – Não ria; juro que a madrinha seria sua rival preferida por muitos.
CLEMÊNCIA (Rindo-se mais.) – Ah! ah! ah!...
BRAZ – Preferida, mostrando-se mesmo de touca e óculos, como está.
CLEMÊNCIA (Rindo cada vez mais.) – Ah! ah! ah!
VIOLANTE – Estás me provocando!
CLEMÊNCIA – Que extravagante idéia!
BRAZ – Caso de aposta...
VIOLANTE – Braz...se não fosse o ridículo!
BRAZ – Vale a pena pela lição.
VIOLANTE – Aposto.
BRAZ – Designe o seu mais ardente apaixonado! (A Clemência.) CLEMÊNCIA – Um é pouco: designarei... (Pensando.) três, não bastam?
VIOLANTE – Que batalhão tem ela!
CLEMÊNCIA – E quem perder a aposta?
VIOLANTE – Recolher-se-á ao convento d’Ajuda por dois anos; eu farei todas as despesas perca quem perder.
CLEMÊNCIA – Aceito, reservando-me o direito de perdoar.
BRAZ (Pondo a mão no ombro de Clemência.) – Coitada da recolhida!
CENA IV
VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA e MÁRIO
MÁRIO – Titia! (Beija a mão a Violante.) – Senhor Braz! (Aperta a mão de
Braz.)
CLEMÊNCIA – Vens de má cara. (Aperta-lhe a mão.)
MÁRIO – Fui a um almoço dado à Ristori; antes lá não fosse, éramos trinta os festejadores do gênio... e dos trinta vinte e nove titulares, comendadores, ou filhos de barões e viscondes, de homens altamente condecorados... a única exceção fui eu...
BRAZ – Desataste a chorar.
MÁRIO – Eu tenho idéias... declarei-me republicano; era um recurso...
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.