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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

Consola-me, Dionísia,

Dá-me um beijinho teu.

UMA VOZ (Dentro.) – Levante!

OUTRA VOZ (Dentro.) – É o quinto rei à direita!... faz desconfiar! (Sussurro.)

BRÁULIO (Entrando.) – Aqueles senhores fazem muita bulha por pouca coisa!

CINCINATO – São republicanos que querem por força o rei à esquerda: é preciso denunciá-los à polícia.

BRÁULIO – E o senhor quer dormir em vez de jogar?...

CINCINATO – Efeitos da harmonia: sua sobrinha por excesso de afinação desafinou-me; ouvindo-a cantar a Casta diva, caí no sofá desafinado, isto é, desafinado no sofá.

BRÁULIO – É lisonja de cavalheiro amável... porém.... o senhor não joga mais hoje? ...

CINCINATO – Tranqüiliza-se; já concorri bastante para o barato: agora tenho outros cuidados... cerimônias à parte e segredo entre nós... ela é deveras sua sobrinha?...

BRÁULIO – Que pergunta! que supõe então o senhor?...

CINCINATO – Em fato de suposições o infinito é direito dos maliciosos; mas, na hipótese do parentesco, leve o diabo quem se arrepender... o sr. Bráulio quer-me para sobrinho honorário em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário?...

BRÁULIO – O senhor abusa... e me obrigará talvez a pedir-lhe o favor...

CINCINATO – De não voltar à gaiola onde gorjeia o rouxinol?... veja o que diz, tio Bráulio... é isso?... veja o que diz...

BRÁULIO – Pois é isso.

CINCINATO (Bebe cerveja e levanta-se) – Ali defronte há um sobrado de dois andares com escritos: amanhã alugo-o e estabeleço ao primeiro andar não uma, porém três sobrinhas, e no segundo lasquenet na frente, e bacarat, vulgo pacão, nos fundos; concorrência dupla no andar de baixo e no andar de cima; condições de supremacia: em baixo as sobrinhas sem tio, em cima o lasquenet e o pacão sem barato; no primeiro andar vulcões número três, no segundo sorvetes grátis e à vontade para refrigerar. Tio Bráulio, concedo-lhe duas horas para merecer o meu perdão. E tenho dito. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. ( Vai-se pela direita.)

CENA VI

BRÁULIO, e logo DIONÍSIA e GERTRUDES

BRÁULIO (À porta do fundo.) – Vocês não têm peso nem medida: em toda parte mostram o que são.

DIONÍSIA – Não perco nada, mostrando o que sou, porque ainda ninguém me achou feia.

GERTRUDES – Mas que alvoroço é este?...

BRÁULIO – Como é que dás confianças ao Quebra-louça quando estamos quase a ganhar a demanda com Adriano?

DIONÍSIA – É falso: eu a nenhum dou confianças; mas não sei como é que todos as tomam! quanto ao Quebra-louça, além de feio, é rio sem peixe; não me apanha corda.

BRÁULIO – E o atrevimento com que fala de ti?... propôs-me que o tomasse por sobrinho honorário, dando-te a ele em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário:já se viu zombaria mais insolente?!!

DIONÍSIA (Desatando a rir.) – Ah! ah! ah! ah!

GERTRUDES – Por isso o descarado, quando passa por mim, sempre me trata

de mamãe Gertrudes!

DIONÍSIA (Rindo.) – Ah! ah! ah! ah!

BRÁULIO – E ris ainda!

DIONÍSIA – Achei-lhe graça: é pena que o demônio seja tão feio.

UMA VOZ (Dentro.) – E escandaloso! há trapaça evidente!... (Sussurro.)

LOURENÇO (Dentro.) – Não perdi, roubaram o meu dinheiro!... (Rindo.)

BRÁULIO (A Gertrudes.) – Vai tocar! (Vai-se Gertrudes e logo toca.)

CENA VII

BRÁULIO, DIONÍSIA, LOURENÇO e depois GERTRUDES

BRÁULIO – Sr. Lourenço... ainda infeliz esta noite...

LOURENÇO – Infeliz não, roubado! nunca fui jogador! mas... (olhando Dionísia.) a traição, fingindo-se amor, quis que eu tomasse o jogo por pretexto, e em breve o pretexto se tornou vício e a falsidade depôs a máscara; na sua casa tudo é infame! deixo neste golfão a fortuna que há um ano herdei de meu honrado pai... minha ruína é justo castigo; porque eu recebi a educação da honestidade, e menti a ela vindo

aqui manchar-me com duas corrupções!... (Vai-se arrebatado.) BRÁULIO (Friamente.) – Amanhã à noite ele volta para jogar.

GERTRUDES (Entrando.) – Que furioso! fugi de medo... D. DONALDO (Dentro.) – Trezentos mil réis! UMA VOZ (Dentro.) – Levante.

FÁBIO (Dentro.) – Eu sou rei.

OUTRA VOZ (Dentro.) – Eu sou quatro.

GERTRUDES – Olha que em alguma noite o barato há de te sair caro.

BRÁULIO – Eu não obrigo a jogar.

VOZES (Dentro.) – O rei... quinze sortes!...

OUTRAS VOZES (Dentro.) – Há maço! há maço! venham baralhos novos!

(Rindo.)

CENA VIII

BRÁULIO, DIONÍSIA, GERTRUDES, um CRIADO e logo SILVEIRA

CRIADO (Correndo.) – Cartas novas...

BRÁULIO – Leva as que estão sobre a mesa do meu quarto. ( Vai-se o criado à esquerda.)

SILVEIRA – Sr. Bráulio... uma palavra (A um lado.): perdi quanto trazia... filhofamília não ouso expor-me a alguma negativa, querendo jogar sob palavra... empresteme só duzentos mil réis... juro-lhe que em três dias...

BRÁULIO – Filho-família... estamos na mesma; porém... o seu relógio de ouro e o alfinete de brilhantes... note que é somente pelo desejo de servi-lo...

SILVEIRA – Oh! mas amanhã... amanhã... .meu pai...

BRÁULIO – E quem lhe diz que não se desforrará esta noite?... (Ao criado que passa.) Que levas aí?...

CRIADO – Baralhos novos. (Vai-se pela direita.)

(continua...)

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