Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
DEMÉTRIO – Basta... o espanhol?... e então?...
CINCINATO – Na primeira tripa lambeu-me trezentos mil réis que fui parando para experimentar... desconfiei da experiência e vim tomar cerveja por consolação...
DEMÉTRIO – E não pensas em desforra?...
CINCINATO – Nada: a desforra é rapariga muito provocadora, mas de ordinário quem vai atrás dela perde-se no caminho...
DEMÉTRIO – Pois eu te mostro como se faz frente ao espanhol (Vai-se)
CINCINATO (Seguindo-o até a porta.) – Avante, prodígio! eu fico na
retaguarda, que é a guarda reta dos generais prudentes. (Deita-se no sofá.)
CENA V
CINCINATO, que fuma e bebe cerveja, depois BRÁULIO
DIONÍSIA (Cantando dentro.) – Casta diva qu’inargente Queste sacra, etc.
CINCINATO (Acompanhando com a mesma música.) – Bela moça qu’enfeitiças
Esta casa do barato,
Vem, consola o pobre paio
Que pagou bem caro o pato.
DIONÍSIA (Dentro.) – Ah, bello à me ritorna
Del fido, etc.
CINCINATO (Acompanhando.) – Ai, triste, o meu dinheiro
Não volta ao bolso meu;
Consola-me, Dionísia,
Dá-me um beijinho teu.
UMA VOZ (Dentro.) – Levante!
OUTRA VOZ (Dentro.) – É o quinto rei à direita!... faz desconfiar! (Sussurro.)
BRÁULIO (Entrando.) – Aqueles senhores fazem muita bulha por pouca coisa!
CINCINATO – São republicanos que querem por força o rei à esquerda: é preciso denunciá-los à polícia.
BRÁULIO – E o senhor quer dormir em vez de jogar?...
CINCINATO – Efeitos da harmonia: sua sobrinha por excesso de afinação desafinou-me; ouvindo-a cantar a Casta diva, caí no sofá desafinado, isto é, desafinado no sofá.
BRÁULIO – É lisonja de cavalheiro amável... porém.... o senhor não joga mais hoje? ...
CINCINATO – Tranqüiliza-se; já concorri bastante para o barato: agora tenho outros cuidados... cerimônias à parte e segredo entre nós... ela é deveras sua sobrinha?...
BRÁULIO – Que pergunta! que supõe então o senhor?...
CINCINATO – Em fato de suposições o infinito é direito dos maliciosos; mas, na hipótese do parentesco, leve o diabo quem se arrepender... o sr. Bráulio quer-me para sobrinho honorário em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário?...
BRÁULIO – O senhor abusa... e me obrigará talvez a pedir-lhe o favor...
CINCINATO – De não voltar à gaiola onde gorjeia o rouxinol?... veja o que diz, tio Bráulio... é isso?... veja o que diz...
BRÁULIO – Pois é isso.
CINCINATO (Bebe cerveja e levanta-se) – Ali defronte há um sobrado de dois andares com escritos: amanhã alugo-o e estabeleço ao primeiro andar não uma, porém três sobrinhas, e no segundo lasquenet na frente, e bacarat, vulgo pacão, nos fundos; concorrência dupla no andar de baixo e no andar de cima; condições de supremacia: em baixo as sobrinhas sem tio, em cima o lasquenet e o pacão sem barato; no primeiro andar vulcões número três, no segundo sorvetes grátis e à vontade para refrigerar. Tio Bráulio, concedo-lhe duas horas para merecer o meu perdão. E tenho dito. Cincinato Quebra-louça assinado por cima de estampilha. ( Vai-se pela direita.)
CENA VI
BRÁULIO, e logo DIONÍSIA e GERTRUDES
BRÁULIO (À porta do fundo.) – Vocês não têm peso nem medida: em toda parte mostram o que são.
DIONÍSIA – Não perco nada, mostrando o que sou, porque ainda ninguém me achou feia.
GERTRUDES – Mas que alvoroço é este?...
BRÁULIO – Como é que dás confianças ao Quebra-louça quando estamos quase a ganhar a demanda com Adriano?
DIONÍSIA – É falso: eu a nenhum dou confianças; mas não sei como é que todos as tomam! quanto ao Quebra-louça, além de feio, é rio sem peixe; não me apanha corda.
BRÁULIO – E o atrevimento com que fala de ti?... propôs-me que o tomasse por sobrinho honorário, dando-te a ele em casamento provisório com a terça parte do barato por dote temporário:já se viu zombaria mais insolente?!!
DIONÍSIA (Desatando a rir.) – Ah! ah! ah! ah!
GERTRUDES – Por isso o descarado, quando passa por mim, sempre me trata
de mamãe Gertrudes!
DIONÍSIA (Rindo.) – Ah! ah! ah! ah!
BRÁULIO – E ris ainda!
DIONÍSIA – Achei-lhe graça: é pena que o demônio seja tão feio.
UMA VOZ (Dentro.) – E escandaloso! há trapaça evidente!... (Sussurro.)
LOURENÇO (Dentro.) – Não perdi, roubaram o meu dinheiro!... (Rindo.)
BRÁULIO (A Gertrudes.) – Vai tocar! (Vai-se Gertrudes e logo toca.)
CENA VII
BRÁULIO, DIONÍSIA, LOURENÇO e depois GERTRUDES
BRÁULIO – Sr. Lourenço... ainda infeliz esta noite...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.