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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Aos quatorze anos, pois, ficou quase só no mundo a filha de Paulo Ângelo. É verdade que um nobre e respeitável ancião, seu avô paterno, encarregou-se de sua tutela; que ela achou em uma bela e interessante senhora, filha de seu avô, e portanto sua tia, uma companheira e amiga. É certo, que firmes e não ingratos se mostraram alguns dos muitos antigos amigos de seu pai; por sem dúvida, que herdou ela toda a idolatria que votava a classe necessitada ao médico benfeitor. É verdade tudo isso, mas não será verdade, também, que ainda mesmo no centro da multidão está quase num ermo, que ainda mesmo no meio de mil riquezas está mais pobre que o último mendigo, aquele que perde de improviso o que mais ama no mundo? pois que sentimento há aí, que preencher possa o vazio deixado no coração pelo amor filial?... um só talvez, a saudade do que se perdeu: é ainda o mesmo sentimento modificado pela dor, e crismado com novo nome.

E pois essa interessante pombinha ficara só e ainda mal emplumada no ninho, onde não poderão jamais voltar os pais, apanhados tão de súbito pela morte. E pois essa criança de quatorze anos, fora cedo tocada pelo dedo pesado do infortúnio e escrevera seu nome na lista dessas criaturas infelizes e sagradas, que no mundo se chamam – órfãos; – sim, infelizes, porque têm perdido aquilo que a natureza pede incessantemente dentro do coração; sagradas, também, porque um órfão deve ser um objeto respeitado, como a alma de um vivo e o cadáver de um morto.

E como profundamente ressentida desse golpe inesperado que a viera ferir no tempo mesmo em que começava de bem compreender o que era, o que valia o amor dos pais, a filha de Paulo Ângelo, semelhante a essas flores que, açoitadas pela tempestade ao desabrochar, não morrem mas se desenvolvem abatidas e tristes, ia passando seus belos dias da idade da inocência alquebrada pela dor e pela saudade. Mesmo depois de passado seu ano de luto, quando já o bálsamo do tempo tinha cicatrizado a ferida profunda de seu coração, ela teimava em viver uma vida de retiro e de esquecimento. Apenas uma ou outra vez podiam na manhã de algum domingo admirar a graça de sua figura ou adivinhar a beleza de seu rosto encoberto pelo véu com que se ornava, indo ao templo do Senhor; apenas, e raramente, uma ou outra vez podiam vê-la, para fugir logo, depois aparecer ao lado de sua tia em alguma das janelas do “Céu cor-de-rosa”; apenas, e ainda mais raramente, era uma ou outra vez enfim arrastada por seu avô e sua tia a essas sociedades brilhantes e embriagadoras, que fazem o delírio das moças, e que são, a um só tempo, o altar em que se elas adoram, e o labirinto em que um se elas perdem. Era seu viver como esse viajar etéreo de formosa lua melancólica, por noite nublada e feia, que surge por curtos instantes dentre nuvens carregadas, e logo depois novamente se mergulha, deixando apenas ressumbrar seus raios através dos véus de fumo do firmamento.

Não era por índole triste assim a filha de Paulo Ângelo; tinha, ao contrário, gênio brincador e alegre; mas a prematura morte de seus pais lhe embutira um ponto negro, uma recordação lúgubre na vida, e mil vezes, ou quase sempre no fervor de uma festa, ou no sonhar de lisonjeiras fantasias, o ponto negro lhe surgia, a recordação lúgubre vinha abismá-la. Por isso, notava-se de ordinário em seu rosto essa melancolia tocante que, como já disse alguém, é, até certo ponto, uma graça na dor.

Ela ficara pobre de bens; fora sua única herança o “Céu cor-de-rosa”; e, portanto, não podendo, como dantes, derramar benefícios e esmolas sobre aqueles tantos pobres, que seus pais chamavam – filhos, – e ela se habituara a chamar – irmãos; – achava em tal mais um motivo para ocultar-se, como já inútil; e às vezes escapava-lhe uma lágrima, pensando que poderia ser pesada.

Mas essa mesma vida de retiro e sossego, essa vida quase de mistério, redobrava o interesse que pela órfã se mostrava.

E ao mesmo tempo que ela, ao amanhecer cuidando de suas flores, durante o dia de suas músicas e trabalhos, e de noite triste e docemente refletindo, se supunha esquecida de todos, se acreditava, ao muito, objeto só de alguma terna saudade como a que se tem de um bom amigo de muito tempo perdido, os velhos protegidos de seu pai, os filhos da caridade de Paulo Ângelo, a fantasia romanesca do povo entusiasta celebravam a apoteose da interessante moça, criando para ela o “Céu corde-rosa”; dando-lhe o nome de “Bela Órfã”, inventando um “Purgatório-trigueiro”; fazendo habitante deste uma velha bruxa, e até enfim forjando uma paixão miraculosa entre a “Bela Órfã” e o astro do dia.

Ora, como é natural, a fama da beleza e das virtudes da “Bela Órfã” não se deixou ficar no bairro da Lapa do Desterro, e correndo por toda cidade, chegou também aos ouvidos dos senhores do bom-tom, que, começando por isso a freqüentar a rua de.. e conhecendo que no “Céu cor-de-rosa” não era a “Bela Órfã” a única beleza que havia, fizeram dessa rua o seu passeio de escolha, e desafiaram assim a curiosidade dos sossegados habitantes dela.

Como dissemos, essa curiosidade estava já satisfeita, o mistério tinha sido facilmente explicado. Jacó havia apontado para o “Céu cor-de-rosa”, e dito:

– A causa é aquilo.

Agora, desviando-nos um pouco da porta do “Céu”, convém que entremos diretamente no “Purgatório”.

CAPÍTULO II

O “PURGATÓRIO-TRIGUEIRO”

NO FIM do muro que defendia o jardim do “Céu cor-de-rosa”, estava, como já dissemos, o “Purgatório-trigueiro”.

(continua...)

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