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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Adriano – Qué!... será possível que por alguns magros réis o alfaiate do corpo diplomático se abaixasse a subir a um terceiro andar?... o alfaiate do corpo diplomático!... que miséria!... que miséria!...

Felisberto – Mas é que o senhor chama magros réis a uma soma de....

Adriano – Pare... pare... não pronuncie o total... lembre-se que sou músico, e que o som produzido por um total é capaz de esfolar-me os ouvidos!...

Felisberto – Senhor, basta de gracejos; creio que devo ser pago, visto que não seria com o único fim de lhe obsequiar, que há dois anos o tenho vestido dos pés à cabeça; lembre-se que está coberto com os meus panos?

Adriano – Alfaiate do corpo diplomático! Sabe música?...

Felisberto – Não, senhor.

Adriano – Em tal caso lhe farei ouvir uma composição, que deve elevar-me à imortalidade! Compreendo perfeitamente que enquanto não chega a imortalidade é necessário ter de que viver; mas não é tarde... sim, caro, preclaro, e preclaríssimo Felisberto; eu vou estrear na minha arte... o senhor já esteou na sua... a única diferença está nas nossas divisas; o senhor tem a tesoura, e eu vou ter a batuta... o senhor entende isto suficientemente, não é assim?... eu sou rapaz de consciência... O senhor deve ser um homem de paciência... eu... não pretendo enganar a pessoa alguma... oh! Não... nunca!... porém, por ora... falemos sério... (Batendo nos bolsos) Estou a tocar matinas!... por conseqüência, caro e preclaro Felisberto em suma.... em uma palavra... em último resultado... para dizer tudo... agora?... não pode ser; amanhã... veremos, espere sempre; (À parte) é impossível... ninguém satisfaz um credor melhor do que eu!

Felisberto – Senhor! Se acha em más circunstâncias, tanto piro para a sua pessoa, quanto a mim, nada tenho com isso, nem pretendo intrometer-me em negócios alheios.

Adriano – Todavia convém que fique sabendo, que me vão imprimir uma magnífica coleção de composições musicais.

Felisberto – Faço idéia... algumas valsinhas...

Adriano – Nada... nada... coisa mais alta; vou concluir o meu ajuste com o editor, e espero em breve pagar-lhe a insignificante continha, que o senhor teve a baixeza de julgar tão elevada.

Felisberto – Porém, quando, senhor? Quando?...

Adriano – Mais cedo do que talvez espera.

Felisberto – Juro que não será mais cedo do que desejo.

Adriano – Oh! Que semelhança em nossos pensamentos, caro e preclaro

Felisberto!

Felisberto – Adeus, senhor; como não nasci para andar toda a minha vida correndo atrás do seu dinheiro, cá lhe enviarei outra vez o meu cobrador.

Adriano – Ele achará a porta da minha casa tão aberta e franca, como para o senhor o está sempre a porta do meu coração

Felisberto – Preciso é pagar;

O triste credor

Não pode esperar;

Quem compra fiado,

E quer ser honrado,

De pagar os meios

Calcula e prevê;

Preciso é pagar,

Arranje com quê.

Adriano – Preciso é pagar?...

O duro credor

Não pode esperar?...

Eu comprei fiado,

Quero ser honrado;

Mas que os meios faltam

O senhor bem vê;

Preciso é pagar?...

Não tenho com quê.

CENA VI

Adriano (só) – Preciso é pagar... boa dúvida! Que é preciso pagar, sei eu; mas como é que um homem sem dinheiro pode pagar suas dívidas? É o segredo que eles me deviam ensinar. Dinheiro... dinheiro... os diabos me levem se eu não o desejo mais do que eles: ora é boa! Tenho eu culpa de não ter nada de meu?... a fortuna é uma rapariga a quem tenho namorado toda minha vida, e a ingrata teimado sempre em dar-me de tábua; mas agora espero ficar às boas com ela. Corramos à casa do meu editor... fica perto... ali defronte; e o bolo inglês?... ah! Chamamos a impagável

Beatriz... ei-la que chega a propósito... senhor Beatriz! Senhora Beatriz!...

CENA VII

Adriano e Beatriz

Beatriz – Aqui estou, senhor; mas por quem é, não me mande procurá-lo em parte nenhuma.

Adriano – Esta noite reuno aqui os meus amigos; vá ao hotel de França e receba lá um bolo inglês, e algumas garrafas de vinho, que lhe entregarão, e durante a minha ausência disponha tudo o que é necessário para esta solenidade um pouco extraordinária em minha casa.

Beatriz – O que é isto pois?... bolo inglês e vinho?... então o senhor tirou a sorte grande no vigésimo, que comprou no outro dia?

Adriano – Sim, modelo das criadas!... (Canta)

O diabo atrás da porta

Não devia sempre estar.

Beatriz – Mas que fortuna foi essa?...

Adriano – Minha sorte vai mudar.

Sinto já por tal ventura

O juízo a me voltar;

E a prova de que estou doido

É que chego a te abraçar!

Beatriz (Sem recusar) – Senhor Adriano, não comece com essas graças.

Adriano – Não tenha receio... Oh! Certamente deve confiar em si mesma... adeus... não esqueça nada. (Vai-se)

CENA VIII

Beatriz, e depois Pantaleão



(continua...)

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