Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
As quatro ordens de camarotes se mostravam cingidas por quatro não interrompidas zonas de belas; desejosas todas de testemunhar desde o começo o combate dos dois lados teatrais, tinham vindo ornar, ainda antes da hora suas felizes tribunas; nenhuma mesmo, dentre as que ostentavam mais rigor no belo tom, se havia adrede deixado para chegar depois de começado o espetáculo, e, fazendo, como é por algumas usado, ruído com as cadeiras e banco ao entrar nos camarotes, desafiar assim as atenções do público.
No entanto, elas derramavam a luz de seus lumes sobre essas centenas de cabeças ferventes, que debaixo se agitavam; desassossegadas e ansiosas, como que com seus olhos inquiriam daquele público, até onde levaria sua exaltação, e com a ternura de suas vistas pareciam querer aquietar a hiena, que a seus pés rugia.
Finalmente, o primeiro violino, com toda a sua respeitável autoridade de general daquele imenso esquadrão harmônico, deu o sinal da marcha, batendo as três simbólicas pancadas com sua espada de crina: daí a momentos o pano se havia levantado, e a ópera começado.
Não se passou muito tempo sem que o nosso conhecido Otávio se convencesse de que sairia do teatro como havia entrado, isto é, sem ouvir a sua tão suspirada Ana Bolena.
Alguns diletantes da capital, depois talvez de haver muito parafusado, tinham descoberto um meio novo de demonstrar o seu amor pelas inspirações de Euterpe e a sua paixão pelas duas primas-donas. Eram sem mais nem menos isto: para aplaudir ou patear não é necessário ouvir; de modo que se batia com as mãos e com os pés, ao que ainda não se tinha ouvido; aplaudia-se e pateava-se, apenas alguma das pobres cantoras chegava ao meio de suas peças; não se esperava pelo fim... aplaudia-se e pateava-se o futuro. Era uma assembléia de profetas; uma assembléia que adivinhava se seria bem ou mal executado o que restava para sê-lo.
Otávio tinha, por sua má sina, ficado entre dois extremos opostos: o que estava do seu lado direito, Candianista exagerado, era um mocetão com as mais belas disposições físicas; porém, desgraçadamente gago, e tão gago, que, quando desejava soltar o seu bravíssimo, fazia tão horríveis caretas, que em redor dele ninguém podia deixar de rir-se, e, por conseqüência, era isso motivo para dar-se ruído tal, que a mesma predileta, por interesse próprio, deveria, se adivinhasse que estava de posse de tão infeliz diletante, conseguir que ele engolisse silencioso os assomos do seu entusiasmo.
Se, pela parte direita, Otávio via-se mal acompanhado, pela esquerda estava talvez em piores circunstâncias. Sentava-se aí um ultradelmastrista, homem de quarenta anos, barbudo e gordo, que fazia ressoar por todo o teatro seus bravos e aplausos, mal começava a sua querida prima-dona; razão por que o moço gago, de quem a pouco se falou, já o tinha chamado ao pé do rosto: “monstro!... alma danada!... e fera da Hircânia”! Felizmente, porém, disso não podia surdir resultado algum desagradável; pois o ultradelmastrista era completamente surdo; e tanto o era, que uma vez em que a sua predileta, devendo guardar silêncio, mas, para o devido desempenho da cena, tendo de demonstrar admiração ou não sabemos quê, abriu um pouco a boca, arregalou os olhos e dobrou-se para diante, o nosso apaixonado, que só por tais sinais conhecia quando ela cantava, pensou que, com efeito, o estava então fazendo, e exclamou todo a remexer-se: — Assim!... assim, sereia!... derrota-me esta alma petrificada!...
Em tais circunstâncias, mal podendo gozar as brilhantes inspirações do imortal Donizetti, e menos ainda apreciar as duas cantoras, por quem tão fora de propósito, e desajuizadamente, pleiteava o público do teatro de S. Pedro de Alcântara, Otávio resolveu-se a empregar o seu tempo em alguma coisa proveitosa e entendeu que o que melhor lhe convinha era admirar os triunfos da natureza em algum rosto bonito, que por aqueles camarotes deparasse.
Não gastou Otávio muito tempo em procurar objeto digno de suas atenções: em um camarote da primeira ordem, que lhe ficava um pouco para trás, viu ele um engraçado semblante que atirava seu tanto para o moreno (tipo com que, aqui para nós, simpatiza muito certo sujeito do nosso conhecimento), e que, além do mais, era animado por dois olhos vivos... belos... faiscantes... enfim, dois olhos brasileiros; porque, seja dito de passagem, tanto orgulho podem ter as espanholas de seu pequeno pezinho, e delgada cintura, como as brasileiras de seus lindos olhos pretos, que parecem haver passado para suas vistas todo o ardor da zona em que vivemos.
O tal camarote, onde estava a moça morena, era, sem pôr nem tirar, um viveiro de originais. Junto dela ostentava seu brilho, esplendor, e não sabemos que mais, uma senhora, que pelo que mostrava, e não pelo que diria, devia andar roçando pelos seus cinqüenta anos, e que, apesar de tal, endireitava-se na cadeira e tais ademanes fazia, como poucas meninas que querem casar, os fazem. Vestia um vestido de seda verde cruelmente decotado, tinha na cabeça uma touca de cassa da Índia, ornada com laços de fitas azuis etc.; segurava com a mão direita em um ramo de belos cravos, e conservava a esquerda esquecida sobre o elegante óculo, deposto no parapeito do camarote.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.