Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
Benjamim.
BENJAMIM – Afotunado bofetão dei no capitão-mor! mas que perigos para a minha inocência aqui! sem a menor duvida sou bonito rapaz, se o não fosse o meu disfarce já teria sido descoberto e a gralha ficaria sem estas penas de pavão (Mostrando os vestidos). Que será de mim amanhã?... que ladrões de olhos tem a Inês!... qual! o velho não me entrega preso! e a mãozinha de cetim... e que rosto! ora, eu não quero mais ser frade (Sentase na cama) E agora?... a coisa não está em despir-me; mas amanhã?... camisa... anágua... seios postiços... o lencinho.. . nada: vou dormir vestido. (Deita-se) Ainda tenho no nariz o cheiro suave... (Levanta-se) E que durma um pobre pecador com um cheiro assim no nariz!... é preciso distrair-me... (Canta)
— Lá em Macacu eu era sacristão,
Tocava o sino din-delin-din-din...
É tal qual!
O capitão-mor por simples bofetão
Em fuga pôs-me, como malandrim
E eis-me afinal
Fingindo moça; mas rapaz no intento
Amando Inês, e pelo pensamento
Em pecado mortal.
Velas de cera, o resto da galheta,
Espórtulas , caídas tinha eu:
É tal e qual!
Fechada a igreja e ao toque da sineta
Súcia me fecit, todo dia meu,
E eis-me afinal
Fingindo moça; mas rapaz no intento,
Amando Inês, e pelo pensamento
Em pecado mortal.
Valha-me Santo Antônio! se eu pudesse dormir (Senta na cama).
Cena XI
Benjamim e Joana que envolvida em imensa mortal/ia negra, vem a passas vagarosos.
JOANA (Dentro) – Meu dinheiro! meu dinheiro!...
BENJAMIM – Que é lá?... eu não creio em almas do outro mundo... (Em pé: Joana entra) Oh!... oi... (na cama e cobre-se).
JOANA (Canto lúgubre.) –
O catre é meu;
Nele morri:
No travesseiro
(Benjamim treme aterrado e fala durante o canto)
Ouro escondi:
BENJAMIM – Vade retro, retro, vade retro! abrenuntio! uh!... uh!... uh!... (A tremer)
JOANA – Quero o meu ouro...
Eu voltarei.
Se não m’o deres
(Empurra a cama e depois mete-se em baixo)
Te matarei
BENJAMIM – Cre... do... credo... vade retro... per signum... libera nos... per signum... (Ao empurrar Joana a cama) Santo Antônio... me valha! (Silêncio) Libera nos (Silêncio) Creio... que estou livre... (Levanta o lençol aos poucos) Oh! (Em pé e espantado) Nunca vi almas do outro mundo no cemitério de Macacu... não acreditava... mas esta é a do avarento!... se me deitei sem fazer oração... (Ajoelha-se e reza).
Cena XII
Benjamim e Brites, envolvida em mortalha branca.
BRITES (Dentro) – Ai!...
BENJAMIM (Corre para a cama a tremer) – Outra!... Misericórdia!
BRITES (Canto pungente) – O almotacé defunto...
Aqui de noite vaga...
E a vítima que apanha...
Em frio abraço esmaga!
BENJAMIM (Fingindo medo) – Ah! ah!... credo... vade retro... (Levantando a ponta do lençol) ah! esta alma padecente conheço eu... a voz não engana. (A tremer) uh!... uh!...uh!...
(Finge medo).
BRITES – Por ela seduzida
E em seus braços morrendo...
Sou alma condenada..
E vago padecendo!
(Passa a mão pelo rosto coberto de Benjamim e vai-se)
Ai!
BENJAMIM (Treme) – Uh! uh! uh! (Ao passar da mão) Ai! mi... mi... misericórdia! (Silêncio.) Foi-se... (Descobre-se) A outra alma que deveras me aterrou era portanto a velha enciumada!... divertem-se comigo: pois divirtam-se... a menina Brites saiu sem levar uma oração minha; porque (Em pé e rindo) eu bem sei porque..
Cena XIII
Benjamim e Inês, com o rosto muito apolvilhado, vestido ricamente de almotacel e com imenso véu transparente.
INÊS (Dentro.) – Minha noiva! minha noiva!
BENJAMIM (Fingindo medo) – Ai!... é a alma do almotacel!... estou perdido!... (À parte) E a mezinha! que belo, belo, belo!...
INÊS – Finado sou; mas amo-te! (Indo a Benjamim que recua)
Adivinhei-te e vim:
Por minha noiva quero-te:
Hás de ser minha, sim!
Sim! sim!... (Persegue Benjamim)
BENJAMIM (Recuando) – Oh, trance cruel! alma de sedutor, fugi-te!... onze mil virgens, salvai-me!
INÊS (Perseguindo)— Hás de ser minha, sim! (Aceleram os passos) Sim! sim!...
BENJAMIM – Alma condenada, vade retro! ai, que angústia!...
INÊS (Recuando) – Serás minha noiva!...
BENJAMIM (Recuando menos vivo) – Já me faltam as forças, ai de mim!... (À parte) quero ver só o que o demoninho da moça vai fazer comigo. (Alto) Não posso mais! (Inês toma-o pelo braço) Ai que frio de morte! (À parte) E uma febre de fogo...
INÊS – Amo-te!
BENJAMIM – Mas não ofenda o meu pudor! tomara eu que ela queira ofendê-lo). INÊS – És minha noiva.. dá-me um abraço!...
BENJAMIM – Oh... não! poupe a mísera donzela!...
INÊS – Um abraço! um abraço!...
BENJAMIM – Ai de mim! pois bem, senhor almotacel... eu lhe dou um abraço...
mas um abraço só... depois o senhor me deixa... vai-se embora... me deixa...
INÊS – Oh! vem! (Abraça-o, e separa-se e foge).
BENJAMIM – Agora me deixe... me deixe...
INÊS (À parte) – E que abraço apertado me deu! como está nervosa!.
(A Benjamim) E minha noiva, há de acompanhar-me para o cemitério...
BENJAMIM – Para o cemitério! não... isso não...
INÊS – E dormirá na minha sepultura...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.