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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Quebrar da pátria o jugo É dos heróis a glória: Às armas, brasileiros; A morte ou a vitória!

CENA IV

Plácido () – Como é sublime o grito do patriotismo! Mas esta pergunta que Luciano acaba de fazer-me envolve talvez algum sinistro mistério!...embora! tenho a minha consciência tranqüila; para longe as idéias tristes: o aniversário natalício da minha Afonsina seja todo de alegria e de ventura...e é já tempo de revelar o segredo da caixa e da sala: Leonídia! Afonsina! Então que é isso?...querem ficar lá dentro dia inteiro?

CENA V

Plácido, Leonídia e Afonsina

Leonídia – Plácido, Afonsina ainda não me deixou sossegar um instante, e quer por força que eu lhe revele o nosso segredo.

Plácido – Tens então muita vontade de saber o que encerra esta caixa e que se acha naquela sala?

Afonsina – Oh! muita, meu pai... e também para martírio já é bastante.

Plácido – Pois bem: eis aqui a chave da sala; abre a porta e olha. (Dá a chave,

Afonsina vai ver) Que vês?...

Afonsina – Um altar!...para que se armou aqui um altar?

Plácido (O mesmo) – Abre agora a caixa; aqui tens a chave.

Afonsina – Ah!

Leonídia – Que encontraste na caixa, Afonsina!...

Afonsina – Um vestido...um véu...e uma coroa de noiva...

Leonídia – E não sabes a quem devem pertencer?...

Afonsina – Minha mãe ...eu não sei...

Plácido – Afonsina, minha Afonsina: não te lembras que ao receber cheio de júbilo o pedido de tua mão, que nos fez Luciano, eu exigi que o dia do casamento fosse marcado por mim?...Pois esse dia feliz é hoje, hoje, que também é o dia dos teus anos e que será o mais belo da minha vida! Afonsina – Meu pai!...minha mãe!...

Leonídia – Estás contente, Afonsina?...Oh! mas atua alegria não excede a que enche o coração de tua mãe!...

Prudêncio (Dentro) – Então já está descoberto o segredo?... Pode-se cumprimentar a noiva com todos os ff e rr do estilo?

Plácido – Sim ...sim...Afonsina já abriu a caixa e a sala.

Prudêncio – em tal caso, avanço com o meu batalhão...avante, camaradas!

CENA VI

Os precedentes, Prudêncio, cavalheiros e senhoras

Coro –

Salve o ditoso

Dia propício

De natalício

E de himeneu

Salve, mil vezes,

Noiva adorada,

Abençoada

Por Deus no céu. (Plácido cumprimenta; as senhoras cercam Afonsina, etc)


Plácido – Obrigado, meus senhores, obrigado!

Prudêncio – Muito bem! Excelentemente; e agora queira Deus que o encanto do casamento, que põe a cabeça à roda a todas as moças, queira pelo contrário dar à minha sobrinha a única coisa que lhe falta, isto é, o juízo no seu lugar.

Leonídia – Mano Prudêncio, você esquece o respeito que deve à princesa da festa.

Prudêncio – Pois se eu tenho a cabeça completamente aturdida com os tambores que rufam lá fora, e com os parabéns e alegrias que fervem cá dentro!não sei como hei de haver! Na praça a guerra, que é o meu elemento, e em casa um casamento que e faz encher a boca d’água. Olhe: até me havia esquecido de lhe entregar uma carta, que há pouco veio trazer um criado da nossa prima, a mulher do intendente da polícia.

Leonídia – Uma carta do intendente?...Que novidade haverá?

Plácido – Aposto que adivinhou o casamento de Afonsina...

Leonídia (Lendo) – Meu Deus!...

Plácido – Leonídia muda de cor e treme!...Que será?

Prudêncio – A cartinha, pelo jeito, parece mais um convite de enterro, do que carta de parabéns: quem sabe se não é notícia de alguma bernarda?...Ora, que não se pode ter sossego neste tempo de revoluções!...tomara que eu levasse o diabo a todo o patriota que não é como eu amigo do cômodo.

Plácido – Recebeste, por certo, uma notícia desagradável...

Afonsina – Minha mãe, que há?

Leonídia – Que há de ser?...Minha prima se mostra ressentida, porque não a prevenimos do teu casamento; queixa-se de mim, e declara-se enfadada; mas vou já obrigá-la a fazer as pazes comigo; voltarei dentro em pouco; no entanto, minhas senhoras...

Prudêncio – As honras da casa ficam por minha conta: minhas senhoras, aquela porta dá caminho para o jardim; aquela, meus senhores, abre-se para uma sala de jogo: às senhoras as flores, aos homens as cartas! Vamos... (Repetem o canto e vão-se)

CENA VII

Plácido e Leonídia

Plácido – Houve há pouco uma pessoa, a quem não conseguiste enganar, Leonidia.

Leonídia – Nem tive esse pensamento, meu amigo; lê esta carta; mas lembra-te de que hoje é o dia do casamento de nossa filha: tem coragem e prudência.

Plácido (Lendo) – “Cumpro um dever de amizade e prevenindo-te de que teu marido foi denunciado como inimigo do Príncipe e da causa do Brasil; o governo toma medidas a esse respeito; o denunciante, cujo nome não te posso confiar, é um moço ingrato e perverso, que deve tudo a teu marido, que o acolheu em seu seio e tem sido o seu constante protetor. Vês bem que este aviso, que te dou, pode, se chegar ao conhecimento do governo, comprometer ao intendente. Fala-se na deportação do senhor Plácido; mas há quem trabalhe em seu favor. Adeus.” Infâmia!

Leonídia – Silêncio...

Plácido – Mas é uma horrível calúnia que me levanta!

(continua...)

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