Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
CAPITULO III - Das Capitanias e povoações de portugueses que há nesta Província
Tem esta Província, assim como vai lançada na linha Equinocial para o Sul, oito Capitanias povoadas de Portugueses, que contém cada uma em si pouco mais ou menos cinqüenta léguas de costa, e demarcam-se umas das outras por uma linha lançada Leste oeste: e assim ficam limitadas per estes termos entre o mar Oceano e a linha da repartição geral dos Reis de Portugal e Castela. As quais Capitanias El Rey Dom João, o terceiro desejoso de plantar nestas partes a Religião CHRISTÃ, ordenou em seu tempo escolhendo para o governo de cada uma delas vassalos seus de sangue e merecimento, em que cabia esta confiança, os quais edificarão suas povoações ao longo da costa nos lugares mais convenientes e acomodados que lhes pareceu para a vivenda dos moradores. Todas estão já mui povoadas de gente, e nas partes mais importantes guarnecidas de muita e mui grossa artilharia que as defende e as segura dos inimigos assim da parte do mar como da terra. Junto delas havia muitos Índios quando os Portugueses começaram de as povoar: mas porque os mesmos índios se levantavam contra eles e lhes faziam muitas traições os Governadores e Capitães da terra destruíram-nos pouco a pouco, e matarão muitos deles: outros fugirão para o sertão e assim ficou a terra desocupada de gentio ao longo das Povoações. Algumas aldeais destes Índios ficarão todavia ao redor delas, que são de paz, e amigos dos Portugueses que habitam estas Capitanias. E para que todas no presente capitulo faça menção, não farei por ora mais que referir de caminho os nomes dos primeiros Capitães que as conquistarão e tratar precisamente das povoações, sítios e portos onde residem os Portugueses, nomeando cada uma delas em especial assim como vão do Norte para o Sul, na maneira seguinte.
A primeira e mais antiga se chama Tamaracá, a qual tomou este nome de uma iIha pequena, onde sua povoação está situada. Pero Lopes de Sousa foi o primeiro que a conquistou e livrou dos Franceses em cujo poder estava quando a foi povoar: esta ilha em que os moradores habitam divide da terra firme um braço de mar que a rodeia, onde tão bem se ajuntam alguns rios que vem do sertão. E assim ficam duas barras lançadas cada uma para sua banda, e a ilha em meio: per uma das quais entram navios grossos e de toda a sorte, e vão ancorar junto da povoação que está daí meia légua, pouco mais ou menos. Tão bem pela outra que fica da banda do Norte se servem algumas embarcações pequenas, a qual por causa de ser baixa não sofre outras maiores. Desta ilha para o Norte tem esta Capitania terras mui largas e viçosas, nas quais hoje em dia estiveram feitas grossas fazendas, e os moradores foram em muito mais crescimento, e florescerão tanto em prosperidade como em cada uma das outras si o mesmo Capitão Pero Lopes residira nela mais alguns anos e não a desamparará no tempo que a começou de povoar.
A segunda Capitania que adiante se segue, se chama Paranãobuco: a qual conquistou Duarte Coelho, e edificou sua principal povoação em um alto á vista do mar, que está cinco léguas desta ilha de Tãoaracá em altura de oito grãos: chamase Olinda, é uma das mais nobres e populosas vilas que ha nestas partes. Cinco léguas pela terra dentro está outra povoação chamada Igaroçú, que por outro nome se diz a Vila dos Cosmos. E além dos moradores que habitam estas Vilas ha outros muitos que pelos engenhos e fazendas estão espalhados, assim nesta como nas outras Capitanias de que a terra comarcã toda está povoada. Esta é uma das melhores terras, e que mais tem realçado os moradores que todas as outras Capitanias desta Província os quais foram sempre mui favorecidos e ajudados dos Índios da terra, de que alcançarão muitos infinitos escravos com que granjeiam suas fazendas. E a causa principal de ela ir sempre tanto avante no crescimento da gente foi por residir continuamente nela o mesmo Capitão que a conquistou, e ser mais freqüentada de navios desde Reino por estar mais perto dele que cada uma das outras que adiante se seguem.
(continua...)
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Oficina de António Gonçalves, 1576. Disponível em domínio público em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17411. Acesso em: 26 nov. 2025.