Por Machado de Assis (1878)
Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugênia nem a sua. D. Venância tinha assim uma vantagem mais.
— Agora o que é preciso é casar o Emílio, dizia ela.
— Por quê? perguntava Emílio.
— Porque é preciso. Meteu-se-me isso na cabeça.
Emílio não ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a lá ir o menos que podia. Com os anos, D. Venância ia ficando de uma ternura mais difícil de suportar, pensava ele. Para compensar a ausência de Emílio, tinha ela o zelo e a companhia de Eugênia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.
Um dia adoeceu deveras a sra. D. Venância; esteve um mês de cama, durante o qual os dois sobrinhos casados não lhe saíram da cabeceira. Emílio ia vê-la, mas só fez quarto a última noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia vê-la, e saía de lá muito contra a
vontade dela.
— Onde está o Emílio? perguntava de quando em quando.
— Já vem, diziam-lhe os outros.
O remédio que Emílio lhe dava era bebido sem hesitação. Sorria até.
— Pobre Emílio! vais perder tua tia.
— Não diga isso. Ainda vamos dançar uma valsa.
— No outro mundo, pode ser.
A moléstia agravou-se; os médicos desenganaram a família. Mas antes do delírio, sua última palavra foi ainda uma lembrança a Emílio; e quem a ouviu foi Marcos que cabeceava de sono. Se quase não dormia!
Emílio não estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas disposições testamentárias. Não era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em poder de um velho amigo de seu marido.
D. Venância nomeou Emílio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um razoável legado. Marcos contava com uma divisão, em partes iguais, pelos três. Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmão para merecer tamanha distinção? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venância era a imagem da fortuna.
Baixar texto completo (.txt)