Por Visconde de Taunay (1872)
—E eu? replicou com energia Cirino, pensa então que sou feliz?... Olhe bem uma coisa Inocência: Digo-lhe isto diante de Deus: ou hei de casar com você... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim... foi o meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquele homem, que odeio, que quisera matar... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na corte do Rio de Janeiro! Eu já lhe disse... culpa não tive...
—Não há nada que nos possa salvar, atalhou a moça. —Nada?... Talvez...
Soou nesse momento, e repentinamente, do lado do laranjal um assobio prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada, passando rente à cabeça de Cirino.
Deu Inocência abafado grito de terror e fechou rapidamente a janela, ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.
Não viu ninguém.
Por toda a parte, o ruído misterioso e peculiar a uma noite calma de verão.
Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus passos.
Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o terreiro da frente.
Quando lá chegou, parou atônito.
O mesmo assobio, prolongado e finíssimo, desta feita talvez mais estridente, feriu-lhe os ouvidos.
CAPÍTULO XIX
CÁLCULOS E ESPERANÇAS
Apesar, porém, de jovem, apesar da violência do amor que a prendia a Julião, sabia ela conter 0é movimentos do coração e desconfiar de si mesma.
(Walter Scott, Peveril do Pico)
Lisa. — Contento que tenhas bastante resolução...Lucinda.— Que queres que eu faça contra autoridade de um pai? Se ele for inexorável aos meus pedidos?...
(Molière, 0 Amor Medico).
Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quais não tinham limites nem vizinhos dali a muitas léguas, aumentou Meyer a sua interessante coleção com extraordinária variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.
Tal era a alegria de que se possuíra por esse fausto motivo, que a cada momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si 80 convencer o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.
—Senhor Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brasil estive ainda tão bem como em sua casa.
—Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.
—Deveras!... Só o que sinto é que sua filha não nos aparecesse mais... Sinto muito, na verdade...
Sorriu-se Pereira com riso amarelo e replicou, apertando os punhos de raiva:
—Mochu sabe, isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas para...
— Para quê? perguntou Meyer com pausa.
— Para prosearem com qualquer um...
—Que é prosearem?
—É conversar, dar de língua, explicou Cirino.
— Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquela indicação filológica que foi imediatamente enriquecer o seu caderno de notas. Prosear e conversar. Muito bem!... Pois é pena, senhor Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!
—Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei de toda a vida andar com olho em ti, murmurava o mineiro.
—E pena, confirmava Meyer duas e três vezes ... é pena...
Por certo não era esta a linguagem mais própria para desvanecer as prevenções e receios de Pereira; ao invés, mais e mais recrescia a sua vigilância sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que carecia para tornar a ver o mal guardado tesouro.
Não foi todavia sem custo a nova conferência.
Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira entrevista, que, por alguns dias, mal saia do quarto.
Escrever-lhe Cirino, era de todo inútil, por isso que ela nunca aprendera a ler; e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar às mãos qualquer papel ou recado?
Sobravam, portanto, razões para que o jovem se ralasse de impaciência e quase desesperasse da sorte.
Passava as noites em claro, metido no laranjal e procurando uma solução a tanta dificuldade; atordoavam-no ainda aqueles dois assobios que não podia explicar e sobretudo aquela pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.
Numa dessas noites de ansiedade, viu afinal reabrir-se a janela de Inocência
A pobrezinha, abrasada também de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração do sertão um pouco de tranqüilidade para sua alma não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ai não andava rondando aquele que no seio lhe inoculara tamanho desassossego, ímpetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de resistência.
Cirino, rápido como uma seta, rápido como aquela pedra arrojada tão vigorosamente, achou-se ao pé da janela e cobriu de beijos as mãos da sua amada.
—O grito? balbuciou ela. Dois gritos... e a pedrada... Que foi?
—Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cirino; foi ver no laranjal...
era um macauã O que pareceu pedrada era um noitibó que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.
—Deveras? perguntou ela incrédula.
—Deveras. A principio tomei também um grande susto. Depois, verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para mim, a única que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.