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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Entretanto tinha o inimigo vindo acampar no nosso ultimo pouso. Veio incomodar-nos uma partida de seus atiradores; também desvaneceu-se logo diante de duas companhias nossas. Então, como nos achássemos incapazes de pensar em persegui-los, puseram-se os paraguaios a esquadrinhar, com todo o vagar, todos os cantos do nosso último acampamento. Como percebessem a existência de montículos recentemente revolvidos, abriram as covas, delas exumando os cadáveres para os despojar dos miseráveis andrajos, que depois, violentamente, entre si disputavam. Houve mesmo quem se desse pressa em os vestir. Permitiam-nos os óculos de alcance perceber claramente tão revoltante espetáculo, que nos punha estupefatos como se inacreditável miragem constituísse. Aí uma de nossas granadas atiradas pela peça de Napoleão Freire que firmara a pontaria quando eles estavam em grande número, no meio das sepulturas — estourou-lhes exatamente sobre a cabeça, matando alguns. A outros atirou nas covas, dispersou os restantes, e libertou aquele local de sua presença. Tão justa represália velo trazer alguma animação ao acampamento até o pôr do Sol deste triste dia.

À noite mandou chamar-nos o coronel Camisão. Já com os comandantes dos corpos tivera várias conferências. Parecia profundamente impressionado. Falou, contudo, sem acrimônia da fatalidade que acompanhava os movimentos da coluna e várias vezes repetiu o que sinceramente lhe ia n'alma: "para um chefe era a morte preferível ao espetáculo que desde algum tempo tinha sob os olhos". Queixou-se, em termos comedidos, sem aquele tom acerbo de outrora, da escolha do caminho que o haviam obrigado a seguir. —"E Nioac?, exclamava. E os nossos enfermos? Ah! quanto quisera eu estar no lugar de um destes que acabaram!" Bem percebíamos que ainda tinha qualquer coisa a nos dizer; retiramo-nos, contudo, sem que conosco se abrisse.

Às dez da noite vieram novamente chamar-nos, de sua parte. Deixamos o couro que com o tenente-coronel Juvêncio compartíamos, e ambos fomos com ele ter. Já estava o comandante em conferência com o major Borges e o capitão Lago excogitando os meios de transportar os novos doentes. Discuta-se a possibilidade de colocá-los em metades de couros presos pelas beiras, à feição de cangalhas, que as mulas carregadoras do cartuchame deviam levar. Era a empresa inexeqüível, quando mais não fosse, pelo acréscimo de carga que assim recairia sobre os soldados, já exaustos. Defendeu ele esta idéia com insistência e contra a opinião de todos nós. Ainda desta vez nos separamos sem lhe conhecer o íntimo pensar.

Afinal, era cerca de meia-noite, e de novo convocou os comandantes e os médicos. Acabara de tomar a suprema resolução com que, durante os últimos dias, se embatera e cuja idéia, como recurso extremo, lhe acudira ao espírito como ao de todos, sem que, contudo, houvesse alguém ainda ousado exprimi-la.

Depois de, em concisas palavras, haver exposto o estado das coisas, e a urgência da avançada rápida, sem a qual estávamos todos perdidos e a impossibilidade, agora perfeitamente averiguada e geralmente reconhecida, de levarmos mais longe os enfermos, declarou aos comandantes que, sob a própria responsabilidade, e em obediência a rigorosos ditames que lhe impunham este dever, iam os coléricos, exceto os convalescentes, ser abandonados nesse mesmo pouso! Não houve uma só voz que contra esta decisão se levantasse. A si avocava o coronel Camisão toda a responsabilidade. Longo silêncio acolheu a ordem, sancionando-a.

Convidou, contudo, o Coronel aos médicos que lhe apresentassem objeções, acaso inspiradas pelo dever profissional.

Depois de alguma reflexão, disse o Dr. Gesteira que não ousava aprová-la nem a desaprovar, só lhe competia, então, o silêncio, pois se de um lado tinha de atender ao seu juramento profissional, por outro achava-se este, no caso atual, em contradição absoluta com a sua consciência de funcionário público adido à expedição.

Como desvairado, ordenou, então, o Coronel que, à luz de fachos imediatamente na mata vizinha se abrisse uma clareira, para onde seriam os coléricos transportados e abandonados. Ordem terrível de dar, terrível de executar; mas que, no entanto (forçoso é confessá-lo), não provocou um único reparo, um único dissentimento. Puseram os soldados, logo, mãos à obra como se obedecessem a uma ordem comezinha; e — tão facilmente cede o senso moral ante a pressão da necessidade — colocaram no bosque, com a espontaneidade do egoísmo todos estes inocentes condenados, os desventurados coléricos, muitos deles companheiros de longo tempo, alguns até amigos provados por comuns padecimentos.

E, coisa que a muitos parecerá não menos espantoso os próprios coléricos, desde os primeiros momentos, e sem que fosse necessário recorrer a subterfúgios, resignadamente aceitaram este último golpe da fatalidade.

(continua...)

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