Por Franklin Távora (1879)
Albuquerque tirou de uma gaveta algumas cédulas que pôs sobre a mesa do lado de Bezerra. Este não acusou ninguém. Longe de negar o que lhe fora imputado, pediu perdão a Albuquerque, que não lhe respondeu senão com desprezo. Então, Bezerra, passados alguns momentos, fez a Albuquerque um cumprimento e saiu. Grande preocupação o tomava. À noite, não apareceu para o chá. Virgínia, que tudo ignorava, estranhando a ausência do pai, mostrou-se muito sobressaltada. Pela manhã bem cedo, mandou saber se lhe acontecera algum desastre. Maurícia estava, de certo modo, aflita. Bezerra não foi encontrado em parte nenhuma. Seus baús tinham desaparecido. Dias depois, soube-se de tudo pelo menor. Ele fugira, levando em sua companhia a mestiça.
CAPÍTULO XV
Sinhazinha viera do Recife com um irmão que voltou logo depois de a deixar na casa-grande. Não podendo assistir ao casamento de Virgínia, sua particular amiga, resolvera, tanto que lhe foi possível, visitá-la, passar com ela oito dias, segundo dissera a menina por ocasião de entrar em casa de Maurícia. Este fim ostensivo da sua vinda era acompanhado de outro fim oculto que particularmente lhe dizia respeito, e que a continuação desta narrativa há de por patente aos olhos do leitor.
Com a ausência de Bezerra, vieram Paulo e Virgínia fazer companhia a Maurícia. Foi esta uma das melhores fases da sua vida e ela não o ocultava. Paulo saía para o serviço, e as três senhoras entremeavam a sua costura com toques e cantos. O piano abriu-se de novo, sacudiu-se o pó das músicas. Às vezes era a leitura de um livro importante, já conhecido de Maurícia e Virgínia, mas não da sua hóspeda que as reunia no gabinete, durante a primeira parte do dia. Ordinariamente era Virgínia a encarregada de proceder à leitura, encargo que ela preenchia com a habilidade de graça que lhe davam lugar tão distinto no seio da família. Depois de jantar, saíam a passeio pelo cercado e não paravam senão na casa-grande, onde Paulo se lhes fazia juntar, e com elas se demorava até tomarem chá.
Fazia já doze dias que Bezerra se ausentara, quando Sinhazinha entendeu que era chegada a ocasião de dizer a Maurícia o que especialmente a tinha levado ao engenho. Para realizar este pensamento, aproveitou-se de uma manhã em que Virgínia fora à casa-grande a chamado de D. Carolina a fim de lhe cortar uns vestidos. Sinhazinha amanhecera nesse dia mais pesarosa do que ordinariamente se mostrava todas as manhãs. Chegou-se para junto de Maurícia, que nesse momento tinha um papel de música na mão e se encaminhava para o piano.
— Faz tanto tempo que estou aqui — disse ela — e ainda a senhora não se lembrou de pedir notícias do Dr. Ângelo, que era tão amigo desta casa.
Ouvindo estas palavras que lhe desceram improvisas no coração, Maurícia sobresteve inopinadamente. O nome do bacharel soava sempre aos seus ouvidos como uma nota de harmonia misteriosa e terrível que primeiro lhe penetrava na alma do que nos sentidos.
— É verdade, Sinhazinha - respondeu. Que novas me dá dele?
E foi sentar-se ao lado da amiga no sofá, atraída pelo assunto que lhe oferecia indizível encanto.
Sinhazinha que, como todos, ignorava as relações que Ângelo e Maurícia tinham por alguns dias sustentado com a maior das lutas para esta e o maior dos prazeres para aquele, não guardou a menor reserva nas suas revelações. Era muito jovem ainda e tinha a maior confiança na mãe de Virgínia à qual se sentia presa por laços de irresistível simpatia e admiração.
Contou que Ângelo estava morando com a mãe e os irmãos em casa da tia; que nos primeiros tempos depois da chegada andara triste e desalentado; que cobrara tédio, à vida, segundo lhe parecia a ela, e emagrecera e se tornara pensativo e reservado; que raras vezes surdia pela casa de Martins.
— Nunca se lhe ofereceu a você ocasião de lhe falar, Sinhazinha? — perguntou Maurícia.
— Isto foi nos primeiros tempos depois que chegou a povoação como já disse. Uma tarde, estava eu no portão sem mamãe, quando vi o Dr. Ângelo apontar na estrada. Quando eu cuidava que ele ia entrar no sítio do Sr. Martins, encaminhou-se para o ponto, onde me vira. Falou-me, perguntou-me por mamãe e seguiu logo depois. Estava melancólico. O luto, que trazia pela morte do pai, contrastava com a sua palidez. Na tarde seguinte, ele passou outra vez à mesma hora e falou comigo. Quis entrar, mas depois desculpou-se dizendo que se equivocara, e tomou para a casa de D. Eugênia. À noite, eu e mamãe nos reunimos aí. O Dr. Ângelo ainda lá estava. Seriam onze horas quando saímos. Não pude dormir. A imagem do Dr. Ângelo ocupava todo o meu entendimento. Eu notara da parte dele certa inclinação para mim que se casava com a que eu sentia por ele desde que comecei a conhecê-lo.
Maurícia não pode suster uma interrogação, metade exprobração, metade surpresa que lhe viera à alma.
— Que está dizendo, sinhazinha?!
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.