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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Não é nada!... eu cá é que sinto, minha tia. Deus a livre de sofrer o que eu sofro... eu não posso durar muitos dias...

— Ora valha-te a Virgem Maria!... que cisma é essa que te entrou pela cabeça, minha filha!... ora vejam, quem fala aqui em morrer! ainda se fosse eu, que já estou com um pé na sepultura... mas tu, menina, criança do outro dia, tão fresquinha e corada como uma maçã madura...

— Que engano!... quer minha tia creia, quer não creia, eu não ando nada boa... mande chamar o padre...

— Nesse caso é melhor chamar o cirurgião primeiro, não achas?...

— Para quê?... remédio para isso só a terra, minha tia. Mande, mande chamar o padre...

— Hoje?

— Agora mesmo, se for possível. Quem sabe se amanhecerei?...

— Arre lá, menina!... não tirarás da cabeça semelhante idéia?...

— Seja cisma embora, minha tia, eu quero me confessar.

— Que mania, meu Deus!... mas enfim vá feito; como isto afinal de contas nenhum mal te pode fazer, vou fazer-te a vontade. Estou vendo que o padre vai ter mais trabalho em desencasquetar-te da cabeça esta mania de morrer, do que mesmo em ouvir-te os pecados... estás tão nervosa... Valha-me S. Francisco das Chagas...

— Nervosa não, minha tia, estou mesmo muito mal...

— Está bom!... não teimo mais contigo; vou pedir ao vizinho para chamar o pobre vigário... mas, meu Deus!... se ele não estiver em casa!... não há outro padre na terra.

CAPÍTULO XXI

Na tarde desse mesmo dia, na sala de visita de uma casa de sobrado das melhores da antiga Vila de Tamanduá, achava-se uma reunião de várias pessoas gradas e notáveis do lugar. Eram visitas que vinham cumprimentar a um jovem sacerdote, recentemente ordenado, que nesse dia havia chegado ao seu país natal depois de uma larga ausência.

Era um padre alto, de tez clara, de fisionomia a um tempo grave e serena, de um tipo nobre e regular. Todavia na fronte larga e pálida via-se como a sombra de um sofrimento intimo, e uma ligeira nuvem melancólica toldava um pouco a limpidez de seus grandes olhos azuis. Estes indícios reunidos a duas rugas prematuras, uma vertical e outra horizontal, que se cortavam formando uma cruz bem no meio da testa, pareciam revelar, que dentro daquele crânio se haviam agitado lutas e tormentas apenas serenadas.

Estava em hábitos talvez de sua profissão, apertados com um cinto à maneira dos missionários de S. Vicente de Paulo; tinha também como eles no alto da cabeça uma tonsura maior do que a dos outros padres, e trazia pendente sobre o peito um grande crucifixo de metal. Faltavam-lhe apenas mais alguns meses de noviciado para ser definitivamente admitido no seio da Congregação.

Era o padre Eugênio, filho do capitão Antunes, que acabava de chegar a Tamanduá investido de todas as ordens e precedido de uma grande reputação de sabedoria e santidade. Era isto um acontecimento, que punha em grande expectação e alvoroço a vila inteira.

— É chegado o padre Eugênio — ecoava de boca em boca, e cada um se apressava em ir ver e saudar o novo padre, que, instalado na casa que seu pai possuía na vila, levou o resto do dia a receber as visitas e cumprimentos dos numerosos amigos da família e de quase toda a população do lugar.

Apesar de toda a cortesia e afabilidade com que acolhia os visitantes, via-se que o padre estava entregue a uma penosa preocupação, que mal podia dissimular. Havia ele chegado na véspera à fazenda de seu pai, onde pernoitara. Apesar de sete anos de ausência, e de uma vida passada entre místicas contemplações e práticas de austero ascetismo, a vista daqueles sítios acordou-lhe na alma todas as lembranças de sua infância, frescas e vivazes, como se foram da véspera, à semelhança de um bando de pintassilgos, que desperta chilrando debaixo do folhado laranjal aos primeiros raios da manhã.

Oh! essas emoções suaves da primeira quadra da vida têm um filtro sutil, um aroma inextinguível, que se entranha no coração para nunca mais desapegar-se dele. Volvem-se anos e anos, e quando já na meta extrema da existência a fronte encanecida nos pende para a sepultura, por entre os gelos da velhice a flor virginal do primeiro amor exala um doce perfume, e perto do túmulo nos embala ainda com as lembranças do berço.

Eugênio, pois, que via ainda na última, ourela do horizonte uns restos do clarão róseo da aurora da existência, devia então sentir em toda a sua força e suavidade a magia dessas recordações.

(continua...)

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