Por Bernardo Guimarães (1872)
Debruçada sobre o tanque, cujas águas borbulhando-lhe em torno beijavam amorosas as duas colunas de alabastro nelas mergulhadas, dir-se- ia Vênus no momento em que nascia da espuma do mar, ou branca açucena que ali nascera à beira da fonte, e pendia o cálix a mirar-se em seu cristalino regaço. Nunca Elias, nos dias em que ela era rica e feliz, no meio das festas e do esplendor do luxo, nunca a vira tão linda, tão fascinadora assim. O coração batia-lhe com tal violência, que tinha medo que fosse ouvido e traísse a sua presença ali. Entretanto quase se envergonhava de estar ali espreitando às escondidas e profanando com suas vistas o inocente e descuidoso desalinho daquela casta criatura. Queria fugir, mas seus pés pregados à terra, e seus olhos não podiam desviar-se daquela Angélica figura que os fascinava, e se Lúcia nunca dali saísse, Elias também ali ficaria para sempre, ou então de um salto transpondo a cerca, iria se arrojar aos pés dela, se do lado de cima da bica não estivesse em pé uma escrava que com ela conversava. Era a boa e fiel Joana, que acabava de colher nos canteiros destroçados daquela inculta horta um punhado de ervas para o parco jantar da família, enquanto a senhora lavava roupa.
Não é só a morte que nivela as condições; o destino às vezes a antecipa, e se compraz em curvar a cabeça dos ricos e orgulhosos até beijarem o pó da terra, e coloca escravos ao nível do senhor. Mas o destino é cego, e o raio que fulmina sobre a cabeça do culpado também às vezes debruça sobre o lodo o lírio puro da inocência e da virtude.
Quando Elias as avistou, a conversa das duas estava tocando a seu fim.
-tem paciência, sinhazinha, dizia a escrava. Nossa Senhora do Patrocínio há de ter piedade de nós. Querendo Deus, tudo se há de arranjar e nós ainda havemos de voltar para nossa roça. Mas enquanto isso se não arranja, aqui está sua negra velha, que ainda pode trabalhar para Vmcês. Todos. . .
-mas tu hoje és forra, Joana; deves ir cuidar na tua vida. . .
- Que me importa lá isso? . . . por acaso eu pedi alguma alforria? entreguem-me cá a minha carta, e hão de ver como eu a faço em pedacinhos e atiro tudo no fogo.
- Isso não, Joana! . . . tal não farás. Fui eu que pedi a meu pai te forrasse, e sabes por quê? . . .
- Eu sei lá! . . . de certo foi porque sinhazinha não me quer mais; quer ficar livre de mim. . .
- pelo contrário, Joana, foi para não ficar sem ti. Se não fosses forra, irias cair nas mãos dos credores de meu pai, como todos os outros escravos da casa.
- Credo! Nossa Senhora me guarde! . . . então, não; quero a minha carta; quero ser livre para poder ser escrava de minha sinhazinha. Esses diabos desses homens! Deus me perdoe! . . . parece que não são batizados. Meu senhor já valeu a eles todos, e agora não tem um só que tenha piedade dele. Má peste que os persiga! . . . Agora vou cuidar na janta. . . sinhazinha fica aí?
- Fico, Joana; podes ir; vou acabar de enxaguar esta roupa.
- Deixa isso, sinhazinha. Eu logo venho acabar de lavar e estender toda essa roupa; não esteja se matando sem precisão.
- Não gosto de estar à toa, e bem sabes que não é a primeira vez que lavo roupa, e também isto me serve de distração.
- Não tem medo de ficar aqui sozinha?
-medo de quê? . . . quem pode vir me fazer mal aqui neste ermo?
- Está bem, disse Joana retirando-se. Assim mesmo eu vou chamar sinhá Júlia para ficar com Vmcê.
- Não é preciso, Joana. . . Júlia está ocupada com uma costura que é preciso acabar hoje mesmo. Eu também lá vou neste instante.
Nenhum favor melhor podia o céu fazer a Elias naquele instante do que deixar Lúcia ali sozinha; e dir-se- ia que Lúcia adivinhava, e queria ficar só, como se tivesse ajustado uma entrevista. A emoção de Elias subiu de ponto. Não fosse uma excessiva ousadia, uma profanação, teria de um salto transposto a cerca e iria cair a seus pés. . .
Logo que Joana desapareceu por entre os arbustos do quintal, Lúcia deixou a fonte, e sentou-se sobre a grama do coradouro, pousou a face em uma das mãos, e pôs-se a cismar. Era um modelo perfeito para a estátua de uma náiade. Depois tirou do seio uma carta, e lançou sobre ela um olhar. Seus olhos arrasavam-se de lágrimas.
- Que crueldade, meu Deus, exclamou ela, deixar-me assim arrebatadamente, e abandonar-me tão sozinha e desamparada neste ermo. . . isto é de quem ama deveras? . . . e além de tudo, a pobreza! . . . Meu Deus! . . . não sei o que será de mim. . . hei de morrer de tristeza! . . . se me dissesse ao menos onde foi! . . . eu dera tudo para saber onde ele está! . . .
Ouvindo estas palavras, Elias não pôde mais conter-se; pulou a cerca, e em dois saltos estava ao pé de Lúcia.
- Eis-me aqui, Lúcia! . . . eis-me aqui a teus pés! exclamou o mancebo.
Lúcia assustada deu um grito, e ergueu-se rapidamente. Num relance desatou da cintura o lenço com que suspendia as saias, e com ele compôs os ombros e os seios que trazia quase nus. Lembrava Vênus, quando do traje de ninfa caçadora, em que estava disfarçada, transfigurou-se subitamente aos olhos de Enéias em verdadeira deusa, deixando tombar-lhe aos pés as vestes roçagantes.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.