Por Bernardo Guimarães (1869)
O sol já estava prestes a esconder-se atrás das serras do ocidente, quando Itajiba, acompanhado de grande número de pajés e dos principais da tribo, passou pela frente dos guerreiros entre ruidosos e entusiásticos clamores, e dirigiu-se ao estrado subiu a ele deixando embaixo as pessoas de sua comitiva. Então os guerreiros executaram sobre as alvas areias da praia danças selváticas imitando combates e cenas de guerra alusivas aos feitos gloriosos de Itajiba na campanha que tão brilhantemente vinha de terminar.
Por fim Andiara, o mais antigo e venerável dos pajés, tomando um rico vaso de concha de tartaruga orlado de ouro, encheu da água do rio, e depois de espargir algumas gotas aos quatro ventos cardeais murmurando palavras sagradas, entregou o vaso a Itajiba, que bebeu o resto da água nele contida. Era esta a cerimônia usada para a adoção de um estrangeiro na tribo dos Chavantes. Desde aquele momento Itajiba deixava de ser um estrangeiro para aqueles selvagens; era um irmão de mais, que para sempre associava-se ao destino dessa nação, quer na fortuna, quer na desgraça. Finda a cerimônia, Oriçanga subiu por um dos lados do estrado e Guaraciaba por outro à presença de Itajiba; aquele entregou-lhe nas mãos um rico tacape, guarnecido de primorosos ornatos, emblema do valor; ao mesmo tempo que esta, resplandecente de amor e de beleza, lhe colocara na fronte uma coroa entretecida por suas próprias mãos de palmas e flores silvestres, símbolo da vitória.
Uma grita imensa ecoando pelas ribanceiras reboou largo tempo pelas selvas acordando as feras em seus antros e os sucuris nos abismos das águas, aclamou aquela brilhante solenidade. A noite descendo sobre aquela grandiosa cena veio ainda realçá-la dando-lhe um aspecto quase fantástico de selvática majestade. Ao descer das trevas as filas dos guerreiros postadas ao longo da praia empunharam brandões acesos, cujos clarões refletindo-se no veio trêmulo das águas repetiam a cena de um modo deslumbrante, e desenhavam os selvagens como falanges de espectros negros a brandir espadas de fogo. Enfim por entre um imenso e ruidoso préstito, ao som de estrondosas aclamações, que incessantemente o vitoriavam, Itajiba, acompanhado pelo velho cacique e sua filha, recolheu-se à taba hospitaleira de Oriçanga.
CAPÍTULO IV
A VOLTA DE INIMÁ
Ao tempo que este espetáculo solene e grandioso se dava diante das tabas dos Chavantes ao vivo clarão dos archotes, e ao som atroador de mil aclamações, a um quarto de légua pelo rio abaixo uma canoa tripulada por cinco guerreiros vinha silenciosa e furtivamente singrando rio acima rente com a barranca do mesmo lado das tabas. Pela maneira acautelada e misteriosa com que vinha se aproximando vagarosamente, procurando encostar-se o mais possível à ribanceira e ocultando-se entre os ramos que se debruçavam sobre a torrente, dir-se-ia que eram espiões inimigos, que a favor das trevas da noite procuravam penetrar no campo dos Chavantes. Era Inimá que voltava com os únicos restos de sua malfadada expedição!
Inimá, chefe novel e inexperiente, posto que cheio de bravura, tinha no começo da campanha desempenhado a sua missão como herói praticando prodígios de audácia e de valor; mas sua temeridade e inexperiência por fim o perderam. Correndo ao encalce dos Caiapós, ele encontrou suas hordas, caiu sobre elas como o raio, desbaratou-as em diversos recontros, levou-as de vencida diante de si, e dispersou-as fazendo grande número de prisioneiros, que imolava mesmo no campo do combate, saqueando e queimando suas arranchações, e massacrando mulheres, velhos e crianças.
Nessas terríveis pelejas, que nada tinham de semelhante aos combates regulares dados entre tropas disciplinadas, e que eram antes lutas disputadas corpo a corpo, ou uma multidão de duelos travados a um tempo entre uma chusma de combatentes, Inimá distinguiu-se sempre pelas mais brilhantes proezas e feitos de heroísmo, e derribou por suas próprias mãos bom número de valentes e terríveis lidadores.
Entre estes figurava o famoso e feroz cacique Jaguaruçu, prodígio de corpulência, robustez e valentia. Sua figura colossal surgia no meio dos mais combatentes como o corpulento jequitibá por cima da coma ondulante das florestas, ou como à margem de um lago o jaburu se eleva entre as outras aves. Seu rosto medonho guarnecido de grossos botoques que lhe dilatavam
horrivelmente o lábio inferior e as orelhas, todo o seu corpo listrado de negro e vermelho com as tintas do jenipá e do urucu, davam-lhe uma aparência ainda mais hedionda que a do tigre ou da pantera, e o assemelhavam a um desses dragões ou quimeras que só existem na imaginação dos poetas, ou sobre a tela dos pintores. Seu enorme tacape todo eriçado de dentes, e que sem grande esforço qualquer homem não poderia sopesar, quando caía sobre os inimigos, era como a peroba, que desabou aos golpes do machado levando de rojo e esmagando tudo quanto encontra. Seu arco o mais vigoroso guerreiro a custo poderia encurvá-lo, e a flecha dele despedida era como o raio, escarchava troncos, e mandava longe a destruição e a morte.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.