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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Jupira contemplou o peixe por alguns instantes com admiração, depois olhou para o índio, fez-lhe um ligeiro gesto de agradecimento, e continuou no seu serviço. O índio deitou-se de ventre sobre a areia a alguns passos de distância e fitava os olhos ardentes sobre a gentil menina. Parecia truculenta jibóia procurando fascinar com os olhos a tímida pomba, que pretende devorar.

– Então ingrata columi, – disse o índio abanando a cabeça, – de todo não queres saber do infeliz Baguari?...

Por única resposta Jupira levantou-se, e levando o seu trabalho foi sentar-se por detrás de sua mãe, como para esconder-se do índio e furtar-se a seus olhares devoradores.

Baguari pôs-se em pé de um salto, arrancou do íntimo peito um gemido rouco, antes um rugido e disse:

– Jupira, olha que o canguçu quando vê a veadinha tenra pelos bosques, nunca mais lhe perde o rasto, e não descansa enquanto não lhe lança as garras. E eu sou o canguçu e tenho fome de ti!

– Baguari! – exclamou a mãe assustada por sua filha, que cada vez mais se chegava a ela; – a menina ainda é muito nova... olha agora é que os peitos lhe vêm apontando. Para que apanhar a flor que ainda não abriu, colher os favos do jataí que ainda não tem mel?.. Deixa passar mais algumas luas; quando o ipê der flores outra vez, Jupira te abraçará.

– Não fale assim, minha mãe! – murmurou a menina ao ouvido de sua mãe. – Assim pudesse o ipê nunca mais dar flores!

Baguari afastou-se silencioso, e chegando ao meio do areal da praia, bateu palmas e soltou um assovio estridente como o da anta. A horda que se achava dispersa pela margem, reunia-se em torno dele. Baguari mostroulhes o peixe, e os selvagens soltando alaridos de alegria, em um instante o fizeram em postas levando cada um o seu pedaço para se banquetearem aquela tarde.

Jupira disse a sua mãe:

– Não viu aquele peixe tão grande, que Baguari matou?

– Pois não vi, minha filha?.. foi para ti que ele o pescou.

– Não quero do seu peixe, nem de nada que passar por suas mãos. Tenho mais medo dele do que daquele jaú, se o encontrasse no fundo da água.

Daí a pouco a tarde trazia sombra e fresquidão por aquelas magníficas solidões e os índios, tripudiando e banqueteando-se, com seus alegres alaridos faziam saltarem espantadas as feras de seus covis, e os passarinhos deixarem em sobressalto os seus abrigos de verdura.

Somente Baguari, – que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de prazer nos braços da gentil Jupira, – retirado no mais recôndito antro da floresta, arrancava rugidos de amargura de despeito.

Capítulo II

Em seu lado sudoeste a província de Minas termina em um ângulo agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as províncias de Goiás e de S. Paulo, das quais a separam os dois grandes rios Parnaíba e Rio Grande, que se vão reunir na ponta do ângulo. Nessas regiões, sobre as quais a natureza parece ter entornado a flux todo o cofre de seus favores, trinta léguas pouco mais ou menos acima da confluência dos dois rios, está situado o Seminário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, fundado há cerca de cinqüenta anos pelos padres da Congregação da Missão de S. Vicente de Paula em uma vasta e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento fazendeiro daquelas paragens.

Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magníficas pastagens, por entre as quais um caudaloso ribeirão vai sereno rolando suas águas cor de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e verdenegro arvoredo, pelo que decerto lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa as mais formosas e risonhas campinas entrecortadas de viçosos capões e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou seis léguas do seminário ocultando seu curso entre gigantescas e profundas matas.

Pelas imediações do seminário para logo se foram agregando alguns moradores, e em torno dele construindo-se algumas casinhas dispersas pela campina, de sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.

Por aqueles sertões vagavam por esse tempo alguns restos de tribos selvagens vindas de Goiás e Mato Grosso, já algum tanto familiarizadas com a sociedade dos brancos, mas conservando ainda os hábitos selváticos e a independência da vida errante. Os padres fizeram reiterados esforços para chamá-los ao grêmio do cristianismo e da vida social, doutriná-los, e utilizar seus serviços.

Os missionários de S.Vicente, porém, parecem que não são dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os discípulos de Inácio de Loiola para catequizar os indígenas. Por vezes conseguiram reunir na fazenda alguns bandos; mas nunca alcançaram que se sujeitassem por muito tempo a um trabalho contínuo e regular.

Atraídos pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas e enfeites, acudiam de quando em quando ao seminário; mas no fim de um a dois meses quando muito aborreciam-se do trabalho, entregavam-se à sua natural indolência e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se de novo pelas matas do Rio Grande, continuando sua vida nômade e selvática.

(continua...)

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