Por José de Alencar (1875)
Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares, o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade.
Ao passo que o mancebo vagava por entre a espessura, seu espírito debatia-se no turbilhão de sensações que o assaltara. Debalde tentou destacar uma idéia dêsse caos e refletir sôbre o acontecimento, que lhe subvertera a existência. Como uma fôlha convolta pelo remoinho de vento, sua mente era arrastada por um tropel de impressões a que não podia subtrair-se.
Foi quando serenou êsse primeiro alvorôço, que seu pensamento desprendeu-se, mas ainda confuso e desordenado. Tinha êle parado em frente de um arbusto morto e olhava-o com expressão compassiva.
— Eu era como êsse angelim, que nasceu no outro inverno. Quando êle crescia e copava, não sabia que a sêca havia de chegar e despí-lo das fôlhas, matando-lhe a raiz. Como êle, eu não vi a desventura que vinha roubar-me toda a minha alegria!…
Cego que eu fui!… Pensei que êste doce engano havia de durar sempre, sempre!…
Ao redor de mim tudo mudava. Os grelos que brotaram quando vim ao mundo, já estão árvores da mata. Os garraios de meu tempo ficaram touros e morreram de velhice. Os poldrinhos com que eu brincava em menino cansaram de campear.
As bezerrinhas do ano em que saí a vaquejar com meu pai tornaram-se novilhas e delas nasceram outras, que produziram todo gado novo.
As ramas do maracujá que rebentam com as primeiras águas cobrem-se de flores; das flores saem os frutos que espalham na terra as sementes e das sementes brotam novas ramas, que por sua vez cobrem-se de flores até que murcham e secam.
Tudo muda. Passam os anos e levam a vida. Mas ela, Flor, eu acreditava que havia de ser sempre a mesma, sempre solitária e sempre donzela, como a lua no céu, como a Virgem em seu altar. Eu a adoraria eternamente assim, no seu resplendor; e não queria outra felicidade senão essa de viver de sua imagem. Nenhum homem a possuiria jamais. Deus não a chamava a si, e a deixava no mundo unicamente para mim.
Um riso amargurado cortou-lhe a meditação.
— E de repente apagou-se o encanto! Flor tem dezenove anos. Sua mãe casou-se dessa idade, e há de estar pensando no enxoval da filha. Noivos não faltam. Já apareceu o primeiro, êsse capitão Marcos Fragoso. É moço, bem parecido, rico e fidalgo, pode agradar-lhe, e…
Arnaldo estremeceu ante o pensamento que despontava, e arredou o espírito dessa idéia que incutia-lhe horror.
— Já uma vez, prosseguiu êle, tinha-me enganado. Quando brincávamos juntos, cuidava que havíamos de ser meninos toda a vida; que eu poderia sempre carregá-la em meus braços; e ela nunca me veria triste, que não me abraçasse. E um dia ficou moça; e eu, que era seu camarada, não fui mais senão um agregado da fazenda!…
Mas então ninguém veio roubá-la à casa onde nasceu, e a êstes campos que nos viram crescer juntos. Eu a via a todas as horas e podia adorá-la de longe, como a santa da minha alma. Agora?… Vai casar-se; um homem será seu marido! E ela deixará de existir para mim! E eu não verei mais o anjo do céu que me consolava?
Arnaldo retraiu-se como quem concentra as fôrças para soltá-las de arremêsso.
— Não! exclamou êle com um gesto enérgico. Flor não pertencerá a nenhum homem na terra. Ainda que seja à custa de minha salvação eterna!
Proferida esta surda exclamação, arrojou-se pelo mato e momentos depois surdia na entrada da caverna, para onde quatro dias antes havia transportado o velho Jó.
Sentado em uma saliência do rochedo, com o corpo imóvel e hirto, com as pernas dobradas e estreitamente unidas ao peito, com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça inserida entre os dois braços, o ancião parecia uma múmia indígena arrancada a seu camucim e alí esquecida.
Entretanto seu espírito andava longe, lá fora da caverna, perscrutando o que se passava. Nenhum rumor soava na floresta, que seu ouvido atento não distinguisse para determinar-lhe a causa e conhecer, se era a queda de um fruto, a passagem de um animal, ou o farfalhar da brisa.
Êle percebera aos primeiros ruídos a aproximação do sertanejo, e o reconhecera antes que penetrasse na caverna. De um relance leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas extáticas se movessem nas órbitas.
Arnaldo parou na entrada, com os olhos fitos no velho: seu gesto denunciava uma hesitação rara em tão decidido caráter. Jó esperava que êle falasse.
— Vieste confiar-me um segrêdo, filho; eu escuto, disse afinal o velho.
— Vim para ver-te, Jó… respondeu o mancebo com uma reticência.
— Eu conheço os pensamentos dos homens, como tu, filho, conheces as manhas do gado barbatão. Teu passo era de quem vinha impaciente de chegar; e o motivo que te trazia assim pressuroso está aí dentro, e tu o escondes. Já duas vezes te veio aos lábios.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.