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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Sucediam-se os dias na vaga expectativa de um acontecimento, que parecia inevitável, quando correu a notícia da demissão de Bento Gonçalves, apeado pelo presidente dos dois comandos, o do 4º corpo de cavalaria e o da fronteira de Jaguarão. Esse e outros atos de energia teriam sopitado a resistência, cuja fraqueza contagiava os auxiliares da administração. A mudança do presidente, talvez com uma concessão a Bento Gonçalves, reanimou seu partido, sem contudo satisfazê-lo. 

A demissão do coronel foi considerada como um desafio lançado pelo governo à revolução; e portanto estabeleceu-se na campanha uma convicção de que o rompimento dessa vez era inevitável. Esse ato enchera a medida do descontentamento. 

Manuel soube da notícia em uma estância próxima, onde a trouxera um peão chegado naquele momento de Bagé. Entrando em casa, achou a mãe e Jacintinha sentadas numa esteira a trabalhar. 

— O coronel foi demitido! 

Não se disse mais palavra. Todos compreendiam o alcance do fato. Passado o primeiro movimento de surpresa, Francisca levantou-se e foi procurar a mala velha de João Canho; enquanto a filha tratava de arranjar a roupa do irmão, a velha limpava a reiúna, encostada e sem serventia desde 1812. Manuel de seu lado revistava seus arreios, o laço e as bolas, consertando ou substituindo as peças estragadas. 

Estes preparativos de longa ausência, talvez eterna, duraram dois dias. Ao cabo deles, o gaúcho abraçou a mãe e a irmã, que se debulhavam em pranto, e montando no Juca, partiu a galope acompanhado da Morena e mais tropilha. 

Em caminho soube que o coronel já não estava em Jaguarão, e se retirara à sua estância. Seguiu, portanto, na direção de Camacã, onde chegou ao cabo de oito dias de jornada. 

Bento Gonçalves tomava seu mate chimarrão passeando na varanda.

— Então, que novidade é esta? 

— Eu assim que soube, vim. Bem si que meu padrinho não precisa de mim; mas o coração me pedia. 

— E por que não hei de precisar de ti, rapaz? disse Bento Gonçalves abraçando-o. Estava justamente eu à procura de três camaradas valentes e prontos para tudo. Assim arranjo-me contigo que vales por três, mas tens um corpo só, o que não dá tanto na vista como um farrancho de capangas.  

— Força, não terei; mas boa-vontade tenho por dez. Pode ficar certo. 

Bento Gonçalves ia freqüentemente a Porto Alegre, onde gozava de uma grande popularidade conquistada por seu caráter franco, gênio liberal e maneiras cavalheirescas. Em princípio, essas excursões tinham um fim político; irritado com a demissão, assentara de reagir, ameaçando a presidência com manifestações populares em favor de sua causa. 

Satisfeito porém o amor-próprio com o receio que seu nome incutia, descansou na certeza da mudança próxima, não só do presidente, como do governo-geral pela eleição de Feijó para o cargo de regente. O fim das constantes visitas a Porto Alegre já não era senão dar pasto à prodigiosa atividade, consumindo o tempo nos divertimentos da capital, e nos jogos de azar onde se perdiam grandes somas. 

Depois de sua chegada a Camacã, era Manuel quem acompanhava Bento Gonçalves nessas excursões freqüentes. Naquele tempo não havia segurança pelos caminhos; e um homem da posição do coronel devia ter muitos inimigos, para com razão acautelar-se contra qualquer surpresa.  

Tal era porém a confiança que tinha em si e no camarada, que viajava tão tranqüilo como no meio de uma escolta. 

 

XIII 

A PROMESSA 

 

Uma semana tinha decorrido, depois que Manuel Canho deixara Ponche-Verde. 

Deviam ser 10 horas da manhã. 

Estava Jacintinha sentada no alpendre da casa ocupada em bordar a crivo uma nesga de cambraieta. Seus dedos ágeis iam debuxando os relevos do desenho, estampado em um molde cujos lavores apareciam sob a transparência do linho. 

A linda menina prometera a Nossa Senhora cobrir com uma toalhinha bordada por suas mãos o berço de seu adorado Menino Jesus, para que a Virgem em sua infinita bondade conservasse à mãe o filho ausente. 

Por isso, desde muitos dias se ocupava a menina tão assiduamente com esse trabalho. Estava impaciente por cumprir a promessa, e assegurar para seu querido irmão a proteção da Mãe de Deus. Em sai fé ingênua, imbuída das crenças populares, pensava ela que o favor divino dependia dessa humilde oblação. Acabada a toalhinha e levada ao altar para servir no dia de Natal, Manuel ficaria invulnerável; não haveria mal que lhe chegasse mais. 

Soou no campo o tropel de uma cavalo. Erguendo os olhos com a curiosidade própria de sua vida retirada e monótona, viu Jacintinha um cavaleiro desconhecido; pelo ar, como pelo trajo, dava mostra de não ser do lugar. Tinha um chapéu de abas curtas e reviradas, com galão à moda espanhola; calções e jaleco de pano verde-escuro bordado com torçal escarlate; faixa de seda vermelha; e botas à escudeira. 

O cavaleiro também de seu lado já tinha descoberto Jacintinha, e olhava para ela atentamente. Passando além da casa, voltou-se na sela e assim caminhou algum tempo para não perder de vista a moça. 

(continua...)

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