Por José de Alencar (1870)
O bordado do bastidor foi expressamente inventado. Procurando uma letra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira à mente; ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na imaginação? Foi uma e outra coisa. Serviu-se do pretexto da amiga para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.
Depois da cena que teve lugar na tarde do jantar, Amélia arrependeu-se. Receava ter-se excedido; bastava-lhe matar a ilusão do mancebo, não devia ter excitado o horror. Mas o afeto de Leopoldo a tornara exigente; ela queria ser amada por Horácio da mesma forma, com aquela sublime abnegação.
Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a afeição do noivo, e regozijava-se com a idéia da surpresa que lhe guardava.
A ausência do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então uma luta em seu espírito. Devia esquecer o homem que não amava nela senão uma fantasia?
O tom de Horácio na última noite a irritou. Seu amor-próprio indignou-se com o menoscabo do moço, e súbita revelação de sua alma lhe advertiu que esse casamento causaria sua desgraça.
No dia seguinte ao do rompimento, Amélia foi, como havia dito na véspera, à casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a ver Leopoldo depois do baile.
Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo falou, e a moça embebeu-se daquelas palavras apaixonadas como de um eflúvio suave. Em um momento de pausa, disse Amélia:
— O senhor passou por nossa casa na terça-feira?
— É verdade. Por que pergunta?
— Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.
— Não me animava.
— Por quê?... Mamãe já lhe ofereceu nossa casa.
— Tenho receio de ser importuno.
— Pouco saímos agora; à exceção das noites que passamos aqui, estamos sempre sós; mamãe lendo e eu tocando ou fazendo algum trabalho de lã.
—E ninguém mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar interrogador.
— Ninguém! respondeu Amélia em tom grave.
Leopoldo ficou suspenso, buscando compreender o pensamento da moça. Era mágoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe anuviara a fisionomia?
Mas o sorriso prazenteiro iluminou o semblante da moça:
— Sabe? Naquela noite do baile, me contaram uma história muito interessante, disse ela.
— Não se pode saber?
— O senhor pode. Foi a história de um sorriso, disse Amélia sublinhando a palavra com um gesto faceiro.
— Quem lhe contou? Foi ele?
— Foi o senhor.
— Eu?
— O senhor mesmo. Já não se lembra?
— Quer gracejar?
— O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janela do toucador.
Leopoldo adivinhou.
— Então ouviu tudo?
— Tudo!...
— E... perdoou-me?
— Não; não tinha de quê, mas...
E seus belos olhos límpidos repousaram no semblante do moço.
— Mas compreendi!
Nesse momento D. Leonor chamou Amélia.
CAPÍTULO XIX
Quando recobrou-se da surpresa em que tinha ficado, Horácio não achou em si mais do que o desejo veemente e irresistível de possuir o ídolo por tanto tempo sonhado.
— Serão meus! murmurou consigo. Serão meus a todo preço. Se for necessário um escândalo, não hesitarei. Mas Amélia não deve ter-se esquecido de mim já tão depressa; ela me tinha afeição. Vou pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-ei a todas as condições. Que sacrifícios são bastantes para pagar a felicidade de beijar aqueles dois mimos da natureza!
Instintivamente Horácio seguiu na direção da casa do Sales, com intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia ele de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do momento.
Já não estava o negociante no escritório; nesse dia se retirara mais cedo.
Malograda sua esperança, o leão foi caminhando pela Rua Direita sem direção, como quem não sabe o que fazer. O instinto que no deserto guia o rei dos animais à sebe odorífera onde retouçam as gazelas, o conduzia naturalmente para a Rua do Ouvidor.
Tinha chegado à esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu pela calçada Carceler. Horácio acompanhou-o com a vista, querendo nele reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mês não vira.
Se com efeito o moço era Leopoldo, tinha ele sofrido grande transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu traje, brusco em suas maneiras, sempre de cabelos arrepiados e barba revolta, aparecia um cavalheiro de boa presença, com a sóbria elegância que tão bem assenta nos homens sisudos. Essa espécie de elegância é apenas um ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços à moda.
Com seu fino tato e longa experiência, Horácio, reconhecendo o amigo, adivinhou o segredo daquela súbita metamorfose. Ele sabia que só há um condão capaz de produzir tais encantos: é o olhar da mulher amada e amante.
Ame alguém e não saiba se é retribuído. Toda sua existência se projeta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser e anseia por nele infundir-se. Vive-se fora de si mesmo, alheio a seu próprio eu; como o peregrino perdido longe da pátria, o homem exilado de sua pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.