Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
E nisso pensando, foi correndo um por um todos os bolsos de seus vestidos, sem esquecer o do relógio; e até passou os dedos pela sua basta cabeleira, presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelos que lhe escondia as orelhas.
Porém nada mais havia; também duas cartas tão curiosas já eram de sobra em uma só noite.
O estudante pensou no conteúdo de ambas, e ainda reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças, que ele adivinhava quais eram, quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte. Augusto correu para a gruta encantada.
Chegando ao pé, foi de mansinho se aproximando, sentiu rumor e ouviu que alguém dizia em tom baixo:
— Oh! Se ele vier!
— Ei-lo aqui, minhas belas senhoras, exclamou o estudante, que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomarem a ofensiva; eis-me aqui!...
As moças, que estavam todas sentadinhas no banco de relva, como quatro pombas rolas enfileiradas no mesmo galho, ergueram-se sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante; era isso mesmo o que ele queria, pois continuou:
— As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me entusiasmo vendo quatro auroras em lugar de uma só. Belo amanhecer é este, sem dúvida… mas, exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes… eu me sinto arder... juro que tenho sede... Eis ali uma fonte... Mas, meu Deus, é a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!... Bem! Bem! Melhor… uma gota desta linfa de fadas!...
— O que é que ele está dizendo, mana? exclamou d. Quinquina, apontando para Augusto, que tinha entre os lábios o copo de prata.
— É preciso decidir-nos a começar, disse d. Gabriela.
— Principie você, disse d. Joaninha.
— Eu não! comece você.
— Eu não, que sou a mais moça.
Então o estudante, que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água, voltouse para elas, e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras estudado acento:
— Começo eu, minhas senhoras, disse, e começo por dizer-vos que aquela fonte é realmente encantada; sim, eu tenho, à mercê de sua água, adivinhado belos segredos: escutai vós Perdoai e consenti que vos trate assim, enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar de mim, por haver amado a todas vós numa só noite; que ingratidão!... Eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! Mas, desgraçadamente, a fada que preside àquela fonte, quer mais alguma coisa ainda, e me dá uma cruel missão! Ordena-me que eu diga a cada uma de vós, em particular, algum segredo do fundo de vossos corações, para melhor provar os seus encantamentos. Pois bem, é preciso obedecer; qual de vós quer ser a primeira?... Eu não ouso falar alto, porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns profanos. Qual de vós quer ser a primeira?...
Nenhuma se moveu.
— Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. Escolherei... lluminaime, boa fada! Quem será?... Será… a sra. d. Gabriela?
— Eu?! respondeu a menina, recuando.
— A senhora mesma, disse Augusto, trazendo-a pela mão para junto da fonte; vinde, senhora, para bem perto do lugar encantado; agora silêncio... ouvi. — Ele está mangando conosco, murmurou d. Clementina.
Augusto já estava falando em voz baixa a d. Gabriela.
— Vós, senhora, ainda não amastes a pessoa alguma; para vós amor não existe: é um sonho apenas, e só olhais como real a galanteria; vós queríeis zombar de mim, porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três companheiras vossas, e todavia, estais incursa em igual delito, pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.
— Senhor!...
— Oh! Não vos impacienteis; quereis provas?... Há quatro dias, uma vendedora de empadas, que se encarrega de vossas cartas, enganou-se na entrega de duas; trocou-as e deu, se bem se lembra a fada, a de lacre azul ao sr. Juca e a de lacre verde ao sr. Joãozinho.
— Ora… ora, senhor! Quem lhe contou essas invenções?
— A fada! E fez mais ainda. Vós não achareis em vosso álbum o escrito desesperado do sr. Joãozinho, que vos foi entregue no momento de vossa partida para esta ilha; sou eu que o tenho, a fada mo deu há pouco com sua mão invisível. — Impossível! balbuciou d. Gabriela, recorrendo ao seu álbum.
Ela não podia encontrar o escrito.
— Sr. Augusto, disse então, toda vergonha e acanhamento, eu lhe rogo que me dê esse papel.
— Pois não quereis ouvir mais nada!...
— Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender; mas dê-me o que lhe pedi.
— Daqui a pouco, senhora, na hora de minha partida para a corte, porém com uma condição.
— Pode dizê-la.
— Sois sobremaneira delicada, senhora; este excesso vos deve ser nocivo; quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha mão até à porta da gruta?...
— Com muito prazer.
Então os dois se dirigiram para fora; passando junto das três companheiras,
d. Gabriela pôde apenas dizer-lhes:
— Até logo.
Chegando à porta, Augusto falou já em outro tom:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.