Por Visconde de Taunay (1871)
Na manhã de 24 uma chuva torrencial, e contínua, não tardou em transformar em atoleiro o solo argiloso sobre o qual acampáramos. O vento áspero e impetuoso lançava-nos verdadeiras enxurradas. Assim mesmo partiu Pisa-flores, o bravo rio-grandense, à testa de cem homens, a um quarto de légua, à margem do Prata, abrir uma picada num lugar indicado por Lopes. Este serviço, rapidamente executado, deu aos trabalhadores o ensejo de descobrir na mata palmitos em profusão, inesperado recurso que levou o comandante a mandar que estancássemos, porque também ali estava o solo mais seco. Não pôde, entretanto, a marcha recomeçar antes das cinco da tarde, e o que foi este deslocamento de posição só uma palavra traduz: desolação. Observando-nos de muito perto assaltaram-nos os paraguaios, com vaias e tiros, a que tratávamos de responder do melhor modo. Mas o que mais penoso foi, ao atravessarmos grande charco, o banho gelado em que até a cinta afundamos. Rompeu-se a formatura; nem sequer nos víamos mais. A espessa escuridão que sobreviera seguiu-se a noite, sem intervalo, uma destas noites propícias aos desastres e aos crimes: a mais de um doente afogaram os seus carregadores.
As oito horas passara o grosso da coluna acampando então, às dez veio a retaguarda ocupar 0 seu posto. Até tarde, pela noite adentro, chegaram retardatários, condutores de carretas extraviadas e até coléricos que haviam podido pôr-se de pé, depois de atirados das padiolas ao chão.
Deu-se, entretanto, uma cena que à memória consola evocar. Entre as padiolas, onde prostrados se achavam soldados, uma houvera que a queda de um dos padioleiros ia submergir no pântano, prestando-se os demais três, talvez, a este caso que os libertava do fardo, quando um quarto apoio, o ombro de um oficial, se apresentou para salvar o infeliz que ia perecer. O tenente Clímaco dos Santos Sousa, autor deste ato de altruísmo, teve, em prêmio, os louvores de nós todos.
Fôramos ficar em terreno menos lodoso; mas muito tempo decorreu antes que pudéssemos acender a lenha encharcada.
Era felizmente resinosa. Oh! com que alegria saudamos as primeiras chamas! Qualquer lugar junto destas fogueiras era cobiçado; quase todos conseguiram, contudo, aboletar-se, sãos e enfermos misturados. Morreram até dois coléricos ali. Foram os cadáveres removidos, eram heranças a receber, lugares de calor. Apareceram logo os palmitos que os mais ágeis dos nossos tinham corrido pedir aos trabalhadores do capitão Pisa-flores, apenas se sentiram um pouco alentados pelo fogo Foi o alimento prontamente cozido sobre brasas na cinza e cada qual teve o seu quinhão, uns mais, outros menos.
Nunca se desmentiram os hábitos hospitaleiros da mesa brasileira, nem ali nem em parte alguma; e até mesmo nas mais terríveis conjunturas.
CAPÍTULO XVII
Chegada às divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastações da cólera. Perplexidade do coronel Camisão. Abandonamos os enfermos. A separação. Ao tenente-coronel Juvêncio e ao coronel Camisão salteia a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a marcha. Chegada à fazenda de Lopes; morre este ali, de cólera. Seu túmulo.
A picada que acabava de abrir o capitão Pisa-flores dera já passagem ao nosso guia que, vendo-se, afinal, nas divisas de sua propriedade, dessa fazenda que tanto amava, e de que tão freqüentemente falava — não pudera resistir ao ímpeto de a palmilhar o mais depressa possível. Assim se adiantara com o filho e os refugiados do Paraguai. Era a largura da picada suficiente para dar passagem aos homens, mas não ainda aos armões e bocas de fogo. Havia ainda a melhorar as rampas lodacentas do rio, o que pediria tempo, dado o estado de fraqueza em que nos deixavam a moléstia e a fome.
Foi só às dez da manhã de 25 que começamos a nos mover para galgar a margem direita do Prata, onde ocupáramos uma eminência dominadora de toda a circunvizinhança. Forçadamente, ia o transporte ser extremamente lento; nem de outro modo seria possível. Sublinhar o número de padiolas, que tinham de transpor o rio, a 96, cada qual tomando oito homens que se revezavam, todos, aliás, de má vontade, mostrando os mais recalcitrantes os pés esfolados e tintos de sangue. De espada em punho exigiam os oficiais o cumprimento deste dever, tanto mais penoso quanto dele se não podia esperar nenhum resultado favorável; achando-se quase todos os enfermos, como de antemão, fadados à morte Sacrificava-se assim aos moribundos o que ainda restava à coluna de força e futuro.
Já desde a irrupção da peste perdêramos muito mais de cem homens; uns vinte acabavam de ser enterrados no acampamento que deixáramos e com eles o tenente Guerra.
As duas da tarde e à custa de muito trabalho tudo estava na margem direita, queimada, que fora a nossa última carreta e mortas as suas juntas para que as comêssemos. Multiplicaram-se durante toda a tarde os casos epidêmicos a ponto de se tornar impossível imaginar como poderíamos avançar. Novo arranjo imaginado pelo comandante, para as padiolas, levou ao desespero o descontentamento dos soldados, que nele enxergaram um aumento de carga e de fadiga. Chegamos a pressentir que entre eles se gerava a idéia de geral "salve-se quem puder". Metendo-nos no mato, diziam, "ao menos alguns de nós chegarão a Nioac; em todo o caso deixaremos de ser escravos de moribundos, pela mor parte desvairados".
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.